terça-feira, 20 de setembro de 2011

Vincent Van Gogh e a época errada

Uma noite estrelada


Depois de muitos conflitos de horários, eu e a Andréa, finalmente, conseguimos marcar um dia para nos encontrarmos: domingo às 10 horas. Hoje é o tal domingo e ela está quinze minutos atrasada e alguns segundos — típico —, se bem a conheço, só deverá chegar daqui a mais ou menos uma hora.

Felizmente, há muito para me entreter aqui na praça, como, por exemplo, a pequena galeria-aberta situada à minha frente na qual são vendidas algumas réplicas de Da Vinci, Michelangelo, Picasso, Dalí, Rembrandt, muitos outros e também Van Gogh — de todos os adeptos do pós-impressionismo, Vincent Van Gogh é, indubitavelmente, o meu preferido.

Sua arte representa o mundo comum de uma maneira extraordinária: onde eu, você e muitos outros veríamos um quarto como outro qualquer, aquele holandês de cabelos vermelhos-escuros vislumbraria um quadro aguardando, pacientemente, a ser pintado, uma tarefa que ele, assistido pelo seu fantástico domínio das cores, executaria com grande deleite. O mundo, para Van Gogh, era algo incrível e, francamente, assim deveria ser para todos nós.

Andréa, então, aparece do meu lado e solta uma exclamação de incredulidade ao descobrir o preço de uma das peças do holandês, o que eu considero um tanto irônico, afinal, a peça original não valia nem um terço desse valor na época da sua concepção original, pois não somente o artista, em vida, era considerado um bêbado louco como também as suas pinturas eram tidas como horrorosas, genuínas abominações da arte que — se penduradas em algum lugar —, certamente, afastariam as pessoas dali. O que eu posso dizer? Talvez Vincent Van Gogh tenha nascido na época errada.

Eu conto isso para a minha amiga e ela sente-se triste pelo holandês provinciano, pois consegue simpatizar com a ideia de ter vivido no momento histórico errado, Andréa, veja bem, queria ter vivenciado os anos dourados da década de 60. Por um instante, vejo-me refletindo sobre isso e, por fim, eu concluo que, honestamente, estou satisfeito com a minha época e — eu acredito — Van Gogh, caso ele pudesse viajar pelo tempo, concordaria comigo. Por quê? Porque, naquele tempo, o holandês seria um pioneiro da escola do pós-impressionismo enquanto que, hoje em dia, não passaria de um artista moderno qualquer, ele perderia a sua importância.

Remeto-me, assim, a pensar em uma sábia frase dita pelo mago Gandalf, o Branco: “Não cabe a nós decidir em que era nós viveremos, apenas em vivê-la”.

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