quarta-feira, 4 de abril de 2012

O Vale do Silêncio (iii)


Aion despertou no meio da madrugada conforme houvera planejado. Levantou-se com cautela para evitar interromper o sono de Serrah, apanhou uma capa grossa para escudá-lo da frialdade daquela hora, abriu a porta com leveza, quase sem emitir qualquer ruído, então, retirou-se da cabina, não se esquecendo de trancar a porta — os honka[1], afinal, não eram os únicos predadores daquela região —, e, por fim, rumou para sul do abismo, alcançando, eventualmente, um obelisco criado pela natureza, era altíssimo, muito resistente e possuía uma coloração púrpuro-escura.

O velho homem ajoelhou-se perante a estrutura, tocou a pedra fria e, ali, aquém ao mundo, permitiu-se derramar uma cachoeira de lágrimas. Há muitos anos, ele enterrara a sua esposa, Meetra, debaixo daquela obra rochosa, desse modo, realizando o pedido final da tão amada mulher. Meetra, a qual era originária do Vale do Silêncio, sempre contara ao marido do sentimento extasiante de harmonia que sentia quando se punha diante daquele obelisco, um elemento comum e fundamental do folclore regional.

Segundo o mito, a estrutura púrpuro-escura era o último resquício de uma torre colossal erguida na Noite dos Tempos para tocar o céu e, assim, servir como uma evidência da aliança há muito tempo travada entre o Homem Primordial e o Grande Pai, aliança que, supostamente, perdurou mesmo depois de o Homem Primordial ter falecido, sendo honrada pela sua família até o terrível dia no qual Keman, seu último descendente legítimo, teve o seu bom-senso dominado pela arrogância, ele acreditou ter poder suficiente não apenas para sobreviver sem a aliança sagrada como também para substituir o próprio Grande Pai, resultando em uma guerra entre a tribo Kalam e o Grande Pai que, embora sozinho, saiu-se vitorioso.

Sua vitória, contudo, falhou em impedir o término da aliança e, consequentemente, a destruição da sua evidência que, talvez para demonstrar a esperança remanescente do Grande Pai, ainda era capaz de irradiar aquele tão confortante sentimento de harmonia para quem quer que se aproxime dela. Exceto pelo velho homem. Desde o funeral de Meetra, aquele obelisco tornou-se uma fonte constante e intensa de melancolia — não houve um único dia em que o velho homem deixasse de sentir falta dela, uma falta que corroera a sua alma, fazendo-o incapaz de sentir afeto por qualquer outro ser humano, inclusive o seu próprio filho.

O velho homem, então, descobriu-se pensando na sorridente criança que, um dia, fora o seu filho. Perguntou-se, como, às vezes, fazia, se tudo teria ocorrido de outra maneira caso ele e não Meetra tivesse perecido na linha de frente em A Baoa Qu[2]. Sem nem precisar fechar o olho remanescente, o velho homem conseguia arquitetar a lembrança daquela época na sua mente: o cheiro de sangue, de fogo, de chuva, de morte. A figura de Meetra, empunhando, gloriosamente, a sua shikkar, os cabelos loiro-escuros balançando ao vento, os olhos castanho-escuros queimando com determinação e a dança fluida e elegante executada pela exímia Therai-venn[3] ao defender e atacar o desprezível exército do Lorde Ebbin[4].

Ele tocou a sua cicatriz. Em A Baoa Qu, o velho homem perdera um olho e Meetra, sua amada Meetra, perdera a sua vida. Onde, ele indagava aos ventos, estava à justiça nisso? Onde? Onde? Ninguém soubera responder tal questão... E, assim, ele dera início ao seu caminho em direção a absoluta reclusão, ou, como era dito em Shan’En’Kar, decadência.

O velho homem enxugou o seu rosto com uma manga da blusa, beijou a pedra fria enquanto admirava a imagem mental da sua esposa, anunciou que voltaria àquela mesma hora no outro dia, deu às costas para a lápide natural e seguiu de volta à cabina, andando com velocidade suficiente para retornar antes de Serrah acordar: apesar de sentir algum afeto paterno e sincero pela jovem Therai[5], ele não queria dar nenhuma explicação a ela, principalmente no que dizia respeito à sua esposa e, em geral, ao seu passado.

Entretanto, ele também não podia evitar perguntar-se como, em nome de Theron Khai[6], a menina falhara em reconhecê-lo? Teria a sua estátua na capital ter sido derrubada? Ou talvez ela apenas fosse detentora de uma péssima memória para rostos? Tanto fazia... Ali, tão distante de tudo e de todos, ele, finalmente, conseguira um pouco de paz, paz que gostaria de manter até o seu dia derradeiro.

“Qualquer dia, agora”, o velho homem, encarando uma mancha preta na sua mão esquerda, pensou, “Falta-me a energia de juventude para combater a maldição”. Outra lembrança aflorou em sua mente e ele sentiu como se um punho feroz estivesse tentando esmagar o seu coração. Naquele dia, há dez anos, ele estivera, inteiramente, ciente da intenção assassina contida no olhar do seu filho, porém nunca, nem em um milênio, ele teria sequer ponderado sobre a possibilidade de Enton empregar um artifício tão hediondo quanto a infame maldição Ederra Hethrir para tentar matá-lo...

O velho homem teve os seus pensamentos transportados, abruptamente, para o futuro ao escutar um som horrendo e inconfundível: o urro de um czulkang[7], ou, como era, vulgarmente, chamado em Eriadu, um “senhor-do-deserto”. Ele voltou-se para o leste e, imediatamente, avistou a criatura no cume de uma duna, metade mamífero, metade réptil, o czulkang vermelho bufava com ferocidade, tinha o dobro do tamanho do velho homem, suas mandíbulas possuam a força necessária para destroçar até mesmo uma estrutura, inteiramente, feita de nyl[8] e apresentava uma coloração amarelada nos seus olhos, algo que identificava, claramente, a criatura como sendo uma fêmea — portanto, uma “senhora-do-deserto” — durante o período posterior ao do parto, logo, ela precisava encontrar alimento para as suas crias e o velho homem, para o seu azar, constituía uma iguaria, intensamente, deleitosa.

Outro rugido ecoou pela imensidão do deserto, a czulkang bateu uma pata dianteira na areia, abaixou um pouco a sua cabeça, posicionando-a em um ângulo de ataque, soltou um bufo de advertência e, então, ela, muito acelerada, desceu a duna em direção ao velho homem, preparando-se para cravar as suas presas inclementes na jugular da sua vítima.

Vítima que, por sua vez, manteve-se parada ao invés de procurar escapar daquela emboscada. Por viver no deserto há tanto tempo, o velho homem estava ciente de que era, virtualmente, impossível fugir de um infeliz encontro com um czulkang, ainda mais quando este tinha a necessidade de alimentar a sua prole, assim sendo, tudo o que ele poderia fazer era esperar pelo momento certo e desferir um golpe fatal na senhora-do-deserto, consequentemente, condenando os seus recém-nascidos à morte por inanição. “Que triste destino”, o velho homem pensou.

A senhora-do-deserto percorreu a distância até a sua vítima, levantou a parte frontal do seu corpo escamoso e peludo para intimidá-la, bateu com força na areia, produzindo uma nuvem que obteve sucesso em obscurecer, embora parcialmente, a visão do eremita. Em seguida, a criatura impulsionou a sua cabeça contra o pescoço do velho homem com a boca aberta, teria mordido a jugular dele caso Aion não houvesse se abaixado no momento exato para evitar as presas impiedosas e, então, contra-atacar com um golpe violento desferido com a mão aberta no peito da czulkang, obrigando-a a recuar um tanto ofegante. Ele era um velho com pé na cova, entretanto ainda possuía força suficiente para enfrentar um predador como aquele.

O eremita encarou a criatura intimidada, pelo seu olhar, ele transmitiu uma mensagem, não tinha vontade de matá-la, o seu único desejo era o de retornar para o seu próprio lar, até porque a carne de czulkang era, extremamente, desgostosa para a sua espécie, enviou sentimentos de responsabilidade e maternidade, fazendo à senhora-do-deserto pensar na sua prole e em como esta estaria fadada ao fim caso ela perdesse a sua vida ali. Por fim, o predador abaixou a sua cabeça até o chão, um gesto que, na sociedade czulka, indicava submissão, o velho homem respondeu com uma reverência educada, então, virou-se para continuar o seu caminho, entretanto teve o seu objetivo perturbado por uma interrupção inimaginável: Serrah.

Ela fora acordada por um forte sentimento de perigo e um nome, o de Aion, por conseguinte, levantou-se, apressada, da cama, pegou sua shikkar[9] e partiu para o deserto a fim de encontrar o seu anfitrião, temia pela vida dele e, por tê-lo encontrado tão próximo àquela criatura horrenda cercada por uma miríade de sentimentos de violência, fome e brutalidade, Serrah nem sequer cogitou a possibilidade de interpretar a situação, urrou o nome da sua shikkar, Kahedrin, provocando o surgimento de uma chama amarela crepitante ao redor da lâmina cristalina, saltou em direção à besta sanguinária, pousando perto do peito dela e balançou a lâmina chamejante para atacá-la, no entanto a senhora-do-deserto usufruiu da sua velocidade e tamanho, conseguindo, desse modo, atacar primeiro com uma pata pesada, movimento que teria dilacerado o tórax de Serrah caso o velho homem não estivesse ali para salvá-la: ele empurrou a Therai, colocando-se na linha-de-ataque, tendo, consequentemente, o seu braço arrancado pela força sobrenatural da senhora-do-deserto.

O velho homem nem piscou diante da perda de metade de um membro, ele, simplesmente, se voltou para o predador, estendeu a mão restante, deixando-a no sentido da cabeça da criatura e sibilou, friamente, uma frase fatal: “Breha Rieekan”. Uma multidão de feixes de luz azul-elétrica projetou-se da palma do eremita rumo à cabeça da czulkang que, ao tangenciar com a luminosidade, teve o seu corpo, furiosamente, eletrocutado, o coração parou de bater e a carne carbonizada tombou na areia.

Uma vez nulificada a ameaça apresentada pela senhora-do-deserto, o eremita direcionou sua atenção para o ferimento, sussurrou outro feitiço, Cosinga Lah, para estancar o sangramento e também cicatrizar o tecido destruído, efetivamente, curando-se do male. Ele olhou para Serrah, estática em sua posição, ajoelhada, com a shikkar, agora em seu estado passivo, pendendo, inutilmente, da sua mão e exibindo um sentimento feito de confusão, admiração e incredulidade no seu olhar.

— Q... Q-quem é você-ê? — ela gaguejou.

— Eron Rhen Var — o velho homem, sombriamente, respondeu.


.: Vocabulário :.

[1] Honkon (pl. honka): pássaro carniceiro naturário do Deserto de Yagan.
[2] Batalha de A Baoa Qu: última batalha da infame e sanguinária Campanha de Ebbin, na qual o Lorde Ebbin, governante da cidade-estado de Tozr, foi, finalmente, derrotado, pondo, destarte, um fim ao expansionismo tozriano no território do Grande Império En'Kar.
[3] Therai-venn: integrante da Ordem de Theron. Oficialmente, consiste do maior nível hierárquico da Ordem. Um Therai-venn é responsável pelo treinamento dos aprendizes.
[4] Lorde Ebbin: governante da cidade-estado de Tozr durante 11-14 ATEK e o responsável pela infame e sanguinária Campanha de Ebbin onde o exército tozriano invadiu e conquistou 72 territórios do Grande Império En'Kar.
[5] Therai: integrante da Ordem de Theron. Oficialmente, consiste do menor nível hierárquico da Ordem.
[6] Theron Khai: o célebre fundador da Ordem de Khai notável por ter sido o primeiro indivíduo a encontrar uma maneira de misturar a magia praticada pelos clérigos da sua época com as técnicas de batalha empregados pelos guerreiros do, então, recém-formado Império En'Kar.
[7] Czulkang (pl. czulka): terrível predador do Deserto de Yagan. Metade mamífero, metade réptil, apresenta um perigo descomunal a qualquer ser vivo. Em Eriadu, é chamado de "senhor-do-deserto".
[8] Nyl: metal, altamente, resistente capaz de, inclusive, sobreviver, virtualmente, ileso a um golpe desferido por uma shikkar.
[9] Shikkar: arma tradicional de um integrante da Ordem de Theron e o símbolo da instituição. Consiste de uma empunhadura metálica (normalmente feita de chobam) fundida a uma lâmina de cristal sintético criada, alquimicamente, pelo portador da arma durante a Cerimônia de Honra. Cada shikkar é notória por possuir um nome próprio.


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