sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Thor: mitologia e cinema



Outro dia eu atirei pela janela todas as opiniões e avisos dos outros e, então, me sentei para assistir a um filme que tem sido, brutalmente, esculachado pela crítica profissional e amadora desde a sua estreia no cinema: Thor. Minha opinião pós-filme? Um grande desperdício de tempo, se você é um homem e tem 114 minutos para gastar, faça-o admirando esse gif da Katy Perry que dá mais lucro:


(Agora, na eventualidade de você for uma mulher, assista ao filme pela parte na qual aparece o Chris Hemsworth sem camisa, imagino que você adorará).

Sinceramente, aquilo que mais me incomodou durante o filme foi à maneira como caracterizaram os personagens e esse será o tema abordado por mim nesse texto, eu estabelecerei uma breve comparação entre os personagens na mitologia nórdica e as suas contrapartes cinematográficas, começando, é claro, por aquele que empresta o seu nome ao título do filme.

Thor

Na mitologia: aqui o Thor é descrito como um viking de cabelo vermelho-flamejante e barbudo, ele tem uma esposa, Sif, é o amante de uma giganta, Járnsaxa, e ainda pulou a cerca outra vez com uma mulher desconhecida, a mãe do seu terceiro filho, Mothi, tem o martelo Mjöllnir, o qual consegue, inclusive, esmagar montanhas inteiras, como sua principal arma e é conhecido pelas suas muitas vitórias sobre os seus adversários e pela sua rivalidade titânica com monstruosa serpente Jörmungandr, a qual está destinada a perecer junto dele durante o Ragnarök. Em suma: o Thor mitológico é um bad-ass da mais alta categoria e ainda tem um dia nomeado em sua homenagem — quinta-feira, em inglês, thursday, isto é, Thur’s Day.

No filme: eu admito ter gostado bastante da adaptação cinematográfica do Thor apesar de ele ter tingido o cabelo de loiro, sua armadura, embora brilhante demais para um herói veterano de muitas batalhas, está muito legal e a personalidade dada a ele condiz com as fontes mitológicas: é um sujeito arrogante, seguro das suas habilidades, muito leal aos seus entes queridos e a Asgard e dotado de um grande desejo de estar à altura do seu pai, Odin, de fato, a melhor parte do filme é, justamente, quando Thor vai a Jötunheimr para tirar satisfação com os jötnar (gigantes-de-gelo). O problema é — e aqui vai um spoiler — expulso de Asgard por Odin e vai parar na Terra onde conhece a sem-sal da Natalie Portman, a partir daí, o filme parece tomar outra direção e fica parecendo uma comédia romântica com um Thor todo sorridente, engraçadinho e que, inclusive, lava pratos e cozinha, ou seja, ele deixa de ser um viking para virar aquele carinha simpático que toda mãe, invariavelmente, deseja para a sua filha. Cito o nosso antigo presidente, “Assim não pode, assim não dá”.

Loki

Na mitologia: acesse o seu hipocampo por um instante e faça um esforçozinho para se lembrar daquele sujeito falso que, às vezes, parecia ser o seu melhor amigo e, outras vezes, agia como se a sua total destruição fosse o único objetivo na mente dele. Pois é, esse sujeito é o Loki para os deuses nórdicos. Um feiticeiro malandro com vários truques na manga e uma cota nada invejável de seis filhos, sendo que apenas um é compartilhado com a sua esposa legítima, Sigyn, Loki era tanto um deus quanto um jötunn (Laufey era sua mãe), podia mudar de sexo à vontade, fornicar com quem quisesse (incluindo o cavalo Svaðilfari), arranjar confusão a torto e a direito e ainda colocar a culpa nos outros, mas é como aquele velho ditado diz “malandro demais sempre se enrola” e, no caso dele, isso é algo um tanto literal: depois de ter causado a morte de Baldr e, consequentemente, ter iniciado o Ragnarök, Loki é enrolado pelos deuses nas entranhas de um dos seus filhos. Um fim digno para o vilão que todos os entusiastas da mitologia nórdica adoram odiar.

No filme: o Loki é um sujeito emocional muito revoltado por não ter recebido muitos abraços do seu pai, Odin, quando criança e que morre de inveja do status do seu irmão, Thor. Ele mantém os seus poderes místicos e a sua ligação com Laufey e os jötnar, contudo perde todo o seu carisma da mitologia e, então, tornar-se um vilão vazio, sem graça e que, honestamente, parece — eu peço outra vez para você fazer uma visita às suas lembranças — daquele moleque estranho e isolado que estudou com você e que se via o alvo constante de brincadeiras dos seus outros colegas: ele aguentou os anos de escola agarrando-se à ideia de que se tornaria bem-sucedido no futuro e, então, exibiria o seu sucesso sem paralelo na fuça daqueles que o rejeitaram no passado. Bem, isso, dificilmente, acontece e, no caso, do Loki do Tom Hiddleston não foi diferente.


Odin

Na mitologia: qualquer um nascido nos anos 90 e que tenha assistido àquele filme dos Cavaleiros do Zodíaco, A Batalha dos Deuses, sabe que Odin é a principal divindade da mitologia nórdica, ele tem a aparência de um homem velho de barba longa, um Alvo Dumbledore com um jeito mais macho, sacrificou um olho na Fonte de Mímir para adquirir a Sabedoria das Eras, se enforcou de cabeça para baixo em um dos galhos de Yggdrasil, a Árvore do Mundo, com a sua própria lança, Gungnir, fincada no seu corpo por três dias para aprender a escrever (e você, quando criança, só faltava morrer quando a professora dizia que era para escrever o seu nome completo no caderno), assegurou a paz entre os deuses e os jötnar durante muito tempo e, quando se deu início ao Ragnarök, subiu no seu cavalo Sleipnir e comandou os einherjar na linha de frente, sucumbindo perante as mandíbulas de Fenrir (seu neto-lobo) depois de uma batalha que é descrita pelas prosas nórdicas como sendo uma das mais épicas de todas e, como se isso ainda não fosse o bastante, ele também tem um dia em sua homenagem: quarta-feira, wednesday, Wooden’s Day.

No filme: um ator digno incumbiu-se de interpretar o Pai-de-Todos — Anthony Hopkins, o qual, eu devo dizer, fez um trabalho excepcional durante a parte introdutório do filme, ele conseguiu transpassar toda aquelas características que são, comumente, associadas ao Rei dos Deuses nas prosas mitológicas: o Odin de Hopkins é velho, sábio, paciente, honrado, leal e, é claro, um grande guerreiro, o que é mostrado quando este vai ao resgate de Thor e da sua trupe em Jötunheimr, um momento, por sinal, muito Mufasa da sua parte. Infelizmente, a atuação impecável do nosso querido Hannibal Lecter é derrubada pelo roteiro do filme, o qual estipula que Odin, após ter revelado a Loki sua relação com os jötnar, sofre um derrame e daí passa o restante do filme deitado em uma cama, algo muito Branca de Neve e Bela Adormecida. Cito o narrador do joguinho de futebol que a minha irmãzinha bochechuda jogava antigamente, “Isso é falta pra cartão, Milton”.

Heimdallr

Na mitologia: Heimdallr é aquele responsável pela proteção de Bifröst, a ponte que conecta os nove mundos da mitologia nórdica que o descreve como detendo da capacidade de prever o futuro, tem uma visão impecável, uma audição melhor ainda e é considerado o mais branco (pálido) dos deuses. Em outras palavras, Heimdallr é que nem o porteiro da minha escola (exceto pela cor da pele).

No filme: o Kenneth Branagh, diretor do filme, deve ser um sujeito muito troll, porque, veja bem, enquanto a mitologia caracteriza o Heimdallr como sendo o mais branco dos deuses, ele escolheu o Idris Elba para interpretá-lo, por sinal, nada contra a interpretação do amiguinho do Gerard Butler, muitíssimo pelo contrário, o Heimdallr-depois-de-uns-milênios-na-praia-de-Salinas é, diferente do seu irmão Aldebaran de Touro, um dos personagens mais legais do filme. Sem reclamações da minha parte.

Laufey


Na mitologia: para falar a verdade, não há muitas informações sobre a Laufey na mitologia nórdica, de fato, tudo que se é sabido sobre ela é que é a mãe de Loki com Fárbauti e que é uma jötunn. Só.

No filme: aqui Laufey fez uma operação de mudança de sexo e virou um homem de mais ou menos two metros (porque isso, para o Kenneth Branagh, é a altura de um gigante) que, após ter levado uma surra homérica de Odin, passa o seu tempo no frio enregelante de Jötunheimr, ordena que os seus subordinados deem uma lição no Thor para este último aprender a ser mais humilde, tenta dar uma de machão quando o Odin aparece para o resgate, deixa-se enganar pelo filho, Loki, e acaba sendo morto pelo próprio como parte do seu plano para virar a menina-dos-olhos do pai adotivo. Mas que desperdício de personagem!

Os Três Guerreiros

Na mitologia: eles não estão na mitologia, o que faz sentido, afinal, o que um francês, um chinês e um primo distante do Obelix estariam fazendo na mitologia nórdica?

No filme: eles — Fandral, Hogun e Volstagg — são os amiguinhos pau-mandados do Thor que o seguem para cima e para baixo para onde quer que ele vá. Fundamentalmente, o seu papel é encher linguiça e pegar uma porrada feia do autômato-cuspidor-de-fogo que o Loki manda para a Terra a fim de garantir que o Thor “pegue um bronzeado”.

Sif

Na mitologia: não há muito que dizer sobre a Sif mitológica, ela é a esposa do Thor, é conhecida pelos seus cabelos dourados e pela sua enorme paciência, afinal, só sendo muito paciente para aguentar um marido que vive indo para a guerra e, diariamente, dá umas puladas de cerca com uma giganta (Járnsaxa).

No filme: colocaram a linda da Jaimie Alexander para viver a Sif no cinema e alteraram uma boa parte da história dela, o que, francamente, eu achei ótimo. Agora a Sif é uma amiga de infância do Thor e uma guerreira nata que, embora tão inútil quanto os Três Guerreiros, consegue protagonizar umas boas cenazinhas de ação contra o autômato-cuspidor-de-fogo e poderia ter sido um par romântico melhor para o Thor do que a sem-graça da Natalie Portman, a qual, sinceramente, nunca deveria ter sido apontada para ser a mãe do maior Jedi de todos os tempos, Luke Skywalker.

Frigga

Na mitologia e no filme: então, o papel da Frigga é tão minúsculo que nem gastarei outro parágrafo com ela. Na mitologia, ela é a mulher de Odin, madrasta do Thor, mãe-adotiva do Loki, tem o dom da profecia e é a única além do marido que pode sentar no trono de Hlidskjalf e observar o universo, já no filme ela é tudo isso, mas sem o dom da profecia e, verdade seja dita, qualquer um pode sentar naquele trono do Odin, até o eu, ou você.

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