terça-feira, 27 de setembro de 2011

O sonho de Cassandra: abertura



Enigmático. Tal adjetivo brotou instantaneamente em meio ao oceano de pensamentos de Cassandra quando ela procurou por uma palavra adequada para descrever aquele lugar em que estava no momento. Enigmático. De fato, não havia palavra melhor para descrevê-lo.

Uma brancura interminável jazia acima da cabeça da moça, o horizonte era ocultado por uma densa neblina plúmbea, o chão era constituído de areia coberta por uma delgada película de água enregelante munida de uma corrente pausada que ensopava os pés descalços de Cassandra, ela estava trajada com o seu pijama azul-bebê, tinha os longos cabelos loiro-escuros soltos e, repleta de curiosidade, esquadrinhava o enigmático ambiente com os seus belíssimos olhos verde-escuros.

Um ruído, repentinamente, despedaçou o silêncio vigorante até o instante anterior, cativando a atenção de Cassandra para o centro daquele lugar, no qual notou pela primeira vez a existência de uma solitária árvore, paradoxalmente, ressecada e, embaixo da mesma, uma menininha de cabeça abaixada que tinha os seus braços enrolados ao redor dos joelhos e vestia uma capa vermelha com capuz, emulando a tão conhecida Chapeuzinho Vermelho do conto-de-fadas.

Cassandra experimentou um aperto no coração ao avistá-la, desatou um autêntico dilúvio de lágrimas e, comovida, movimentou-se ao encontro daquela criança solitária a fim de abraçá-la, de confortá-la e de amá-la encarecidamente.

Chapeuzinho Vermelho — ela teria seis ou sete anos? — ergueu a cabeça, exibindo um rosto de traços finos e delicados, sorriu um sorriso de alegria e esperança ao perceber o gesto de Cassandra, ficou de pé, estendeu os braços em direção a ela e fechou os olhos a fim de amplificar a sensibilidade do seu tato e melhor saborear a sensação de finalmente ser abraçada, ah, mas como Chapeuzinho Vermelho havia esperado por aquele momento...!

Um momento que nunca aconteceu.

Houve o despertar. O sonho acabou. A realidade, Cassandra retornou. Tinha os olhos marejados, o coração apertado e o corpo suado. Pobrezinha, pobrezinha daquela menina!

— Essa não é a terceira vez que você tem esse sonho? — perguntou tia Elzira no outro dia. Ela e Cassandra estavam almoçando em um restaurante modesto próximo ao local de trabalho da estudante de Letras.

— Quarta, na verdade — corrigiu Cassandra após abocanhar um pedaço de brócolis. Era uma vegetariana. — É horrível, tia Elzira — continuou. — Eu tenho esse sonho, então acordo, choro e choro e choro, tento voltar a dormir, mas não consigo — soltou um suspiro frustrado. — É horrível. Nunca me senti tão mal em toda minha vida — engoliu em seco. — Não conte a ninguém, tia Elzira, mas eu estou com medo de ter um colapso nervoso...

Tia Elzira desenhou um sentimento de simpatia em seu rosto e tocou, gentilmente, o braço da adorável sobrinha de vinte e seis anos, a qual estava vivendo sozinha pela primeira vez em sua vida.

— Ora, minha queridinha, não fale isso, nada de ruim acontecerá a você.

— Não quero que aconteça, não mesmo — disse Cassandra, mirando a tia.

— Por que não vai a um psicólogo? — a tia indagou. — Talvez ajude...

— Não gosto de psicólogos — ela declarou. — Para mim, eles são um bando de charlatões.

— Há quem diga isso — falou tia Elzira em um meio-sorriso. — O que acha de tentar um tratamento mais, ah, esotérico?

Cassandra ponderou por um momento.

— Pode ser — ela, em tom de quem está com um pé atrás, disse.

Tia Elzira pegou uma caneta de dentro da sua bolsa, rabiscou um endereço em um guardanapo qualquer e o entregou a sobrinha que o leu em voz alta, “Cidade Velha, Av. das Acácias, número 22”.

— Eu nunca ouvi falar dessa avenida — a universitária comentou.

— Até hoje — complementou tia Elzira.

— Sim, até hoje — concordou Cassandra.

— É porque você nunca precisou ouvir falar dela — até hoje.



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