terça-feira, 18 de outubro de 2011

Identidade


Quem sou eu?

Aqui, flutuando em órbita, mantenho os olhos fechados, acentuo minha audição, fico a esperar, pacientemente, por um barulho, um murmúrio, uma onda sonora que me faça sentir necessário, sirenes, estouros, um grito por ajuda.

E enquanto aguardo pela manifestação que me fará abandonar o estado estático em que me encontro, descubro-me ponderando sobre essa questão tão elementar: quem sou eu?

Eu seria o último filho de uma civilização extinta?

Eu seria o único filho de um simplório casal de fazendeiros do Kansas?

Eu seria o repórter desajeitado e introvertido que reside na metrópole?

Eu seria o herói incorruptível que, sem descansar, voa pela cidade protegendo a vida?

Quem sou eu?

Um amigo certa vez comentou como é difícil não pensar em mim como um deus...

... E também como é notável o fato de eu não pensar em mim dessa maneira.

Eu imaginei que algum dia viria a questionar minha identidade, contudo ainda assim me encontro surpreso com seu advento — é um tanto quanto engraçado: eu tenho absoluta certeza daquilo em que acredito, no arcaico e extraterreno símbolo para esperança, o brasão da minha ancestralidade biológica, gravado em vermelho no meu peito e, no entanto, careço da mesma absoluta certeza em minha identidade. Quem sou eu?

Eu seria um deus abençoado pelo Sol amarelo?

Eu seria um messias enviado pela graça dos céus?

Eu seria um lembrete de que sempre há esperança?

Eu seria um tolo que esta travando uma batalha perdida?

Eu seria um pobre coitado destinado a escolher entre minha a felicidade e a alheia?

Quem sou eu?

Eu sinto minha audição ser estimulada, o disparo de um projétil, um grito agonizante por socorro.

Eu abro meus olhos, eu movimento meu corpo, descendo em direção à origem do estímulo, alcançando-o em uma questão de segundos — precisamente o espaço de tempo necessário para eu me esquecer da dúvida elementar e concentrar-me por inteiro naquela identidade definida pelo emblema em meu peito.

Quem sou eu?

Aqui, nesse momento, eu sou a — ESPERANÇA.

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