
O Inspetor Especial G. Levellier despertou de madrugada ao escutar o grito repentino do telefone, levantou-se, um tanto irritado, da sua cama, calçou as chinelas, vestiu o roupão e desceu para a sala-de-estar que era onde estava o não-tão-bendito objeto gritante, atendeu-o com uma voz arrastada, meio rouca, e escutou, atentamente, a mensagem transmitida pela voz feminina do outro lado da linha telefônica, botou o aparelho no gancho, retornou ao seu quarto, comunicou à esposa que sua assistência seria necessária e, em decorrência disso, teria de sair, trocou o conforto do pijama pelo profissionalismo irradiado por um terno preto e um casaco longo, saía da sua residência no subúrbio dez minutos depois da ligação e, em menos de meia-hora, estacionava o carro na Av. das Acácias, a via na qual ocorrera o crime daquela noite.
As luzes da avenida estavam desligadas, indicando que os seus incomuns residentes permaneciam imersos em seus mundos de sonhos, um solitário condestável de mais ou menos vinte e cinco anos jazia em frente ao único casarão iluminado, era um rapaz alto e comum, um sujeito que poderia ser esquecido com facilidade. Ele, em sua ingenuidade novata, acenou para o inspetor especial (como se isso fosse preciso!) na intenção de capturar a sua atenção, desencadeando um suspiro fatigado da parte de Levellier, ele estava velho, talvez velho demais para lidar com aqueles casos, as suas costas doíam, tinha um joelho estourado, a visão perdera a qualidade de outrora, depósitos de cálcio afligiam os seus ossos e, no silêncio da noite, os seus ouvidos conseguiam escutar o barulho incessante da desordem das suas veias — as consequências dos setenta e dois anos de idade.
Uma velha senhora (certamente, a proprietária do local) recebeu Levellier no interior do casarão de dois andares, ela pediu para desculpá-la por incomodá-lo naquele horário tão impróprio — “Não há porque se desculpar, minha senhora” — e o conduziu para o segundo andar, parando defronte para o quarto da pobre garota que tivera a sua vida ceifada naquela noite. Ali, o I.E. destacou a imprescindibilidade de ser deixado a sós para estudar a cena do crime, ocasionando o desaparecimento da proprietária escada abaixo.
Levellier, uma vez munido de privacidade necessária, atarefou-se, a priori, com a dissecação da entrada do quarto: uma porta de madeira comum que, na realidade, continha uma variedade alarmante de símbolos de magia defletora ao longo da sua superfície, indicando, desse modo, que a vítima, ou era uma pessoa obcecada com a sua intimidade, ou estava sendo ameaçada — dado o episódio daquela noite, o inspetor especial via-se inclinado a atribuir veracidade à segunda opção.
Em seguida, ele adentrou, de fato, no modesto aposento em cujo assoalho encontrava-se o corpo desfalecido de uma jovenzinha dotada de um rosto angelical e longos cabelos pretos, uma estaca prateada podia ser observada no seu peito, o rigor mortis conservara as suas mãos torcidas ao redor da empunhadura metálica, as pernas jaziam em um ângulo estranho e o ambiente cheirava, fortemente, a alho.
O inspetor especial ajoelhou-se perante aquele receptáculo vazio, esquadrinhou cada centímetro da sua constituição, memorizando-os com uma riqueza invejável de detalhes, atentou-se para a minúscula poça de sangue azul-escuro acumulada ao redor da lâmina prateada, usou um palito de madeira para coletar uma amostra, tocou a gotícula com a ponta do outro dedo indicador e concluiu a identidade da sua vítima ao testemunhar a corrosão imediata da pele tangida pelo sangue: uma aristocrata romena.
Primeira parte do conto-seriado encomendado pela heartsister, Bianca Q.
Nenhum comentário:
Postar um comentário