
Leonardo Tritsch nem de longe era um santo, contudo também não era um patife, vivia no limiar, somente de vez em quando cruzando a divisória, todavia sem nunca se comprometer com nenhum dos lados. Era um sujeito extrovertido, brincalhão, adorava uma festa, um drink exótico e uma boa mulher e conseguia tudo isso no Black Black Club, uma boate badalada, três noites por semana.
Se você estivesse no Black Club hoje à noite, poderia avistar Leonardo, um sujeito bem-vestido, sentado em um assento próximo ao bar, bebericando um drink que na certa havia custado uns dez minutos para o barman preparar e flertando, descaradamente, com uma mulher exuberante que, possivelmente, teria a sua calcinha no chão do apartamento do solteirão na outra manhã.
— E se for tudo mentira para me levar para a cama? — a mulher, girando, devagar, o seu dedo dentro da própria bebida, perguntou.
Leonardo, bonitão, deixou escapar uma risadinha com uma entonação perfeita de confiança e segundas intenções, era o tipo de risadinha que faz a mulher pensar “Esse daí é safado” e a faz sentir a temperatura do corpo aumentando.
— Ora, agora eu fiquei ofendido — ele brincou. — Eu nunca faria isso — tomou um gole do seu drink. — Certo, eu faria, mas não estou fazendo isso dessa vez — sorriu. — Eu estou sendo 100% sincero com você, linda.
Havia desconfiança no olhar azul-claríssimo da mulher, ela deveria ter algo em torno de vinte e cinco anos, longos cabelos castanho-escuros emolduravam um rosto de traços finos e uma silhueta apaixonante era coberta pelo vestido vermelho. Ela era uma mulher de parar o trânsito terrestre, marítimo, aéreo e, se você acredita em extraterrestres, espacial.
— Você ainda não me convenceu — ela declarou. — Tic, tac, o relógio está correndo e se o tempo acabar, você não sentirá o sabor dessas pernas — eram pernas bronzeadas e suculentas, e até mesmo eu estou desejando prová-las.
Leonardo não perderia aquela oportunidade por nada nesse mundo. Não mesmo. Ele continuou sorrindo com confiança, pediu um refil ao barman, ajeitou a camisa, mudou a sua posição e tentou outra vez.
— Vamos para o meu apartamento e você saberá que eu não estou mentindo assim que ver a minha vista para a praia.
— Um apartamento beira-mar? Interessante...
— Não tão interessante quanto à noite que você terá, linda — Leonardo deu uma piscadela sacana.
Ela terminou a bebida, um vinho de qualidade, em um gole só.
— Impressione-me — a mulher, sedutoramente, disse.
Leonardo pagou a conta, guiou a sua conquista da noite até o carro, um modelo de luxo, dirigiu de volta ao seu apartamento, deu — de tão feliz — uma gorjeta generosa para o porteiro, começou a possuir a mulher no elevador, beijando e mordiscando pescoço e lábios, tocando nos seios, nas coxas e entre as pernas, entrou pela porta do número 702 e apenas não consumiu o ato na própria sala de estar porque ela manifestou sua preferência por uma cama, “É desconfortável no sofá e no chão é pior ainda”.
Ela, no quarto, o empurrou, ferozmente, na cama com lençóis de cetim, despediu o vestido vermelho, largando-o no chão, fitou Leonardo com um olhar predatório e excitante, caminhou até as cortinas fechadas, abriu-as, daí permitindo que o luar banhasse o interior do quarto suntuoso.
— Que linda! — a mulher, mirando a lua-cheia, comentou.
— Oh, se é! — concordou Leonardo, admirando por trás o corpo da mulher.
Ela se deitou no chão, esticando-se, exibindo o seu corpo, permitindo-o ser tocado gentilmente pela luz da lua enquanto Leonardo, ah, Leonardo! Ele, de tão excitado, estava a ponto de explodir.
— Sabe o que eu odeio?
— Não.
— Filmes de lobisomem.
Leonardo levantou uma sobrancelha: aquela não era algo que, normalmente, se dizia durante o papo pré-coito.
— Ah... Por quê?
— Porque em todo filme de lobisomem, mostram que a pessoa se transforma em lobo, instantaneamente, quando há lua-cheia. Isso não é verdade — a mulher respondeu. — Sabe, não é obrigatório se transformar quando surge à lua-cheia, é uma opção, entende? Quer dizer, pense no trabalho que um lobo teria para abocanhar um cordeiro sem estar vestindo uma pele de cordeiro.
Um sorriso ferino foi à última visão de Leonardo antes de ser dominado pelo pavor.
— Como foi a sua noite, queridinha? — perguntou dona Berenice, descendo para o desjejum na padaria da esquina. — Conheceu um bom partido?
— Na realidade, não — respondeu Alexandra Praxedes, ainda trajada com o vestido vermelho da noite anterior, retornando para o seu apartamentozinho em um prédio na Av. das Acácias. — Mas eu tive um ótimo jantar.
-Uma postagem feita à pedido da Bianca Q. do I'll Share It With Your (Or Not).
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