
Cassandra incumbiu à tia Elzira a tarefa de acompanhá-la naquela noite, a do dia posterior ao seu contato inicial com Daniel Faraday. No presente momento, oito horas, ela, a tia e a dócil Marianne jaziam em um aposento pertencente ao andar inferior e, portanto, fora alugado por Daniel unicamente para que ele pudesse prestar os seus serviços a Cassandra. Qual o pagamento dado à dona Berenice? Um velho bibelô com o formato de um aristocrata austríaco.
— O cheiro é horrível e o gosto é pior ainda — disse tia Elzira à sobrinha quando esta última preparava-se para beber o chá trazido por Marianne a comando do pai.
Ela fez uma careta ao cheirar o líquido marrom de aspecto viscoso.
— Do que é feito isso? — Cassandra quis saber.
Marianne pretendia responder a indagação, entretanto viu-se interrompida por tia Elzira.
— É melhor não saber, minha querida — a mulher mais velha e experiente disse. — Há momentos em que a verdade perde sua beleza quando tocada pela luz.
— Poético — comentou Marianne.
— Obrigada, queridinha — tia Elzira, carinhosa, agradeceu. Ela, assim como muitas outras pessoas, tinha um afeto considerável pela garotinha.
Cassandra virou a caneca, engolindo o chá de uma só vez e, quase que de imediato, sentindo-se nauseada, tampou a boca com a mão e, com muito esforço, superou a vontade de procurar por um vaso sanitário.
— Para que serve essa, essa, essa — coisa mesmo? — indagou.
Marianne olhou para tia Elzira como quem pede permissão.
— Vá em frente, queridinha.
Os olhos azul-safiras da garotinha encontraram os verdes-esmeraldas da cliente.
— Para prolongar o sono — esclareceu. — Ao tomar esse chá, a senhorita continuará dormindo até que o pesadelo seja (— ela procurou velozmente em sua mente pela palavra adequada —) excetuado. Entende?
— Entendo — Cassandra soltou um suspiro cansado. — Nem acredito que isso está para acabar — deitou-se na cama. — Acho que quanto mais cedo eu dormir, mais cedo eu estarei livre, não é?
— É — respondeu Marianne.
— Então é isso que eu vou fazer — ajeitou as cobertas. — Dormir. Pode apagar a luz, por favor?
— Claro.
Marianne levantou-se, desligou o interruptor, imergindo o quarto em escuridão, daí ela retornou ao seu lugar ao lado de tia Elzira, estavam sentadas em colchonetes, e deitou-se para dormir também ao passo que a mulher mais velha pretendia ficar acordada madrugada adentro. Cassandra virou o corpo para o lado e, não muito depois, afundou em um sonho, aquele sonho.
O espaço branco acima, a neblina ao redor, uma membrana finíssima de água sobre a areia, a árvore ressecada, a menininha e a sua solidão tocante, não havia dúvida: era aquele sonho mais uma vez. Cassandra, assim como nas vezes anteriores, desdobrou-se em direção à menininha para tomá-la em seus braços aquecidos com carinho, tal ação, como já esperado, foi notada por Chapeuzinho Vermelho ergueu-se e daí esticou os próprios braços, ansiosa pelo tão cobiçado abraçado que de novo lhe foi negado: Cassandra, a centímetros da criança sorumbática, teve o seu corpo puxado para trás, aumentando o bastante o espaço entre as duas para que Daniel, subitamente projetado no sonho, pudesse se manter no ponto médio.
O pai de Marianne acenou com a mão, alertando a cliente para manter-se afastada, ela, no entanto, optou por ignorar o alerta, se aproximou dois passos, Daniel estalou os dedos e, em consequência disso, Cassandra perdeu a habilidade de mover as pernas, fincando-a ali não obstante do seu desejo. Era para o melhor.
Daniel, tendo nulificado a possibilidade de a cliente se intrometer no seu ofício, percorreu a distância existente entre ele e a menininha, parou diante dela, sorriu um sorriso afável e paterno, agachou-se, nivelando os seus olhares e, inesperadamente, a envolveu em um abraço terno e confortante, Chapeuzinho Vermelho derramou lágrimas de felicidade, enrolou os seus braços ao redor do pai de Marianne, tocou as costas dele com as suas mãos e as suas unhas que, devido à força exercida pela criança, penetraram na carne do único filho de Charles e Marianne Faraday, engendrando dez ferimentos profundíssimos e manchando de sangue as vestes cerimoniais brancas dotadas de estampas floridas que eram trajadas por ele.
— Os seus pais estão esperando por você — sussurrou Daniel, sereno, no ouvido de Chapeuzinho Vermelho.
— Eu sei — Chapeuzinho Vermelho desatou-se dele. — Obrigada.
— Não há de quê.
O corpo, ou melhor, aquilo que poderia ser considerado como sendo um corpo, da menininha se fragmentou em incontáveis e minúsculas esferas vermelho-incandescentes que ascenderam rumo à brancura limitada e desapareceram, serenamente, naquele infinito. Daniel, mesmo ferido, sorria.
Houve o despertar. O sonho acabou. A realidade, Cassandra retornou. Os olhos ainda belíssimos, porém já não esverdeados e os sonhos, ah, os sonhos... E os sonhos, finalmente, em paz.
Dona Berenice, que havia ficado ao lado de Daniel durante todo o acontecimento, a ele ofereceu uma xícara de chá quando retornou do mundo onírico de Cassandra Candalialta.
— Eu odeio chá — comentou Daniel, pegando a xícara.
— Nem sempre fazemos as coisas que gostamos — disse dona Berenice com um ar de filósofa. — E a menininha?
— Ela está em paz — Daniel engoliu um gole do chá de alecrim, estremecendo. — Ela encontrou o caminho até os seus pais.
— Por que ela escolheu a Srta. Candalialta?
Daniel delineou um sorrisinho fatigado em sua face.
— Era o nome da mãe dela.
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