
O céu ensolarado desapareceu encoberto por uma miríade de nuvens escuras de origem incerta, o sopro do vento tornou-se violento, tão violento quanto o bufar de uma fera sanguinária, a terra tremeu como uma criatura amedrontada que se descobre encurralada pelo seu maior predador. Era, Sara pensou, como se o planeta inteiro, em cada simplório átomo da sua constituição, estivesse temendo pela sua vida. O que, em nome das estrelas, estaria acontecendo? Ela não sabia. Olhou para Septimus com o intuito de encontrar alguma resposta no rosto do noivo, surpreendendo-se ao perceber que ele, um antigo legatos legionis da, agora, Cidade das Luzes também carecia de qualquer noção daquilo que ocorria bem diante dos seus olhos.
E, assim, a noiva olhou para o Arquiteto, ação que culminou nela surpreendendo-se, pois no rosto daquela criatura extraordinária havia traços de um sentimento nunca antes demonstrado pelo Herói de Vaan: medo. O que, em nome da Cascata Multicolorida de Bagier, seria capaz de provocar tal sentimento em alguém responsável pela reconstrução da última estrela? Nada de bom, certamente.
Sara apertou, fortemente, a mão do seu noivo, procurando segurança no aperto dele, respirou fundo e, em seu íntimo, sibilou “Tudo ficará bem”. Seria mesmo? Um relâmpago, então, clareou o céu, sua descarga elétrica atingiu o topo de uma colina, queimando a grama e ferindo a terra, o seu trovão rimbombou com uma intensidade ensurdecedora, de modo que Sara e Septimus viram-se forçados a largar a mão um do outro para tampar os seus ouvidos enquanto o Arquiteto, estático e com uma gota de suor escorrendo pela sua testa franzida, manteve a sua compostura, olhando, desafiadoramente, para a colina aflita por aquela força sobrenatural.
Fogo escuro desprovido de fumaça alastrou-se do ponto atingido pelo raio, consumindo a flora e a fauna da região com a mesma voracidade de uma besta faminta, tudo aquilo tocado pelas suas línguas flamejantes era, instantaneamente, queimado e reduzido a cinzas em uma questão de milésimos de segundo, quase um piscar de olhos — aquilo, Sara sabia e Septimus também, seria o dia derradeiro do antes tão belo planeta Or. Uma tristeza sem fim.
Então, da origem daquela catástrofe surgiu uma figura, a silhueta de uma criatura humanoide, aparentemente, imune à destruição gerada pelo fogo sobrenatural, seu corpo curvilíneo indicava pertencer ao sexo feminino, ou a algum equivalente deste, esticou os seus braços e as suas pernas como se estivesse se espreguiçando, girou o pescoço, talvez a fim de estalá-lo e, por fim, direcionou-se ao encontro do Arquiteto e do casal. Cada passo dado pela criatura deixava uma ferida na terra. Para Sara, era como estar diante de um djinn maligno que, de algum modo, adquirira o poder de uma deidade.
A criatura cessou sua movimentação perante o grupo, colocando-se a uma distância que possibilitou Sara de averiguá-la de ponta a cabeça: era, assim como suspeitado, uma mulher, talvez a mais bela mulher em toda a existência do universo, sua idade era um mistério, porém, Sara supunha, deveria estar entre os vinte e duzentos anos, trajava-se com simplicidade, uma roupa preta aderente ao corpo, tão apertada que não faria muita diferença se estivesse desnuda. Em seu rosto, havia um sorriso excitado de luxúria, o mesmo sorriso estampado por Sara nas noites em que se deitava com Septimus. Quem era aquela mulher?
— Olá, meu querido! — sorridente, a mulher, fitando o Arquiteto, cumprimentou. — Há quanto tempo! Quase uma eternidade! — fez beicinho. — Por que essa careta? Não está alegrezinho em me ver? Nem um pouquinho? Não?
O Arquiteto engoliu em seco.
— Isso foi desnecessário — sua voz era o núcleo de um iceberg.
— Isso? Isso o quê? — ela olhou ao redor. — Ah, isso? Por favor! Isso é apenas um planeta. Ninguém sentirá falta.
O sangue quente subiu à cabeça de Sara e ela, rapidamente isenta de medo, falou sem nem pensar duas vezes.
— “Apenas um planeta”?! — ela berrou. — Como você se atreve a dizer uma coisa dessas?! — teria esbofeteado o rosto da mulher se não fosse por Septimus. Ele, calmo e perceptivo, sabia que tocar na pele daquela criatura demoníaca seria o fim da sua amada. — O que v...
— Ele está certo, Sara. Fique longe dela — o Arquiteto, aproximando-se da mulher, disse. —Há... Havia cinco bilhões de vidas vivendo aqui. Você não tem o direito de agir dessa maneira.
— Mas é claro que eu tenho! — a mulher, aos risos, contestou. — Eu tenho o direito de agir conforme a minha vontade.
— Quem é você? — Septimus, rompendo o seu silêncio característico, perguntou.
A mulher dedicou um olhar a ele, “Bichinho de estimação adorável”, ela comentou, em sussurro, para o Arquiteto. Então, encurtou a distância, passando ao lado do Herói de Vaan e pondo-se frente-a-frente com o casal.
— Ele não contou a vocês? Tsc, tsc, tsc — fitou, brevemente, o Arquiteto — Mas que falta de consideração! — tornou a olhar o casal — Ora, ora, eu sou a esposa dele — seu sorriso adquiriu um tom maléfico. —Meu nome é...
O Arquiteto saltou com o intuito de derrubá-la e, simultaneamente, tampar a sua boca, no entanto seu movimento falhou em ser, suficientemente, rápido, de modo que ela teve sucesso em sua ação. Ela disse o seu nome. E Or teve a sua existência, completamente, obliterada do universo.
Pequeno fragmento de uma possível segunda continuação à Cidade Sem Luzes. O título talvez fosse algo como Retorno ao Éden, ou mesmo Reino do Paraíso. Quem sabe Paraíso Perdido se não houver possibilidade de o John Milton me processar.
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