quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Uma garota entra no bar



Uma garota entra no bar, no clube, no ônibus, no barco, no avião, em qualquer lugar. Uma garota entra no bar, o ponteiro do relógio para andar, o restante do mundo desaparece e, de repente, não há nada separando você e ela senão alguns passos, um sorriso confiante e um “Oi”, ou, se for o caso, um “Olá”. Isso já aconteceu comigo, com você também e agora, meu amigo, isso acontece novamente com Fedro, escritor desempregado, sentado perto do balcão, debruçado por cima de um bloco de papel, deixando a bebida esquentar e esperando, ansiosamente, por aquela ideia genial e original que os seus neurônios têm tentado, bravamente, fabricar.

Uma garota entra no bar, iluminando por um ínfimo momento a penumbra de tal lugar, Fedro, sem ancestralidade nem grega nem romana, está retornando do banheiro, ele, surpreendido pelos raios de sol das 10 horas da “madrugada”, lança um olhar em direção à sua origem, então descobrindo que uma garota entrou no bar, oh, e que garota! Uma do tipo Mel Lisboa em Presença de Anita, linda, estonteante, jovem, sorridente, e sexy, uma garota com um rosto de santinha, uma Virgem Maria, mas que você sabe que, no fundo, é uma Maria Madalena, uma Hilda Furacão esperando pela hora certa para levantar o véu da santidade e mostrar a face da promiscuidade.

Fedro, atordoado, volta ao seu lugar, estranhamente inspirado, ele então começa a rabiscar. Quem é ela? O que está fazendo ali? O que há por trás daquele sorriso de alvorada, daquele par de olhos verde-esmeralda? Ela, toda alegre, se senta ao seu lado, inclina o corpo em direção ao barman, aperta os braços contra os peitos, destacando-os, daí pede um coquetel, um cosmopolitan, homenagem a Cosmo Tuppington, a bebida preferida das mulheres de Sex and the City, uma série que, muito provavelmente, aquela garota nem sequer desconfia da existência.

O seu nome é um mistério e o seu rosto é delicado, o escritor desempregado tem vontade de conversar com ela, contudo sente que é errado: ele tem trinta e cinco anos, uma esposa neurótica e um filho para nascer dali a algumas semanas. Fedro não se pode dar o luxo de conversar com ela, não há tempo, ele tem de escrever, urgentemente, um conto para vender, o aluguel precisa ser pago, o carro precisa de consertos e o bebê precisará de brinquedos, “Pare de olhar para esses peitos bronzeados e trate de escrever, seu vagabundo”.

Ele escreve e escreve sem parar, quase possuído, mão na cabeça, algo um tanto Chico Xavier, então para por um instante, é hora de analisar, vê as anotações desde o início e, não tem jeito, desenha em seu rosto um meio sorriso repleto de ironia: duplos sentidos, paronomásias, anagramas, neologismos e ela, a garota, sedutora, carismática, bebendo seu coquetel e flertando com o barman, um homem mais velho, entretanto não tão velho quanto Fedro. Pobre Fedro! Mesmo que possuísse a coragem para flertar com a garota, ele sabia não ter a mínima chance com ela, ora, quem, possivelmente, preferi-lo-ia aquele barman, horas na academia, corte de cabelo da moda e descompromissado? Ninguém, ninguém, ninguém.

Fedro escreve de sua tragédia, ou melhor, de sua tragicomédia, porque não há nada mais trágico e cômico que um homem velho, desempregado e casado desejando uma garota muitos anos mais nova — poderia ser O Velho da Horta de Gil Vicente em um cenário moderno se Fedro, assim como o Velho, fosse, suficientemente, corajoso... Não, corajoso, não. Egoísta. Poderia ser O Velho da Horta de Gil Vicente em um cenário mais moderno se Fedro, assim como o Velho, fosse, suficientemente, egoísta para perseguir aquele desejo instantâneo nascido no momento em que a garota entrou no bar.

É então Mnemósine, prole do egocêntrico Urano e da carinhosa Gaia, resgata uma memória das profundezas da mente de Fedro, desse modo, fazendo-o se lembrar de como há muitos, muitos anos, ele já se encontrou em uma situação similar: Fedro tinha vinte e um anos, poucas responsabilidades, um trabalho qualquer para pagar as contas e, com uma dedicação religiosa, ia todas as noites ao Akasha, um barzinho obscuro situado no porão de um casarão antigo e frequentado apenas por dois tipos de pessoas: aqueles que desistiram da sociedade e aquelas procurando por uma aventura no submundo.

Fedro, naqueles tempos, pertencia ao primeiro tipo e ela, a garota daquela época, pertencia ao segundo. Embora já não pensasse tanto naquela noite, ele não encontrou dificuldade alguma em reconstruída: estava sentado perto do balcão, bebia uma cerveja gelada, escrevia uma besteira qualquer em um pedaço de guardanapo, então sentiu a necessidade de esvaziar a bexiga, fê-lo e, voltando para o seu assento, não pôde deixar de notar uma garota entrando no bar. Ela é linda, ela é estonteante, ela é sorridente, ela é sexy e ela — provando que ninguém é perfeito — está usando uma camiseta apertada do Guns ‘n’ Roses.

Ela entra no bar e vai em direção ao balcão, acomoda-se ao lado de Fedro, pede um coquetel da moda, acende um cigarro e então olha ao redor, tentando fingir estar acostumada com aquele ambiente. Fedro solta uma risada, sente-se encantado, põe um sorriso confiante, toca o braço dela e diz “Oi”.

Fedro, o da realidade, não o da memória, estala os dedos para chamar a atenção do barman.

— Simpático, vê a conta aí, por favor. Estou atrasado para encontrar a minha garota.

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