sábado, 29 de outubro de 2011

Simbolismo (Avançar)





Pessoal, cliquem no player acima para escutar a música Time durante a postagem.
Obrigado!


Era o primeiro amanhecer de outro ano, a casa estava silenciosa exceto pelo barulho dos roncos e dos ventiladores, eu me levantei para beber um copo de água e usar o banheiro, encaminhei-me do quarto para a cozinha e tomei um susto ao descobrir que a porta de entrada da sala-de-estar estava escancarada, apanhei uma vassoura e, prendendo a respiração, avancei em direção ao portal, liberando um suspiro cheio de alívio ao deparar-me com o meu amigo, o dono daquela casa de veraneio, sentado no batente da porta com um cigarro na mão e um olhar distante vidrado no horizonte.

Eu encostei a vassoura a uma parede e me acomodei ao lado do meu amigo.

— Você acordou muito cedo — eu comentei. — Não sei se isso é saudável de se fazer nas férias.

— Eu tive um pouco de dificuldade em dormir — ele contou. — Uma coisa parecida com um pesadelo.

— Eu acredito que, na nossa idade, deve-se dizer “sonho estranho” ao invés de “pesadelo”.

Ele despejou uma baforada de fumaça que se dissipou na fina película de neblina daquele dia cinzento de janeiro.

— Eu faço proponho um acordo: você finge que eu disse “sonho estranho” e eu prometo nunca mencionar para a Cecília sobre a sua aventura com a Ana ontem.

— Eu acredito, meu amigo de pulmões pretos, que nós temos um acordo — eu, aos risos, disse. — Então, com o que sonhou?

— Com uma coisa que aconteceu na minha infância — ele respondeu. — Eu deveria ter uns quatro, ou cinco anos, seis no máximo, estava na piscina da minha antiga casa, ainda usava boias, minha irmã nadava de um lado para o outro como se fosse um peixe e eu olhava, completamente, admirado para ela, daí a minha mãe chegou, eu comecei a gritar para que ela me olhasse, mas mamãe me ignorou totalmente, gritou o nome da minha irmã que subiu na borda da piscina e as duas começaram a discutir sobre algo que eu, realmente, não me lembro. Foi aí que eu acordei.

Eu coloquei uma mão em cima do ombro do meu amigo, um ato de consolo, minha mente viu-se abordada por duas memórias recentes, o falecimento da sua mãe e a viagem da sua irmã para a Alemanha com o intuito de adquirir um doutorado, ergui o meu olhar para o céu nublado e vislumbrei dois aviões se afastando, rapidamente, de nós, do meu amigo principalmente.

— Sabe de uma coisa? — eu disse. — Hoje é o primeiro dia de um novo ano! — exclamei com um entusiasmo sincero. — Há 364 dias e um sem-número de possibilidades nos esperando! — acertei um soco fraco, algo muito nosso, no ombro dele. — Fique empolgado!

Meu amigo estendeu uma mão rumo ao céu como se ele estivesse tentando capturar aqueles dois aviões, fechou sua mão e desenhou um minúsculo sorriso no seu rosto. Era um novo começo.


***

Esse é um texto que, no máximo, sete pessoas entenderão, talvez oito e tudo bem, afinal, quem tem de entender a mensagem terá sucesso em decodificá-la.

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