sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Harmonia da dissonância



Se há algo que eu nunca esquecerei é o olhar da Raffaela enquanto nós nos despedíamos no aeroporto. Os últimos três dias haviam sido incríveis, dignos de um filme de puro e simples romance... Exceto que sem a consumação. Nós temos uma regra para evitar um relacionamento à distância e conversar a amizade: nada de cutucar a ferida, isto é, nada de ficarmos juntos e, bem, tinha sido uma tortura nos aderir a essa política com tantos momentos de ternura que poderiam ter, perfeitamente, saído de um quadro de William Blake.

E, agora, ali estava ela me fitando com aquele deslumbrante olhar castanho-escuro... Um olhar munido de tristeza. Eu queria beijá-la, eu queria fazer mil promessas de amor, eu queria entregar a ela mil rosas roubadas, eu queria dizer para ela ficar ao meu lado para sempre, contudo nós não já temos mais dezesseis anos e nada no mundo jamais mudará o fato de que nós seguimos caminhos distintos. Não há lugar para um na vida do outro. Não mais.

Ela tocou, gentilmente, um lado do meu rosto.

— Se você fosse beijar alguém e soubesse que seria a última vez, como acha que seria?

— Eu acho que seria, terrivelmente, triste.

— É, eu também acho... Felipe?

— Sim?

— Por favor, deixe-me triste.


Uma sequência tardia à Reconciliação.

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