
Era isso? Quer dizer, o ponto sem retorno? Não. O ponto sem retorno havia sido quando ele se descobriu incapaz de funcionar sem aquilo, isso que ocorreria em alguns instantes não era nada além de uma consequência, um jeito de pagar a sua dívida e de arranjar uma porção daquilo, não muito, apenas o bastante para pôr um fim aos efeitos da abstinência.
Dylan, o qual nem tinha vinte anos, estava encostado à parede de um dos corredores daquele grande hotel no centro da cidade, o coração batia inquietamente, a sua respiração estava irregular, algumas gotículas de suor escorriam pela sua testa e mordia, suavemente, o lábio inferior, ele estava nervoso, muito nervoso, incrivelmente nervoso e, ora, quem não estaria quando em uma situação como aquela?
Ele, trêmulo, procurou um cigarro, acendeu-o, deu uma tragada, fechou os olhos, tinha de relaxar, era fundamental estar relaxado para aquilo dar certo, entretanto queria mesmo que aquilo desse certo? Não seria melhor conversar com Rip, tentar um acordo, pedir um tempo para conseguir um emprego, largar o vício e então pagar cada tostão que devia ao traficante? Talvez. Contudo, teria Dylan à força de vontade necessária para fazê-lo? Ele nunca havia sido muito forte: um bebê prematuro, uma criança frágil, um adolescente inseguro, um viciado em heroína depois de uma única injeção.
Não...
Isso não daria certo. Era, demasiadamente, difícil para ele.
Dylan fracassaria na metade do caminho, não aguentaria ter a vida e as responsabilidades de um trabalhador comum, aquilo não era para ele, não mesmo...
Ele balançou a cabeça horizontalmente, apagou o cigarro na parede do corredor, respirou fundo repetidamente, aguardou por mais uns instantes, permitiu com que o seu coração se acalmasse e que a mente se acostumasse com aquela ideia, talvez não fosse tão horrível e desprezível assim, talvez ele até gostasse, não é? E se não gostasse... Bem, não é como se ele tivesse outra escolha — era isso ou então ter que lidar com um Rip enraivecido por não ter recebido o seu pagamento. Rip não faria cerimônia em matá-lo. E por mais que a sua vida nem de muito longe fosse uma das melhores, Dylan não queria perdê-la de jeito nenhum.
“Está na hora”, disse, quietamente, em seus pensamentos. Um último suspiro, um último momento antes de passar daquilo que, para Dylan, era um ponto sem retorno.
Dylan se dirigiu à porta do quarto 616, toc, toc, toc, uma voz masculina do outro lado indagou “Quem é?”, ele disse o seu nome, escutou alguma movimentação no interior do quarto, notou o barulho do trinco sendo destrancado e daí a maçaneta sendo girada, uma vez aberta a porta, o ocupante revelou, em parte, a sua identidade: era um homem corpulento de mais ou menos seus quarenta anos de idade, tinha cabelos curtos, um tanto grisalho dos lados, vestia um terno mais ou menos custoso e possuía em seu rosto um sorriso de vendedor de carros.
— Entre, entre.
Dylan fez como ordenado.
— Você está um tanto pálido — comentou o cliente. — É a sua primeira vez?
— Sim, senhor.
O homem pousou uma mão em cima do ombro de Dylan.
— Oh, não se preocupe, eu prometo que serei gentil, menininho.
Dylan fechou os olhos.
Era isso.
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