sábado, 10 de setembro de 2011

Borboletas



Ela acordou ao ter o seu rosto tocado, delicadamente, pelos raios-de-sol que em seu quarto adentravam ao passarem pelo vidro da janela, esquentando, ligeiramente, sua pele branca como a neve e dando, suavemente, brilho aos cachinhos dourados dos seus cabelos. Em seu rosto, um sorriso jazia — era o dia do seu décimo primeiro aniversário e ela não poderia, possivelmente, estar mais feliz.

Ela desceu para a cozinha no primeiro andar da residência dando passinhos de balé, então sendo recebida por sua mãe com um abraço apertado, um beijinho carinhoso, um “Feliz aniversário” e um prato com panquecas de queijo e presunto em formato de borboleta que, como evidenciado, claramente, pelo pijama usado pela menina, era o seu bichinho preferido.

— Está gostoso, queridinha?

— Sim, mamãe, está MUITO gostoso!

— Que bom, queridinha, que bom.

O pai não demorou muito a se juntar às mulheres da sua vida; surgiu no aposento com um jornal embaixo do braço e um boníssimo comunicado: “Mais tarde nós faremos um piquenique para comemorar o seu aniversário, queridinha”.

Ela soltou uma exclamação de felicidade, encheu o pai de beijos, terminou o seu desjejum e apressou-se em ir se arrumar, tomando um banho de banheira com água quente, escolhendo o seu vestido preferido de borboletas e, aos saltinhos, retornando a companhia dos pais, os quais a esperavam na sala de estar com tudo preparado para irem ao piquenique.

— Esse será o melhor aniversário de todos os tempos!

Então a família feliz rumou para o bosque em que se daria o piquenique, uma vez lá, se encontrarem com os avôs, as avós, os tios, as tias, os primos, as primas, os amigos e as amigas da aniversariante, ela ganhou um sem-número de presentes e de sorrisos calorosos, brincou e brincou e brincou sem parar; assoprou as onze velinhas do seu bolo de chocolate-marrom, fez um pedido como de acordo com a tradição, caçou borboletas, capturou algumas, e, ao final do dia, adormeceu com o coração munido de alegria — oh, mas como é bom amar e de volta ser amada!

Ela, agarrada à sua adorada borboleta de pelúcia, dormia em um sono profundo, tão profundo que nem se sequer se incomodou com a picada da injeção utilizada pela médica para administrar o remédio. A médica, depois de injetar a substância, fez um cafuné na cabeça da menina e a beijou na testa, sussurrando “Feliz aniversário, minha queridinha”, então recolheu a injeção para dentro do seu bolso, retirou-se do quarto de paredes cinzentas adornadas com adesivos e pinturas de borboletas e então lembrou ao enfermeiro de trancar a porta na qual havia PERIGO escrito em letras garrafais.

VOCÊ ESTÁ VIVENDO NO
MUNDO REAL?

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