terça-feira, 22 de março de 2011

O Fim da Infância


Há dois anos eu estava entediado em uma sala de cursinho, esperando pelo início da aula e, para ajudar o tempo passar mais rápido, escutando música, precisamente à intitulada Childhood’s End do álbum Obscured By Clouds do Pink Floyd. Pelo fato de a melodia não atrair a minha atenção, eu nunca havia parado devidamente para prestar atenção na sua lírica — até aquele dia. Eu prestei atenção, analisei e fiquei deslumbrado com a história contida na canção, a história dos dias derradeiros do último homem na Terra.

Horas mais tarde, eu, já em casa, me sentei na frente do computador e tratei de procurar mais informações acerca daquela música, eventualmente descobrindo que o seu título e, consequentemente, o seu conteúdo tinham sido retirados de um livro, O Fim da Infância, cujo autor, Arthur C. Clarke, era um contemporâneo de Isaac Asimov, o criador dos contos que foram transformados no filme Eu, Robô.

Não esperei nem uma hora para comprar o livro na Estante Virtual, adquiri-o de fato uma semana mais tarde, comecei a lê-lo e, no decorrer de três dias, alcancei a última página — curiosamente, eu estava escutando Childhood’s End e encontrava-se sentado na mesmíssima cadeira da vez anterior. Fechei o livro, olhei para o meu primo, que também é um escritor excelente, considero-o muito superior a mim, e então soltei um palavrão: “Caralho!”. Ele, obviamente, não entendeu a razão do palavrão e olhou-me confuso, daí eu peguei fôlego e expliquei que aquele “caralho” positivo, porque palavrão nem sempre tem conotação ofensiva, era a única maneira possível de expressar o meu sentimento pós O Fim da Infância cuja sinopse eu falei para ele em seguida e agora escreverei para vocês.

O livro narra uma invasão da Terra por alienígenas misteriosos denominados de Senhores Supremos que, surpreendentemente, não desejam escravizar a humanidade, ao invés disso focando-se em ajudar-nos a transformar o nosso adorado planetinha azul em uma utopia — transformação que ocorre com sucesso.

O ser humano, entretanto, é uma criatura invariavelmente curiosa e, desse modo, não pode evitar se perguntar sobre a real identidade dos Senhores Supremos que até então jamais tinham revelado a sua aparência e manter-se-iam desse jeito pelo tempo que julgassem ser necessário, somente dispondo-se em frente à humanidade décadas mais tarde e revelando possuírem a fisionomia de uma figura particularmente temida e odiada durante a época em que a religião exista (não há credos na Terra utópica).

O impacto dos Senhores Supremos na cultura humana torna-se mais intenso a partir desse contato, fazendo-nos alcançar uma Era de Ouro genuína e, eventualmente, o ápice da evolução, de modo que a última geração de seres humanos — a exceção de Jan Rodricks, o qual, devido a sua curiosidade, desapareceu da Terra por muitos anos — se mostrou uma completamente diferente da do Homo sapiens sapiens, sendo este o objetivo dos Senhores Supremos desde o início da invasão.

Uma vez concluído tal objetivo, mais alguns episódios bombásticos ocorrem nas últimas páginas do livro, culminando no encantamento de Jan Rodricks diante do potencial dos seus descendentes, a saudação de Karellen, o principal Senhor Supremo, em respeito à humanidade e, finalmente, comigo — e, mais tarde, você — soltando um “Caralho!” bem alto, pois este é o único jeito de expressar a sensação implantada pelo momento final do fim da infância da humanidade.

O Fim da Infância, juntamente com A Cidade e as Estrelas e As Canções da Terra Distante, ambos do Arthur C. Clarke, é um dos melhores livros de ficção científica que eu já tive o prazer de ler em toda minha vida e — caralho! — recomendo-o para qualquer um com interesse no gênero e alergia à clichês.

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