sábado, 24 de setembro de 2011

Noite vermelha



Benjamin está cansado, teve um dia mais extenuante que o normal, ele atravessa o portal, adentrando em seu apartamento de três cômodos, tira o paletó, solta a gravata, desabotoa a camisa, descalça os sapatos, prepara um Cup Noodles, pega uma latinha de refrigerante, desaba no sofá em frente à televisão, sintoniza-a em um canal qualquer, está passando uma novela, tanto o seu título quanto à maioria dos atores do seu elenco são desconhecidos pelo rapaz de vinte e seis anos.

Ele não se importa com isso, não está realmente prestando atenção no que se dá na televisão e tampouco no gosto daquela refeição noturna — a fatiga é descomedida, os seus pensamentos estão desligando e o corpo está ali no “piloto automático”, contudo não por muito tempo...

Toc, toc. O som de batidas na porta é escutado, chamando a atenção do rapaz e pondo de volta a sua consciência no controle do corpo, ele coloca o Cup Noodles e a latinha de refrigerante em cima da mesinha de centro, fica de pé, estala o pescoço e as costas e então segue para atender a porta — toc, toc —, “Quem será?”, ele se questiona antes de espiar pelo olho mágico: é, para o seu espanto, Andréa, uma amiga de sua irmã caçula.

Benjamin já havia encontrado Andréa em outras ocasiões, em tais momentos, no entanto, ela sempre estivera em companhia de Bia e nunca tivera nada menor que um sorrisinho no rosto, desse modo, fazendo daquela situação algo, inteiramente, novo para o rapaz — não havia o menor sinal de sua irmãzinha caçula e o rosto de Andréa possuía traços de desespero e de choro. Ele abriu a porta.

— Andréa... O que aconteceu?

Ela o abraçou fortemente, encostou sua cabeça no ombro dele e se debulhou em lágrimas, uma atitude que a princípio unicamente serviu para deixá-lo mais estupefato, afinal, ele não tinha tanta intimidade assim com Andréa, suas poucas e curtas conversas haviam sido superficiais ao máximo e, de fato, ela só possuía ciência do seu endereço porque certa vez exagerou na bebida em uma das muitas festas de sexta-feira à noite e Bia, sem saber o que fazer, ligou para o irmão, implorando-o para permitir que as duas dormissem em sua casa, “Eu não posso ligar para o papai e para a mamãe e não posso deixá-la ir para casa assim; os pais dela vão matá-la! Eles pensam que ela é uma santa! Uma Madre Teresa de Calcutá da vida!”, havia dito Bia ao celular.

Benjamin, ao se recuperar do choque, afagou os cabelos escuros daquela garota de dezesseis anos, sussurrou em seu ouvido que tudo ia dar certo apesar de ele próprio não fazer a menor ideia do que seria esse “tudo”, fechou a porta, levou-a até o sofá, desligou a televisão, ofereceu o resto do refrigerante para ela e um guardanapo para limpar o rosto, disse para que se acalmasse, esperou a cessação dos soluços e daí voltou a perguntar: “Andréa, o que aconteceu?”. E ela contou sua história.

Os seus pais tinham decidido tirar umas férias da sua rotina e assim embarcaram em um cruzeiro romântico pelo literal do país, efetivamente, abandonando Andréa em seu apartamento no centro da cidade. Em virtude disso, Andréa convidou o namorado, um playboy de nome Marcos, para fazer companhia a ela durante aqueles dois meses de solidão. Obviamente, o casal transou — e várias vezes. Em uma dessas várias vezes, os dois tiveram a ideia “brilhante” de transar sem camisinha, uma vez que, nas palavras da própria Andréa, “é melhor ao natural”. O plano era aproveitar a noite e tomar uma pílula do dia seguinte para evitar o nascimento de um grande problema.

Entretanto algo deu errado e a pílula não fez o efeito desejado e tão esperado, a menstruação de Andréa atrasou; uma porção de testes caseiros de gravidez foi feita e em todos estes o resultado deu-se o mesmo resultado: positivo. Oh, e agora, quem poderá nos ajudar? Ninguém gritou “Eu! O Chapolin Colorado”, mas uma amiga comentou ser sobrinha de uma enfermeira que, por baixo dos panos, conduz abortos.

— É um procedimento simples: eu administro o fármaco com essa seringa aqui e daí o seu próprio corpo expulsará o embrião. Você não sentirá nadinha de nada.

Exceto que ela, como muitas outras que optam pelo aborto químico, sentiu.

O fármaco, uma combinação de mifepristone e misoprostol, havia sido inserido em Andréa há poucas horas, depois da inserção, ela disse ao namorado que queria ficar sozinha por tempo, trancou a porta do apartamento e se isolou no interior do seu quarto, tentando se distrair escutando algumas canções da Courtney Love. Não deu certo. Um sentimento de vazio e de culpa apossou-se do seu íntimo e ela, um tanto desnorteada, saiu do quarto, do apartamento, do bairro, então se pondo a perambular pela cidade até o momento em que suas pernas levaram-na a porta de Benjamin, “Ele me ajudou daquela vez... Por que não o faria de novo?”.

Andréa teve febre alta, cólicas intensas e sofreu uma hemorragia mais agravada do que o normal, chorou muito também, pediu perdão a Deus, a Jesus, a Virgem Maria e ao filho que nunca teria a oportunidade de viver nesse mundo. Por fim, ela, esgotada, adormeceu na cama de Benjamin.

O rapaz foi ao banheiro, não levantou a tampa do vaso sanitário, não havia razão para fazê-lo, apenas deu descarga e ponderou por um brevíssimo instante se o filósofo Sófocles poderia estar certo, “Não nascer talvez seja a maior dádiva de todas”.

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