terça-feira, 13 de setembro de 2011

Memórias de um mordomo aposentado



O mordomo atendia pelo nome de Pennyfeather, Terêncio Pennyfeather e, aos seus oitenta e sete anos, havia participado, ativamente, da criação de quatro gerações da Dinastia Hargreaves, a qual se findou com um trágico acidente que ceifou a vida do pobre Ricard, um alegre órfão de dezesseis anos dotado de enorme inclinação para com atividades perigosas.

Em decorrência do infeliz acontecimento, Pennyfeather aposentou-se, trocando a sua residência londrina por um confortável apartamento em Manchester, ali dedicando, basicamente, a sua atenção entre algumas visitas à casa da sua sobrinha Bárbara e à escrita do seu livro, um registro fidedigno das suas memórias. Por um tempo, o aposentado até mesmo considerou a possibilidade de publicar o escrito, entretanto desistiu da ideia ao pincelar o último ponto-final do segundo capítulo quando, então, percebeu quão tediosa tinha sido a sua vida se observada de um ângulo de vista moderno.

Afinal, quem, em um mundo literário munido de vampiros andróginos e lobisomens bronzeados, teria o menor interesse por casos da vida real como, por exemplo, o pacto do Barão Soontir Hargreaves com o diabo Barbatos, o matricídio cometido pela psicótica Suzette, o relacionamento incestuoso entre Roan II e sua mãe, Marasiah, que gerou Jizabel, a criança do infortúnio, ou mesmo a condição de Drago como o hospedeiro de uma deidade interdimensional conhecida, universalmente, pelo epíteto de O Devorador de Dimensões?

Não há público para isso e, assim, o registro dos acontecimentos no casarão da Dinastia Hargreaves se transformou em um singelo hobbie para o velho Pennyfeather, o qual teve o seu sangue empregado em três, ou quatro rituais de adoração de Cthulhu, o Deus Adormecido.

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