
São mais ou menos quatro horas da madrugada, uma fina película de neblina flutua sobre o chão e eu, sem um pingo de sono, me encontro perambulando pelas construções da Velha Cidade, monumentos da Belle Époque, um aglomerado de peças arquitetônicas que, um dia, atenderam pelo fascinante epíteto de “Paris na América”, cesso o meu vagar sem rumo diante do neoclássico Theatro da Paz, criança de Calandrine de Chermont e José Tibúrcio Pereira Magalhães, deslumbro-me ao me lembrar da decoração encabeçada por Domenico de Angelis, das representações de Apolo e Diana no cenário amazônico, penso nos sentimentos da plateia ao presenciarem os passos estonteantes de Ana Pavlova, então, eu fecho os meus olhos, permito que a minha mente navegue através do tecido do espaço-tempo contínuo e, repentinamente, consigo escutar os atores encarnando As duas órfãs de Adolphe d’Ennery ao som da orquestra sinfônica do exímio maestro Francisco Libânio Collas.
— Ora, meu bom rapaz, perderá o espetáculo se ficar estacado aí!
— É verdade! Muito obrigado por me lembrar.
Eu, sem nem estranhar, atravesso a entrada do teatro e, então, me encaminho para um dos camarotes com plena intenção de desfrutar a encantadora estreia daquele monumento neoclássico por excelência.
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