terça-feira, 6 de setembro de 2011

Reminiscência de uma noite de verão


Era a noite de formatura de Caroline, Administração. Sua irmã menor, Coraline, tinha rompido com o namorado há mais ou menos uma semana e, desse modo, eu (o seu melhor amigo) fiquei incumbido da tarefa de acompanhá-la na comemoração, a qual — admito — estava sendo um evento, dolorosamente, tedioso: nós ficamos sentados na mesa pela maior parte do tempo, tivemos a nossa presença, completamente, ignorada pelas outras pessoas do recinto, precisamos enfrentar uma fila quilométrica para alcançar o buffet e ainda nos expulsaram da mesa para arranjar espaço para acomodar a melhor amiga de Caroline e o namorado dela.

— Eu quero beber — disse Coraline, repentinamente. — Só um porre daqueles para melhorar essa noite.

— Não. — eu, de imediato, falei. — Da última vez em que você tomou um porre, quase saltou do prédio da Bárbara. O que me lembra: de onde veio essa tendência suicida, hein?

Ela encolheu os ombros.

— Sei lá — disse. — Eu acho que sempre tive a vontade de voar.

— Voar é uma coisa, queda livre em presença do ar é algo, totalmente, diferente.

— Pego, pegado, dá tudo no mesmo.

— Eu acho que você não poderia ter pensado em um argumento pior — mergulhei em um devaneio por um instante. — Okay, você poderia ter pensado em um argumento pior.

Coraline soltou um suspiro.

— Você está fazendo um péssimo trabalho, sabia? Eu acho que só dei umas três risadinhas hoje.

— Isso é porque você está chateada que a Carol está sendo o centro das atenções — eu salientei. — Nem o Jerry Seinfeld para te fazer rir nessa situação.

Incrivelmente, tal comentário proporcionou uma risadinha da parte dela.

— Okay, eu vou tentar ser menos chata pelo bem do resto da noite.

— Ótimo, assim fica mais fácil te animar, ou, no mínimo, tentar te animar.

— Sabe o que eu queria MUITO fazer?

— Pegar uma RPG-7 e disparar na Carol?

— Também, mas não era isso que eu tinha em mente.

— E o que é que você tinha em mente, dona-menina?

Ela fitou a pista de dança.

— Não, não, não, não, não, não. Nem em um milhão de anos. Não. Neca. E o meu preferido: homem caindo no abismo — nããããããããããããããããããããããããoooooo!

— Ah, para com isso! Você não vai morrer se dançar um pouquinho.

— Do mesmo jeito que há uma possibilidade de todas as moléculas que constituem o ar desse salão se concentrarem em um único ponto, efetivamente, transformando o meio ambiente ao nosso redor em um vácuo e, portanto, nos sufocando até a morte, há uma possibilidade de o ato de dançar causar um enorme estresse ao meu músculo cardíaco, fazendo-o parar de bater.

Alguém poderia ter dificuldade em transmitir em palavras o sentimento presente no olhar de Coraline após ter escutado o meu discurso, para sua sorte, caro leitor, eu não sou esse alguém — o sentimento em seus olhos dizia “Para de falar besteira, seu idiota”.

— Beatles. Hey Jude. Eu amo essa música. Vem por livre e espontânea vontade, ou eu vou ter de te ameaçar?

Como o olhar dela era por si só ameaçador, eu senti que nunca havia tido uma opção. Levantei-me, segurei em sua mão e acompanhei-a a pista de dança. Para minha sorte, Hey Jude é uma música lenta e, portanto, muito mais fácil de dançar do que uma música agitada. O aumento da facilidade, contudo, não me impediu de pisar no pé da Coraline uma ou duas vezes, o que foi muito bem merecido: ela perfeitamente está a par da minha carência atroz de coordenação motora.

— Okay, você está definitivamente me olhando estranho.

Eu soltei um suspiro e falei o que estava em minha mente há horas.

— OK, essa não é você.

— Por que não? Só por que eu estou toda bem arrumada?

— Sim, sim. Esse vestido não é você, esse par de brincos, por outro lado — eu indiquei os brincos de prata em formato de coração — É, completamente, você. São os brincos que ganhou de aniversário há dois anos, né?

— São sim. Como é que você se lembra?

— Ah, da mesma maneira que você se lembra da sua senha do MSN.

— Okay, como assim?

— Girassóis não são as suas flores favoritas?

— São.

— Pois então, esses são os meus brincos favoritos. Para mim, eles combinam com você perfeitamente. São bonitos em todas as ocasiões. Não faz diferença.

O seu rosto ficou corado de vergonha.

— Por que você tá falando isso?

— Ah, porque você me pediu.

— E você tinha de responder desse jeito justo na hora em que está tocando I’m Happy Just to Dance With You?

— O que eu posso dizer? O meu timing é impecável. E, ah, eu vou te beijar agora.

Ela ficou paralisada.

— Que tipo de pessoa dá um aviso assim?

— Eu.

E eu a beijei... Na bochecha.

— Isso que é matar o clima — disse Coraline aos risos.

— E não é!

— Okay, e por que na bochecha?

— Porque você é minha amiga. Porque a gente tem história. Porque eu gosto de ti. E porque quando eu for te beijar de verdade, ah, acredite-me, será sensacional, o momento e o beijo.

— Você só está com medo de me beijar e de eu não gostar. Raffaela falou que você beija muito mal.

— Ah, sério? Você vai confiar na palavra da tua prima? A mesma prima que ainda tem ódio de mim por ter terminado com ela no dia do casamento da Roberta? Sério?

— É família. É sangue. Eu acredito nela até que o contrário seja provado.

— Falando desse jeito, soa como se você estivesse louquinha para que eu te beijasse.

— Eu não estou louquinha para que você me beije, mas para ser beijada, quer dizer, olhe ao redor, sinta o momento, pista de dança, roupas bonitas, John Lennon e Paul McCartney. Não consegue sentir a vibe? É quase uma cena de filme romântico.

— Só falta o beijo.

— Só falta o beijo.

E o som de And I Love Her inundou nossos ouvidos. “É um sinal”, foi o que pensei.

E eu a beijei.

— Raffaela estava mentindo?

— Raffaela estava mentindo.

— Feliz em saber.

— Idiota — e dessa vez foi ela quem me beijou.



Um momento do passado ambientado em algum ponto entre Ódio e Reconciliação.

Um comentário: