
A Av. das Acácias, embora muito desconhecida, é uma via tão antiga quanto a própria cidade em que é situada. Em virtude de sua antiguidade, a avenida detém, unicamente, de construções cujo estilo arquitetônico é oriundo do século XVII, isto é, prédios altos de dois ou três andares que geram uma sombra refrescante especialmente apreciada durante os dias quentes de verão.
Um desses prédios, o número 22, tinha o andar térreo habitado por dona Berenice, uma cartomante respeitada — ou tão respeitada quanto uma cartomante pode ser —, a qual tem residido na antiquíssima avenida pelos últimos trinta anos e que, quando o morador do andar superior se mudou, alertou imediatamente o filho de um casal de amigos já falecidos, resultando no aluguel do andar recentemente desocupado pelo homem, Daniel Faraday, e pela filha do mesmo, Marianne, uma carinhosa garotinha de dez anos cuja pele alvíssima fazia com que dona Berenice inevitavelmente se lembrasse da Branca de Neve do conto-de-fadas.
O papel de administrar a residência pertencia a Marianne, era ela quem punha o pai para realizar as tarefas domésticas que ele, alguém muito indolente, negligenciaria para ficar dormindo, sua atividade preferida. Agora mesmo, por exemplo, Daniel, ainda de pijama, jazia deitado no sofá, tirando um cochilo ao invés de dar continuidade ao preparo do almoço como apontado no cronograma meticulosamente organizado pela filha e então colado por ela na porta da geladeira.
Marianne retornou da escola por volta de quinze minutos após o pai ter decidido tirar um cochilo, cumprimentou dona Berenice, uma solteirona sexagenária que a garotinha havia passado a ter como sua própria avó, enquanto esta última se despedia de uma cliente não tão satisfeita com o futuro vislumbrado pelo tarô, daí subiu a escadaria em formato de caracol, descalçou os sapatos, segurando-os com dois dedinhos da mão esquerda, destrancou a porta do aposento superior e adentrou no mesmo, logo se deparando com o pai adormecido: era um homem de estatura mediana, tinha cabelos e olhos escuros e usava óculos para miopia.
Ela, uma garotinha bochechuda de cabelos castanho-escuros e olhos azul-safiras, se esgueirou à cozinha, pegou um copo, encheu-o com água, daí, sorrateira, Marianne cruzou o espaço de volta a sala de estar, esticou o braço, pondo o copo d’água a alguns centímetros de altura do rosto do seu pai e, sem dó nem piedade, virou-o, ensopando o adormecido e o despertando com um susto.
Daniel ficou de pé em um salto, abriu e fechou os olhos diversas vezes, balançou a cabeça com a cabeleira escura lançando gotículas de água para todos os lados, percorreu a sala de estar com o olhar a fim de confirmar sua presença no andar superior ao invés de em uma embarcação naufragante, em tal processo, lobrigou Marianne, assim compreendendo o que se sucedera. Ele nem pensou em repreendê-la, apenas soltou uma risadinha e esboçou um sorriso tranquilo no rosto, era alguém particularmente difícil de irritar.
— Desculpe-me, Mari, peguei no sono — falou Daniel Faraday com uma entonação despreocupada tão característica da sua parte. — Pode me pegar uma toalha, por favor?
Sua filha, sem emitir um único som senão o da sua respiração, foi ao banheiro, pegou uma toalha e entregou-a de qualquer jeito ao pai. Ela, ao contrário de Daniel, era uma pessoa que conseguia se enraivecer com facilidade, claramente havia puxado isso de sua mãe, a qual era só carinhos a maior parte do tempo, mas que poderia soltar todos os demônios do inferno em alguém caso este a contrariasse ou fizesse a menor das provocações. Daniel fora visita das legiões infernais em incontáveis ocasiões.
— Papai, o senhor não acha que dorme demais? — questionou Marianne com uma frigidez infantil em sua voz.
— Não existe isso de dormir demais, Mari — respondeu Daniel, enxugando-se. — Ei, por que não troca de roupa e saímos para almoçar fora?
Aquele sentimento de enraivecimento dissipou-se em um instante, Marianne sorriu e saltou no colo do pai, abraçou-o, encheu-o de beijinhos no rosto e então correu para o quarto para trocar de roupa, escolhendo um vestido branco, sapatinhos vermelhos e uma travessa da mesma cor com a qual fora presenteada por dona Berenice poucas semanas atrás.
Daniel, por sua vez, também trocou de roupa, abandonando o pijama em prol de uma calça jeans azul-marinho e uma camisa branca de abotoar cujas mangas ele pediu à filha que enrolasse até o cotovelo, eis uma ação que, aos seus trinta e dois anos, o atual patriarca da Dinastia Faraday nunca aprendera a efetuar.
O único filho de Charles Faraday, com a carteira no bolso, o relógio de prata no pulso e os dedos entrelaçados nos da filha, estava pronto para desfrutar de um almoço inteiramente normal naquele início de tarde, acenou para dona Berenice quando, ao descer a escada, avistou a cartomante recebendo mais uma cliente, então abriu a porta do prédio de dois andares e defrontou-se com Cassandra que, três dias depois de ter recebido o endereço de Daniel Faraday, enfim decidira visitá-lo.
O pai mirou a filha e, com o olhar, disse a ela que infelizmente teriam de adiar o almoço no restaurante preferido dela — “O trabalho é prioridade”, era o que ele vivia a dizer e Marianne a concordar. Ela balançou a cabeça e, acompanhada do pai e da cliente, retornou ao andar superior, incumbindo-se de passar a quantidade de café necessária para preencher o velho bule de prata e assar uns biscoitinhos de avelã para servir a cliente ao passo que Daniel atendia Cassandra em seu escritório, um quarto confortável dotado de um grande janelão, duas cadeiras acolchoadas com uma mesa circular entre estas, três estantes abarrotadas de livros e uma mesa de escrivaninha, a qual era raramente usada, acompanhada de um assento originalmente comprado pela Marianne Faraday original para presentear o marido durante o trigésimo segundo aniversário dele.
Daniel se apresentou devidamente para a cliente, apertou a mão dela, perguntou qual era o seu nome, então se recostou na cadeira, cruzou as pernas, pôs os cotovelos em cima dos braços do assento, juntou a ponta dos dedos, esboçou um sorriso tranquilo e encantador do tipo que inspira confiança em outrem e, por fim, mirou-a nas profundezas esverdeadas dos belíssimos olhos de Cassandra.
— Fale-me do seu problema, Srta. Candalialta — as palavras saíam dos seus lábios com a mesma sonoridade de uma terna melodia provocada pelo soar de um violino.
Cassandra foi interrompida pela pequena Faraday, ela entrou no escritório trazendo uma bandeja de prata em suas mãos, apoiou-a na mesinha circular, dispôs o bule prateado de café, duas xícaras de porcelana, alguns biscoitos de avelã em cima de um pratinho de vidro, então Marianne pediu desculpas pela interrupção, botou a bandeja desocupada embaixo do braço e, com a graciosidade de uma dama-mirim, retirou-se do cômodo.
— Essa menina é sua filha?
— Sim, sim.
Daniel preencheu as duas xícaras com café, tomando uma para si e empurrando a outra juntamente com os biscoitos para a cliente.
— Obrigada — Cassandra, após bebericar um pouquinho de café, agradeceu.
— Não há de quê — disse Daniel. — Srta. Candalialta, em relação ao seu problema...
— Sim, o meu problema. Bem... — ela, constrangida, suspirou. — O meu problema, Sr. Faraday, é que... — Cassandra pô-lo a parte do sonho recorrente. — Eu não aguento mais isso — a cliente, no fim, confessou. — Eu quero que pare. Urgentemente.
Daniel, a priori, nada disse. Mordiscou um pedaço de biscoito, bebericou parte do líquido preto, forte e quente contido em sua xícara, engoliu-os devagar, fechou os olhos por um instante como se estivesse pegando no sono, abrindo-os de repente no instante posterior e daí finalmente dirigindo a palavra a Srta. Cassandra Candalialta.
— Felicite-se em saber que o seu problema é um de resolução bastante simplória, Srta. Candalialta — anunciou Daniel. — Para resolvê-lo, basta à senhorita sujeitar-se a passar uma noite em minha residência — ele, um observador excelente, percebeu um traço de apreensão no rosto da cliente. — Obviamente, a senhorita pernoitará num quarto diferente do meu e trará uma acompanhante para garantir a sua segurança. Não que a senhorita vá correr algum perigo — o pai de Marianne acrescentou. — Está de acordo com esses termos, Srta. Candalialta?
— Sim, Sr. Faraday.
— Excelente.
— Ah, Sr. Faraday, em relação ao pagamento... — os traços do rosto de Cassandra se moldaram em um sorriso meio bobo, meio envergonhado. — Eu soube o que o pagamento requisitado pelo senhor é um tanto, ah, diferente.
— E, de fato, é.
— Qual será o pagamento no meu caso?
— O verde dos seus olhos.
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