sábado, 8 de outubro de 2011

Tentação



Eu sabia estar em uma estrada para a perdição, ou melhor, para a tentação desde o início e, afinal, como poderia ser diferente? Que homem, em toda a Criação, do Big Bang ao iPhone, teria obtido êxito em ignorar uma mulher atraente e inteligente que nunca perdia uma chancezinha sequer de flertar com ele? Nenhum. Nenhum homem conseguiu aplicar uma dose de indiferença no seu organismo e, então, olhar para o outro lado. E, bem, comigo não foi nenhum pouco diferente.

Verônica, com aqueles seus cabelos loiro-dourados e olhos cor-de-mel, fazia com que eu regredisse aos meus tempos de escola, era só ela dobrar no corredor e sorrir para mim para colocar um sorrisão de orelha a orelha no meu rosto, aquele tipo de sorriso que pode ser encontrado em qualquer adolescente de quinze anos quando a garota diz um “Oi” para ele, ou melhor, um “Oi” que acredita ser para ele quando, na realidade, era destinado a uma amiga dela situada atrás dele.

Inicialmente, os nossos flertes consistiam de uma brincadeirinha inocente, uma divertida válvula de escape para ajudar a lidar com o estresse incessante da vida de um estudante de cursinho, então, em uma noite na qual nós só saímos da aula às 22 horas, eu me ofereci para acompanha-la à parada de ônibus, uma atitude muito sensata da minha parte, afinal, uma garota com aquele rostinho de anjo e um corpo pelo qual muita gente faria um pacto com o diabo para possuir não deveria ficar sozinha em um local do tipo àquele horário, assim, eu fiz companhia a Verônica, nós conversamos, trocamos mais alguns flertes pequeninos e daí ela, repentinamente, encurtou a distância, apertou os seus lábios contra os meus e, bem, eu sei que soarei como uma menininha apaixonada agora, contudo a verdade é que aquele foi um momento perfeito.

Ou teria sido caso eu não estivesse, na hora, envolvido com outra garota, Cássia, a qual desgostou de Verônica desde o primeiro contato entre as duas, bradou-a como uma “firanga estrangeira”, desenhou um rosto birrento, fez biquinho, cruzou os braços e declarou, inflexivelmente, para mim: “Eu não quero você sozinho com ela”. Agora, imagine a reação dela quando eu contei que havia beijado Verônica... Bem, se você estiver tendo algum problema para imaginar, apenas visualize aquela cena inicial da Julia Roberts e do Brad Pitt em A Mexicana, exceto que, no caso, Cássia atirou as suas coisas em mim.

Indubitavelmente, esse foi o pior momento do nosso relacionamento, tanto é que, no outro dia, eu concordei sem nem pensar duas vezes com Verônica quando ela, de um jeito tão, inocentemente, sexy, me convidou para acompanhá-la ao show do Madame Satã, uma banda regional, mais tarde naquela sexta-feira. Sem qualquer sombra de dúvida, aquela seria a noite na qual eu encontraria o caminho para todos os lábios de Verônica — ah, bela noite!

Eu saí de casa por volta das 21 horas, cheguei ao local mais ou menos vinte minutos depois, exibi a minha carteira de identidade para o segurança, esquadrinhei o lugar à procura da garota e, ao avistá-la, botei um sorriso de adolescente tarado no meu rosto e sentei-me de frente para ela que tinha em seu rosto aquela sua típica expressão de “Eu sou gostosa e sei disso”.

— O que achou? — ela, balançando os seus longos cabelos loiro-dourados, perguntou.

— Que você está parecendo uma prostituta de luxo. Adorei.

— Ótimo — ela, agora sorridente, disse. — Agora há duas loiras gostosonas com quem você não pode transar — Cássia se inclinou na minha direção e eu completei a ação, beijando-a apaixonadamente.

Eu admito ter aceitado o convite de Verônica com toda a intenção de transar, selvagemente, com ela naquela noite e, para falar a verdade, eu teria dado continuidade a esse plano se, no caminho de casa, eu não houvesse passado pelo muro pichado onde, semanas atrás, dancei com Cássia ao som de Love of My Life do Queen, a qual estava tocando no rádio de pilha de um dos muitos vendedores ambulantes da cidade (vendedores ambulantes que, estranhamente, são fixos em seus lugares).

Cássia não é o amor da minha vida e tampouco nunca poderia o ser, entretanto ela era, naquele instante, a minha garota e, apesar do intenso tesão proporcionado por Verônica, eu gostava, sinceramente, dela. Não é engraçado? Digo, não é engraçado como, às vezes, tudo que é preciso para evitar que você cometa um erro sem volta é uma música?

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