segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Cinefilia



— Pronto. Nós já podemos ir.
— Você pode me explicar uma coisinha antes?
— Aham.
— O que, em nome dos bigodões da minha tia Nice, que Deus a tenha, você está vestindo?
— Uma roupa de sair, né.
— Mano, nós estamos indo para um casamento! Vai, vai, troque logo isso pelo seu terno.
— Eu não tenho um terno.
— Que homem adulto NÃO tem um terno?
— Matthew McCounaughey.
— Okay, golpe baixo. Matthew McCounaughey não tem nem uma camisa.
— Passou Surfer, Dude de novo ontem.
— Um filme, simplesmente, sensacional. Eu fiquei, completamente, encantado com a Alexie Gilmore, mas não esse não é o filme de hoje! Eu não serei o McCounaghey e você não será o Woody Harrelson!
— Por que eu seria o Woody Harrelson?
— Porque eu quando você inventou de trabalhar com apostas, eu aceitei ser o Stephen Graham do seu Jason Statham. E nós não conseguimos nenhum diamante!
— É, aquilo foi mesmo um descarrilamento de trem. Desculpa por isso, mano.
— Tudo bem, mano, o que passou, passou. Hoje à noite eu serei o Owen Wilson e você será o Vince Vaughn. Não, peraí, isso está errado. Qual é o que fica com a linda da Isla Fisher no final?
— Vince Vaughn.
— Então eu serei o Vince Vaughn.
— Acho que você é muito magrinho para ser o Vince Vaughn.
— E você não tem os cabelos loiros do Owen Wilson, mas não é como se a gente fosse tentar reencenar o filme, não é, mano! Até porque aquilo não é real: nenhum artista viadão é tão puto da vida e recluso como o Keir O’Donnel naquele filme.
— Nem o Oscar Wilde?
— Nem o Oscar Wilde. Depois dê uma lida no De Profundis, verá que ele era um viadão borboleta saltitante. ... Não que haja algo de errado com isso...!
— Não, não mesmo. É a escolha de cada um.
— Exato. O importante é ser feliz. O que você faz na cama e com quem faz não é importante.
— Falando nisso, mano, nem te contei! Fiquei com a Ariadne ontem!
— Mano, não brinque com coisa séria, por favor. Brinque com a morte de um parente, mas não com esse tipo de coisa.
— É sério, pô. Não estou brincando.
— Prove.
— Eu juro em nome de John “O Cara” McClane que eu não estou mentindo.
— Tudo bem. Eu acredito em você. Conte-me os detalhes.
— Não estamos atrasados demais para isso?
— Pularemos a cerimônia na igreja e iremos direto para a recepção, qualquer coisa é só falar que foi uma linda cerimônia e que eles são perfeitos um para o outro se alguém perguntar. Coisa simples. Enfim. Ariadne. Conte.
— Mano, ela é muito mais vadia do que falam por aí!
— Eu sabia que os rumores não faziam jus a ela!
— Não fazem MESMO! Mano, você não tem ideia! Ela me fez ir a Marte e voltar!
— Isso é tão You Shook Me All Night Long da parte dela.
— Eu me senti mesmo que nem o Brian Johnson!
— Eu fico feliz por você, mano. E, honestamente, eu espero que você reparta um pouco dessa sorte comigo hoje — as amigas da Raquel são LINDAS. Você não tem ideia!
— Tem interesse em uma delas em particular?
— Aham. Bia. Ela é tão LINDA de MORRER que, sério, eu me sinto vivendo em uma música do Guns ‘n’ Roses.
— Guns ‘n’ Roses? Ela deve ser uma Vênus da vida para você colocar de lado a sua birra com o Axl Rose.
— Linda o bastante para eu fazer as pazes com Axl, entretanto não com o Hugh Jackman.
— Com quem foi mesmo que você assistiu Austrália? Foi com a Cecília, não foi?
— Foi. Muito obrigado, mano, por me lembrar dessa menina quando faltam apenas uns instantes para a gente sair para papear as mulheres desesperadas e então com elas fazer safadezas. Sério, muito obrigado. Lembrar-me dessa menina realmente colocou a minha autoconfiança lá em cima.
— Você está sendo irônico.
— Tão irônico que se você abrir o dicionário encontrará uma foto minha com um sorriso bobalhão ao lado da palavra “ironia”.
— Por que você não tenta falar com ela?
— Eu tentei. Quatro vezes. Você sabe disso.
— Eu só contei três!
— É porque a quarta foi anteontem. Desculpa não ter te contado, eu estava com a cabeça cheia.
— Tudo bem, conte-me agora. Como foi?
— Eu me senti como o Brad Pitt no início de A Mexicana.
— Você bateu no carro dela?
— Avance um pouquinho o enredo. Pare na parte da janela.
— Ela atirou as suas tralhas pela janela?
— As minhas, não. Porque, veja bem, eu não tenho tralhas na casa dela.
— Então que tralhas ela jogou?
— As delas.
— Ela jogou as tralhas dela em você?
— Ela jogou as tralhas dela em mim.
— Uau! Ela ainda está muito puta da vida.
— Rocky Balboa preferiria outra rodada com o Ivan Drago ao invés de ir falar com ela.
— Não conte para ninguém, mano, mas eu chorei quando o Apollo morreu.
— Eu também, mano. Foi um momento decisivo em minha infância. Foi nesse momento em que eu descobri uma das verdades incontestáveis dos filmes de Hollywood.
— Qual?
— Se você é negro, e não é o Morgan Freeman, certamente se dará mal em algum momento do filme.
— Mas o Morgan Freeman morreu em Red! Isso é se dar mal. Muito mal.
— OK, troque o Morgan Freeman pelo Samuel L. Jackson.
— Ele se deu mal em Star Wars: Revenge of the Sith e em Jackie Brown.
— Wesley Snipes?
— Levou o destempero em O Demolidor e em Chaos.
— Denzel Washington?
— Transformado em peneiras pelos russos em Dia de Treinamento.
— Jason Nelson Robards, Jr.?
— Ser negro de pulmão não é ser negro de verdade.
— OK, se você é negro, certamente se dará mal em algum momento do filme. Que horas são?
— Quase nove horas.
— Deve estar no meio da cerimônia. Qual dos nossos amigos mora mais perto daqui?
— O Yan.
— Será se ele tem um terno para emprestar?
— Não posso mesmo ir assim?
— Mano, os garçons estarão mais bem-vestidos do que você.
— É, então não tem jeito.
— Não, não tem. Prepare a sua paciência, mano, porque convencer aquele indivíduo a te emprestar o terno que nem os dois álbuns da Ashlee Simpson: maçantes.
— Ashlee Simpson tem três álbuns.
— Impossível.
Autobiography, I Am Me e...
— Avante, homem! Nós temos um terno para buscar!

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