quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O gato preto


Há uma paróquia do outro lado da rua da casa da minha avó, é a Paróquia de Jesus Cristo Ressuscitado, desse modo, passo em frente a tal lugar, praticamente, sempre que vou visitá-la e, dada sua bela arquitetura, não consigo evitar vislumbrá-la nessas ocasiões. Por conta disso, outro dia eu notei a presença de um gato preto sentado em um banco de madeira e metal disposto perto da entrada do local, estava tão imóvel quanto uma rocha e possuía um olhar esverdeado que, francamente, eu achei um tanto intimidador — foi, é claro, impossível não associá-lo à primeira aparição da Prof.ª Minerva McGonagall em Harry Potter e a Pedra Filosofal.

No outro dia, tornei a observar a presença do felino, inclusive o fato de que este parecia deter de um machucado no cocuruto, uma provável consequência de uma briga com outros da sua espécie, ou, quem sabe, de um encontro infortuno com um cachorro.

Na sexta-feira, o terceiro dia, o gato era aflito por mais um machucado, dessa vez, um ferimento enorme nas suas costas, eu podia, só de olhar, saber que aquilo deveria estar doendo intensamente, tive dó do felino, enchi uma tigela com o leite desnatado da geladeira de vovó e coloquei a tigela ao lado dele, o qual não demonstrou o menor interesse no líquido branco-perolado. Ora, quem poderia culpá-lo? Era, afinal, leite desnatado!

O sábado, finalmente, chegou e a também festa de quinze anos da minha prima, a qual seria realizada no casarão de vovó e, portanto, era a razão das minhas tantas visitas ao local naquela semana (eu estava ajudando nos preparativos da comemoração). Nem toda a barulheira de parentes e amigos entusiasmados e, por não admitir?, um tanto bêbados conseguiu incomodar o gato preto que permaneceu estático no banco da igreja, olhando, fixamente, para um ponto qualquer a sua frente. Eu, quando fui levar um pratinho com restos de salgadinhos para o felino, percebi a existência de um corte enorme e profundo no meio do seu peito — no que diabo aquele gato estaria se metendo para sofrer tantas lesões?

Na tarde de domingo, eu encontrei o pároco da igreja sentado ao lado do gato, ele atendia aos seus ferimentos enquanto o felino bebia, vagarosamente, o leite contido em uma tigelinha de plástico, me direcionei ao clérigo e o indaguei acerca do estado do infeliz mamífero carnívoro de garras afiadas e retráteis.

— Oh, ele só estava me fazendo um pequeno favorzinho — o eclesiástico, com um sorriso triste, respondeu. — Outubro é um mês muito perigoso, Felipe — ele disse. — É bom ter alguém para guardar a entrada da Casa do Senhor.

— Guardar de quem? — eu perguntei.

Ele, um tanto enigmático, apontou um dedo indicador para baixo, para além da terra, do núcleo e das propriedades físicas do mundo, eu senti os meus pés esquentarem e, então, entendi.

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