sábado, 22 de outubro de 2011

(Sábado) Eduardo & Mônica

Na quinta-feira não teve nada,
Na sexta-feira eu fui alguém!
Estou esperando chegar o sábado,
Que nessa noite, que nessa noite eu me dou bem!
— Sábado, Viper.

Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar,
Ficou deitado e viu que horas eram
Enquanto Mônica tomava um conhaque
No outro canto da cidade, como eles disseram...
— Eduardo & Mônica, Legião Urbana.


Há muito, muito tempo, ou mesmo daqui a muito, muito tempo, alguém percebeu, ou ainda perceberá, que a maior parte dos dias é — por falta de termo melhor — irrelevante para nossas vidas: os dias começam e os dias terminam e nada de notável ocorre durante as suas horas — é tal da maldição da rotina.

Portanto, quando há mesmo um sucinto acontecimento diferente em nossa vida, nós o guardamos com todo carinho dentro de nossas lembranças, alimentando-nos da magia daquele instante espetacular até o momento em que somos abençoados com outra situação distinta, em outras palavras, nós, Homo sapiens, somos criaturas cuja principal fonte de alimentação é o incomum, o estranho, aquilo que raramente ocorreria em nosso “mundo particular”.

O dia — 2 de outubro, um sábado — começa durante suas últimas horas, parado em frente à porta de seu apartamento, Eduardo, um rapaz alto, magricela e muito míope, procura desesperadamente em seu molho de chaves por aquela que trancará a porta de entrada enquanto que, do outro lado da cidade, Mônica, uma moça de cabelos pintados de vermelho e cuja pele que raramente entra em contato direto com a irradiação solar, esta sentada no batente de seu prédio, contando os minutos em seu adorado relógio de pulso da Minnie e esperando por suas quatro de suas amigas, que vinham buscá-la de carro para sair naquela noite.

Eduardo e Mônica, ainda que vivessem na mesma cidade, nem desconfiavam da existência um do outro, ocasionalmente estiveram no mesmo lugar, para falar a verdade, eles quase se encontraram em uma festa de Réveillon há dois anos no momento em que Eduardo foi ao banheiro na esperança de livrar sua camisa da mancha de vinho causada pela falta de coordenação motora de sua namorada da época, Raíla, no caminho para o lavatório, o rapaz de óculos parou por cinco minutos para conversar rapidamente com um velho conhecido seu, Yuri, então perdendo a oportunidade de conhecer Mônica que, um tanto alcoolizada, teria esbarrado nele e o ensopá-lo-ia ainda mais com o conteúdo de sua taça — creio que seja como o romântico José de Alencar concluiu: cinco minutos certamente fazem a diferença.

Eduardo encontrou a chave, trancou a porta e desceu para pegar o táxi ao mesmo tempo em que Mônico avistou o Gol de sua amiga, ficou de pé e entrou no carro cheio de risadas e de música, depois que cada um se acomodou em seu lugar, Mônica perguntou para onde iam e Eduardo, no polo oposto da cidade, respondeu-lhe: eles iam ao Escórpio, um barzinho recém-aberto, porém a moça nunca escutou tal resposta do mesmo modo que Eduardo nunca ouviu sua pergunta, afinal, como poderia ser diferente? Nem faziam ideia da existência um do outro.

O taxista, um indiano bigodudo que atendia pelo nome de Ranjit, e a amiga de Mônica, uma seguidora do movimento wicca chamada Elaine, pisaram no acelerador de seus carros ao mesmo e rumaram para o barzinho, inconscientemente ocupando um papel fundamental para que essas duas criaturas pudessem finalmente se encontrar.

Eduardo pagou o taxista, qual — ainda que contra a vontade do rapaz — deu-lhe uns conselhos acerca de como falar com garotas em festas, mostrou sua identidade ao porteiro do bar — ele tinha o que chamam de “cara de bebê” — e logo tratou de procurar por seu grupo (Patrício, Jéssica, Teodoro e Joel) cuja intenção ao se reunirem ali era a de comemorar a felicidade de Patrício e Jéssica, um casal que, após sete anos de um namoro conturbado, finalmente resolveu noivar.

Enquanto isso, Mônica e suas amigas (Elaine, Morgana e Helena) procuravam por um lugar para estacionar o carro, encontrando uma vaga três quarteirões mais tarde, andaram de volta ao bar — uma infelicidade para Helena, qual estava de salto-alto — com toda intenção de pegar uma mesa de sinuca na parte detrás do estabelecimento e, de fato, teriam obtido sucesso caso Ranjit, o taxista, não houvesse chegado cinco minutos mais cedo ao local e estacionado na vaga disposta em frente ao bar, onde permaneceria na esperança de arranjar outro cliente, por consequência disso, as moças tiveram de se contentar em ficar na mesa paralela aquela ocupada por Eduardo e seus amigos.

Nem Eduardo nem Mônica sabia como jogar sinuca, o rapaz contentava-se em ficar observando o jogo perto da mesa e bebendo seu refrigerante — era muito fraco para com o álcool, por isso nunca bebia — ao passo que a moça, muito entusiasmada, pegava o taco de sinuca e uma garrafa de tequila e resolvia pôr a sorte à prova, ocasionalmente adquirindo a vitória, contudo desencadeando um acidente na maioria das vezes — e não foi diferente naquela noite.

O plano de Mônica dar uma tacada na bola branca de modo que esta acertasse uma bola vermelha e lançasse dentro da caçapa, uma tarefa particularmente fácil para tanto qualquer pessoa com alguma habilidade no jogo quanto para alguém que evitara beber metade de uma garrafa de tequila em menos de quinze minutos... Mônica acertou a bola branca, entretanto com força demais e na direção errada: ao invés de atingir a bola vermelha, foi lançada para fora da mesa e projetou uma trajetória certeira em direção ao pobre coitado do Eduardo que, distraído com a partida de seus amigos, só percebeu ter sido atingido no meio da testa por uma bola de sinuca quando despertou depois de uns instantes desacordado e olhou para o lado, se deparando com a, de certo modo, bendita bola.

— Você tá bem?! Você tá bem?! — indagou Mônica, que, desesperada, o sacudia para lá e para cá.

— Sim, sim — respondeu Eduardo, bastante calmo apesar da situação.

Um filete de sangue escorreu do machucado, bloqueando parcialmente a visão do olho esquerdo de Eduardo e fazendo com que Mônica quase desmaiasse. Um cavalheiro nato, Eduardo, com uma mão estancando o ferimento, ajudou a moça a se sentar numa cadeira, falou para todos manterem a calma — “Desordem de nada ajuda” — e pediu à garçonete que lhe trouxesse um copo com gelo e uma latinha de refrigerante.

— Mas para que a latinha? — quis saber a garçonete, curiosa.

— Para ela — Eduardo apontou para Mônica. — Ela esta muito assustada, precisa relaxar um pouquinho...

Ao escutar aquilo, os amigos do rapaz soltaram gargalhadas — era típico dele pôr tudo de lado, até mesmo seu bem-estar, para ajudar uma garota.

— Tome — Eduardo abriu a latinha e a entregou nas mãos trêmulas de Mônica. — Acalme-se, acalme-se, esta tudo bem.

— Tem certeza? Você tá bem mesmo? — Mônica bebericou o refrigerante.

— Sim, sim — respondeu Eduardo, massageando a testa machucada.

Eduardo olhou para os dedos, que estavam sujos de sangue.

— Ah, meu Deus! — falou Mônica, ligeiramente tonta por causa daquela visão. — Eu vou te levar no hospital — ficou de pé e olhou para Elaine e gesticulou com a mão um pedido pelas chaves do carro.

Elaine, que também havia bebido bastante, nem hesitou em entregar as chaves.

— Vamos, vamos, vamos — Mônica pegou Eduardo pelo braço.

Eduardo olhou para Patrício, seu melhor amigo, como se estivesse pedindo por uma aprovação, o rapaz assentiu com a cabeça, um gesto que dizia “Vá em frente, mano, você deve aproveitar as chances” e assim Eduardo se permitiu ser levado para o pronto-socorro ali perto pela moça meio bêbada que causara o machucado em sua testa.

Mônica, com um braço enrolado no de Eduardo, procurou e procurou pelo carro, entretanto falhou em encontrá-lo devido ao nervosismo e ao sentimento de culpa, por isso o rapaz sugeriu que tomassem um táxi, qual ele se ofereceu para pagar, quando viu Ranjit parado em frente ao bar, eles entraram no carro do indiano e mandaram-no dirigir para o pronto-socorro.

Eles desceram em frente ao prédio, Eduardo teve de impedir Mônica de saltar no pescoço da recepcionista quando ela os informou que dezessete pessoas seriam atendidas antes do rapaz, sentaram-se em silêncio na sala de espera devido à timidez de Eduardo e ao fato de Mônica estar pensando em tudo que poderia dar errado caso o ferimento dele fosse pior do que parecia — ela tremia dos pés à cabeça, ao notar isso, Eduardo segurou sua mão com firmeza.

— Calma — ele disse. — Vai dar tudo certo.

Foi então que Mônica percebeu algo surpreendente: durante todo aquele caso, ele, a vítima, nunca havia perdido a serenidade.

— Como você pode ficar assim tão tranquilo, hein? — ela quis saber. — Tem um rombo na tua testa, menino!

Eduardo colocou um sorriso discreto no rosto. — Ora, e perder a calma vai me ajudar de algum jeito? — falou. —Eu acho que só pioraria tudo — continuou. — Além do mais... Você esta tão, mas tão inquieta que, caramba, sua inquietação vale por nós dois.

Mônica riu — era sua primeira risada verdadeira desde quando seu coração havia sido partido por um wannabe do Bon Jovi (seu ex-namorado).

Eduardo e Mônica ficaram conversando sem parar daí em diante, apesar de terem quase nada em comum, gostaram bastante da companhia um do outro, falaram de arte, de música, de livros, de programas de auditório, de suas refeições preferidas, de casos um tanto constrangedores da infância e da adolescência e se surpreenderam ao descobrir que haviam estado várias vezes no mesmo lugar, porém sem nunca se encontrar.

— Você já foi alguma vez ao Parque da Residência? — perguntou Mônica.

— Sim, sim, para falar a verdade, é o meu lugar preferido da cidade — respondeu Eduardo.

— É o meu também.

— Nossa! Como é que eu nunca te vi lá?

— Talvez você não estivesse procurando.

O dia — 3 de outubro, domingo — começa durante suas primeiras horas, com um curativo na testa, Eduardo, um rapaz tímido e adorável, olha para Mônica, uma moça de gostos excêntricos e extrovertida, que retribui tanto o seu olhar quanto o seu sentimento.

— Então, uh, o que você acha de, ah — ele consultou o relógio. — Ir tomar o café da manhã — comigo?

— Eu acho que ia gostar muito — ela tocou seu estômago. — Eu estou morrendo de fome.

O rapaz soltou uma risadinha.

— OK, uh, então — olhou ao redor. — Que tal ali? — apontou para uma padaria.

— Por mim, tudo bem.

— Ah, eu sou Eduardo, prazer em conhecê-la.

— Eu sou Mônica.

— Prazer em conhecê-la, Mônica.




E os dois comemoraram juntos,
E também brigaram juntos muitas vezes depois,
E todo mundo diz que ele completa ela,
E vice-versa, que nem feijão com arroz.
— Eduardo & Mônica, Legião Urbana.

Só que tem muito mais em frente,
É só olhar, você vai ver,
Eu nunca perco uma viagem,
E a minha viagem agora é você!
— Sábado, Viper.

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