domingo, 4 de setembro de 2011

Blues do Improviso


A minha impressão do Cachorro Louco é que ele era, com todo respeito, um velho safado, a personificação daquela música da banda Velhas Virgens. Eu o via todo risonho com o seu chapéu panamá, dando em cima das mulheres, dormindo com umas, tirando a virgindade das garotas experimentais que iam ao bar com suas identidades falsas, ele aguentava mais bebida que qualquer garotão vinte anos mais jovem, nunca perdeu uma partida de bilhar e ainda era um membro da Realeza da Gaita.

Então, vê-lo ali, sozinho no seu escritório com uma garrafa de uísque na mão e um rosto macambúzio me deixou boquiaberto, totalmente incrédulo, afinal, o que, em nome de Robert Johnson, poderia ter entristecido aquele velho safado? Eu bati na porta transparente e, então, entrei no aposento.

— Você já ouviu falar de um bluesman chamado Gato Escaldado?

— Já. Ele tem umas boas músicas.

Tinha, rapaz. Ele tinha. Aquele gato pirento morreu hoje cedo, um AVC. Não teve qualquer chance.

Cachorro Louco serviu uma dose de uísque para mim, o qual, naquela quinta-feira, vinha avisá-lo que era a hora da sua apresentação.

— Aquele gato fedorento era o meu melhor amigo, nós passamos por poucas e boas juntos, até dividimos uma mulher...

Eu testemunhei a sua resistência para segurar as lágrimas.

— Cuide bem dos seus amigos, rapaz. Aproveite o seu tempo com eles, porque nunca se sabe como será o dia de amanhã.

***

Do título: Eu escrevi esse texto sem um nome para ele, tentei intitulá-lo, mas fracassei miseravelmente nessa tarefa, então pedi socorro à minha amiga chinesinha, a Camila W., a qual o nomeou assim porque improvisou o título na mesma hora. Supimpa.

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