Não é preciso ser um Akinator para deduzir, corretamente, que eu tenho o Neil Gaiman em alta estima. De fato, ele é o meu segundo escritor preferido e, em minha humilde opinião, o melhor escritor da atualidade, assim sendo, logo que ele anunciou estar, absurdamente, empolgado por ter sido convidado para escrever um episódio para a série britânica Doctor Who, eu me senti inclinado a acompanhar tal série, o que, por complicações sem qualquer relação com esse texto, somente consegui fazer nesse semestre, quase seis meses depois de o episódio ter sido escrito, filmado e exibido. Seja como for, valeu a pena, pois assim eu tive a oportunidade de assistir a essa série brilhante de ficção científica na melhor definição possível.
Doctor Who, a série original, estreou em 1963 e contou com vinte e seis temporadas, encerrando-se apenas em 1989 e orfanando uma penca de telespectadores, demasiadamente, encantados com o universo construído pela criação conjunta de Sydney Newman, C.E. Webber e Donald Wilson (Neil Gaiman, inclusive, foi um desses telespectadores orfanados). (In)Felizmente, a criatividade hoje em dia é um bem escasso e, em decorrência disso, muitas séries do passado têm obtido remakes e com Doctor Who não foi diferente: a série recebeu uma continuação mais ou menos direta em 2005, a qual aceita como canônico os acontecimentos de 60/80, mas emprega um artifício narrativo (a Última Grande Guerra do Tempo) para poder ter uma maior maleabilidade quanto ao conteúdo das suas histórias.
Bem, eu admito carecer da paciência necessária para assistir tantas temporadas, então comecei a acompanhar a série a partir da sua 5ª Temporada (ou 31ª Temporada) na qual o Doutor é interpretado pelo britânico Matt Smith (o décimo primeiro ator a encarnar esse épico personagem) e conta com a companhia da escocesa Amelia “Amy” Pond (a belíssima Karen Gillan) e o namorado/noivo/marido dela, Rory Williams (Arthur Darvill).
Logo no primeiro episódio, The Eleventh Hour, nós somos lançados no meio de uma história já em desenvolvimento, o Doutor está se pendurando pelas pontas dos dedos na sua TARDIS (uma nave capaz de viajar pelo espaço-tempo não-tão-contínuo e que tem a aparência de uma cabine telefônica azul), a qual está balançando tanto quanto um touro de rodeio devido a um dano interno de origem inespecífica. Por conta disso, o Doutor aterrissa no quintal de um casarão na pequena cidade de Leadworth ao mesmo tempo em que a pequena Amelia Pond (sete anos) está rezando para o Papai Noel (crianças podem ser tão adoráveis!) para enviar alguém para dar cabo da assustadora rachadura da parede do seu quarto — isso que é timing!
Amelia escuta o barulho estrondoso da aterrissagem forçada da TARDIS e corre para verificá-lo, uma atitude muito corajosa que rendeu um comentário hilário da parte da minha irmãzinha bochechuda, “Se fosse eu, teria me escondido debaixo do cobertor e não saía de lá de jeito nenhum”, ao encontrar o Doutor, ela assume que ele está ali para fazer algo em relação a tal rachadura e, de fato, ele o faz: sobe para o quarto da menina e analisa o objeto do seu medo com a sua chave-de-fenda sônica, concluindo que aquilo é uma rachadura no tecido do espaço-tempo, através da qual há uma prisão alienígena em estado de alerta, pois um criminoso, o Prisioneiro Zero, escapou. E para onde ele escapou? Sim, para a Terra, especificadamente, para a casa da pequena Pond.
O Doutor, a princípio, mostra-se inclinado a estudar aquela situação com mais profundidade, no entanto tem de sair correndo para a TARDIS, que é, consideravelmente, maior em seu interior, para tentar estabilizá-la, ele promete voltar dali a cinco minutos e desaparece no ar. Amelia, então, corre para o seu quarto, arruma as suas coisas, senta-se diante do local de pouso da máquina espaço-temporal e espera e espera e espera e espera... E, doze anos mais tarde, o Doutor, finalmente, retorna! (Viajar no tempo é algo mais complicado do que parece ser).
O seu retorno, contudo, não é, exatamente, recebido com exclamações de boas-vindas: Amelia, a garota que esperou, transformou-se em uma mulher frustrada pela promessa do Doutor, frequentou vários terapeutas (ela mordia) e, agora, tantos anos depois, descobre que o último Senhor do Tempo não era um fruto da sua imaginação. E se isso não fosse o bastante para abalar com o psicológico de Amy, a chegada do Doutor também incita o fim da dormência do Prisioneiro Zero que, ao revelar-se, chama a atenção dos seus carcereiros, os atraxi, uma raça de olhos envoltos por anéis cristalinos que, gentilmente, transmite um aviso por toda a esfera terrestre: “O Prisioneiro Zero deve sair da residência humana, ou ela será incinerada!”. Eis um detalhe curioso: para os atraxi, a residência humana não corresponde à casa de Amy (ela ainda mora no mesmo lugar desde os seus sete anos) e sim ao planeta inteiro, o qual será reduzido a um punhado de cinzas nos próximos vinte minutos se o alienígena fugitivo não se retirar. Situação difícil.
Ou melhor, situação difícil para mim, ou para você enquanto que, para o Doutor, está mais para algo corriqueiro, cito-o: “20 minutos. Eu consigo” e, ao empregar um plano complicado sem ter a sua chave-de-fenda sônica nem a TARDIS para facilitar a sua vida, o caricato último dos Senhores do Tempo consegue salvar o mundo ao sinalizar a localização exata do Prisioneiro Zero, o qual é capturado pelos atraxi que, por sua vez, vão embora da Terra. Mas não por muito tempo. Veja bem, a ideia de ter um planeta nível cinco contendo seis bilhões de pessoas queimado sem um pingo de consideração é, simplesmente, um absurdo para o Doutor e, assim, ele chama os atraxi de volta a Terra e, enquanto troca de roupa, dá uma bronca no líder dos olhos voadores que o faz ir embora com o rabinho entre as pernas (metaforicamente, é claro).
Depois de mais um dia comum de trabalho, o Doutor vai a TARDIS para dar mais um salto no tempo e reaparece em Leadworth dois anos mais tarde, desta vez para convidar Amy para acompanhá-lo em suas viagens pelo universo, ela, prontamente, aceita, embarca na TARDIS e a quinta temporada de Doctor Who tem o seu início, o qual nem de longe é tão épico quanto o seu final, ou a sexta temporada como um todo, então, que fique claro que The Eleventh Hour (e os próximos dois episódios) não serve para indicar a qualidade da série.
Uma vez dito isto, eu tenho mais quatro considerações a fazer: (1) se você curte os filmes do Michael Bay, faça-se um favor e passe longe de Doctor Who, pois o atrativo da série não é a sua beleza gráfica, mas a riqueza dos seus personagens e das suas histórias; (2) os Daleks são versões malignas do R2-D2, todos nós sabemos disso, então, por favor, supere esse fato; (3) os episódios The Time of Angels (5x04), The Pandorica Opens (5x12), The Big Bang (5x13), A Good Man Goes To War (6x07) e The Wedding of River Song (6x13) deixarão vocês no ápice da empolgação; e (4):


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