
O prédio de Fernanda é um muito, muito velho, uma construção remanescente da Belle Époque, a bela época, que, surpreendentemente, conta com trinta andares ao invés de vinte como a maioria das outras edificações erguidas naquele tempo. Eu, por ser o namorado dela, constantemente me encontro pegando o ônibus para aquela parte da cidade e adentrando no prédio, tomando o elevador pré-histórico para o vigésimo sétimo andar, seguindo por um corredor precariamente iluminado e então passando pela porta do apartamento de Fernanda onde sou recebido por um olhar sedutor e um beijo demorado por parte dela. É, vale à pena.
Hoje é um sábado de maio, não tenho aula e nenhum outro compromisso senão ir ao apartamento de Fernanda para cumprir os meus deveres de namorado e, é claro, exigir os meus direitos. Cochilo embalado pelo som de Ringo Starr durante o trajeto do ônibus, desperto na metade de La De Da, desço perto de um shopping center, solto um longo bocejo, compro um chiclete sem açúcar (sou diabético) para disfarçar o hálito pós-soneca, caminho por mais dois quarteirões, passando, inclusive, em frente ao consultório da minha antiga dentista, e então me descubro diante do edifício, uma das construções mais altas daquela parte da cidade, perdendo somente para um prédio empresarial e o shopping center.
Uma moça de mais ou menos a minha idade entra no prédio junto comigo, ela tem cabelos castanho-escuros ligeiramente ondulados nas pontas e olhos negros que, não sei por que, fazem eu me lembrar de Scheherazade, a legendária rainha persa a qual se atribui a autoria das Mil e uma noites. Nós desejamos “Boa tarde” ao porteiro, trocamos sorrisos educados entre si e entramos no elevador, um morador do prédio surge na entrada da portaria, grita para que segurar a porta, eu atendo ao pedido, ele entra no elevador, está ofegante, agradece e pede, por favor, para apertar o botão de número dezessete. Eu o faço e pergunto a moça em qual andar ela ficará.
— Vinte e sete.
— Ah, é o mesmo que o meu — eu comento.
O elevador para no décimo quarto andar, uma mulher grávida projeta-se para dentro, ela pretende ir ao térreo, contudo não se importa de subir primeiro, considera isso melhor do que ficar esperando do lado de fora. Ocorre outra parada, dessa vez no décimo sétimo andar, o homem sai para o corredor e a porta do elevador trava, o que é algo perfeitamente normal naquele prédio, eu conto de um até dez, acerto uma duas, ou três pancadas no painel, daí a porta fecha, o elevador sobe um pouquinho e então enguiça. Eu olho para a mulher grávida — em qual mês de gestação ela já estará? — e, imediatamente, penso “Isso é mau”.
— Eu odeio quando isso acontece — torno a bater no painel. — Já é a terceira vez só nesse mês.
— Isso é culpa do síndico — a gestante reclama. — Embolsa todo o dinheiro dos contribuintes, um absurdo!
Ela parece está bem, dificilmente entrará em trabalho de parto, “Isso não é um filme”, eu penso com meus botões. O elevador volta a funcionar parcialmente, isto é, a porta abre com sucesso, porém não há nenhum sinal de movimentação vertical, está parado alguns centímetros acima do assoalho do décimo oitavo andar, logo é possível, e também recomendável, desembarcar no andar, eu e a moça saímos primeiro e então ajudamos a gestante, ela nos agradece, diz que esperará o elevador voltar a funcionar plenamente e aponta para a entrada das escadas, “Se estiverem com pressa, vão por ali”, ela sugere, “É escuro e um nojentinho, mas...”.
Eu penso em Fernanda e em como nós temos pouquíssimo tempo antes que a sua mãe volte da casa da avó dela, nos impedindo, efetivamente, de realizar algumas das atividades que namorado e namorada gostam bastante de fazer.
— Não é uma má ideia — eu olho para a moça. — Você também ficará no vinte e sete, não é? — ela assente com a cabeça. — Não quer vir junto? — convido.
Eu posso sentir e compreender a incerteza dela em aceitar o convite, não só ela é mulher como também eu sou um estranho, nós estaremos sozinhos em um ambiente escuro quase que inteiramente isolado do resto do prédio e o qual é usado como ponto de encontro entre várias casais mais jovens devido à dificuldade em escutar qualquer barulho ocorrido ali. Ao pôr tudo isso na balança, eu me surpreendo quando ela aceita o convite e, logo em seguida, diz para a gestante ficar bem.
— Não dá para enxergar nada aqui.
— As luzes estão quebradas há, bem, séculos — eu digo. — Cuidado onde você pisa.
— Por quê?
— Porque você pode pisar em falso e cair — respondo. — E cuidado no que você pega também, corrimãos são, universalmente, nojentos.
— Isso é uma verdade. O do meu prédio é uma nojeira só.
— Eu sabia que você não morava aqui.
— É? Sabia como?
— Ah, pelo jeito como você se comporta — eu respondo. — Quer dizer, se você morasse aqui, não estaria surpresa com o estado daqui — fiz um gesto com as mãos para indicar a escadaria.
— Faz sentido. E você? É morador?
— Não, não. Só venho aqui para ver a minha namorada.
— Você deve gostar muito dela para passar por isso só para vê-la.
— Sim, sim.
Há, então, um longo momento de silêncio, eu não sei o que dizer e ela também não, nossas visões já se acostumaram com a penumbra, todavia ainda é possível sofrer algum acidente, ou ser enganado pelas sombras, duas coisas que aconteceram não muito depois de nós termos passado pelo vigésimo andar: ela pisou em algo que poderia ser uma camisinha, escorregou no látex, soltou um grito e apenas não se machucou tanto porque eu consegui segurá-la pelo braço e puxá-la para perto de mim, ela respirou com alívio e me disse “Obrigada” com toda a sinceridade do mundo, semeando em mim uma sensação intensamente agradável de heroísmo.
Sensação que desapareceu completamente quando eu, fitando os degraus mais a frente, acreditei do fundo do coração ter avistado uma mão humana em estado de putrefação, meu rosto empalideceu, minha garganta ficou tão seca quanto o nordeste em época de estiagem e, inevitável e vergonhosamente, eu deixei escapar um grito que, por sua vez, assustou a moça e nos fez aderir à parede por dez, talvez onze minutos antes de finalmente recuperar a coragem necessária para seguir em frente, contudo não antes de entrarmos em um acordo.
— Dê-me a sua mão — eu disse para ela.
— Okay, por quê? — ela quis saber.
— Porque assim fica mais fácil — respondo. — Se você cair, eu posso segurá-la na mesma hora, se eu tomar um susto; estar de mãos dadas com você me fará lembrar que não posso me assustar — desenhei um sorriso confiante no rosto que ela pôde ver apenas parcialmente. — Ah, vamos lá, eu prometo que não contarei nada disso ao seu namorado.
— Eu não tenho um namorado — ela estende uma mão em minha direção. — Se você apertar com muita força e doer, eu acertarei uma bofetada no seu rosto.
— Tudo bem por mim — eu entrelaço os meus dedos ao redor dos dela.
É uma sensação diferente, a de tocar a mão dela, talvez seja porque a inibição da visão amplifique a sensibilidade do meu tato, ou então porque essa situação faça com que eu me sinta um herói de cinema, um jovem e moderno Indiana Jones em uma aventura relativamente perigosa no sétimo ano do segundo milênio, e ela, embora não seja a minha mocinha, é a mocinha do filme, a donzela em perigo de olhos arábicos.
— Então, o que você veio fazer aqui? — eu, para romper o silêncio, pergunto.
— Visitar a minha prima — ela responde. — Faz tempo que não nos vemos.
— Conflito de horários?
Ela hesita por um instante.
— Conflito familiar — diz. — Minha mãe e a dela brigaram e só se resolveram na semana passada, foi horrível.
— Entendo... Mentira, eu não entendo. Não sei como é passar por isso.
— Sua família é muito unida?
— Oh, até demais! Eu não me lembro da última vez em que a minha casa ficou sem parentes no fim de semana.
— Parece ser legal.
— Nem tanto, tem vezes que eu só quero ficar sozinho.
— Eu já odeio ficar sozinha.
— Por quê?
— Porque é solitário.
Eu paro de andar, ela sobe um degrau, então para também e olha para baixo, para mim.
— O que foi?
— Nada, é só que...
Solto uma risadinha que ecoa pela escuridão da escadaria.
— De vez em quando eu me sinto assim também, digo, solitário — conto para ela. — Mesmo constantemente rodeado pela minha família e, muitas vezes, pelos meus amigos, há momentos em que eu simplesmente não consigo evitar me sentir sozinho, até mesmo perdido — encolho os ombros, inseguro.
Ela ergue o queixo, fita o teto sombrio como se estivesse esperando que um relâmpago divino acertasse a sua cabeça e desse a ela a inspiração para dizer palavras de sabedoria.
— Eu sei como é isso, me senti assim por muito tempo, então... — ela suspira com arrependimento. — Fiquei longe dos meus amigos, não fiz nada enquanto via a minha família entrar em guerra e agora eu sinto uma vontade desesperada de voltar no tempo e aproveitar melhor os dias em que havia tantas pessoas queridas ao meu redor.
Embora eu não possa ver o seu rosto direito, sinto que há um sorriso triste nele e uma única lágrima escorrendo pela sua pele sucintamente bronzeada, minha vontade é a de subir mais um degrau, então abraçá-la e confortá-la, todavia eu não posso fazer isso, pois terminarei beijando-a e me deitando com ela naquele mundo de sombras.
Eu não quero trair Fernanda. Ela não merece. Então, contento-me em apenas observar aquela moça que tanto faz eu me lembrar de Scheherazade e em imaginar como deveria ser o gosto dos seus lábios.
O corredor mal iluminado do vigésimo sétimo andar surge diante de nós, eu me despeço dela com um abraço e um beijo na bochecha, sigo na direção oposta, bato na porta do apartamento de Fernanda, estou meia-hora atrasado e sei que ela está irritada com isso, mas não me importo, viro-me para o corredor, vejo Scheherazade adentrar em um apartamento na outra extremidade e desaparecer para sempre da minha vida. Eu sequer sei o nome dela, porém sinto um enorme vazio, um sentimento de falta, que demorará a ser suprimido. Deixo escapar um suspiro e, por um brevíssimo momento, eu me arrependo de não ter me permitido cair em tentação.
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