segunda-feira, 16 de abril de 2012

Gladiadores


Eu tive um sonho estranho essa noite. Não, não. “Estranho” me parece um adjetivo injusto. Risque isso. Um, dois, três. Recomeçando. Eu tive um sonho surreal essa noite. Nele, eu fazia parte de uma tribo que, cá entre nós, parecia-me ser fundamentada em uma comunhão fenomenal de culturas diferentes, era como se um pequeno grupo de cada singela etnia e região do mundo inteiro tivesse saído do seu lar e daí se reunido em um ponto isolado do globo a fim de construir uma sociedade, completamente, distinta das, até então, existentes apesar de tê-las como a sua base. Isso sim eu consigo descrever como “estranho” sem sentir uma gotícula sequer de culpa.

No decorrer do sonho, eu experimentei um verdadeiro sem-número de diferentes ritos, no entanto nenhum outro me surpreendeu tanto quanto o Rito de Companheirismo, no qual o casal, para atestar o seu interesse mútuo, deveria duelar em uma arena até que o outro se tornasse incapaz de continuar com o evento. Na mesma hora, eu me lembro de ter pensado “Sadomasoquistas adorariam isso aqui!”.

Era, então, chegada a hora do meu duelo. Entrei na arena empunhando minha espada e o meu escudo, sentia-me pesado dada a minha armadura metálica e a viseira do meu elmo dificultava a minha visão, entretanto ali estava eu, pronto para subjugar a minha amada e, do outro lado da arena, estava a Amanda: uma figura pequenina coberta por uma armadura ornamentada por diversos desenhos de flores e, no centro, com o desenho de um coelho, o seu brasão. Ela também tinha um escudo na mão esquerda e, em contrapartida à minha espada, segurava uma estrela-da-manhã com a outra mão. Amanda levantou a sua viseira e soprou um beijo para mim, fazendo-me sorrir por debaixo do meu elmo.

Um sacerdote colocou-se entre nós, disse o nome de cada um, discursou sobre a natureza do ritual, perguntou, pela última vez, se nós estávamos dispostos a continuar com aquilo, nós respondemos com um “Sim!” entusiasmado, então, ele retirou-se da arena e o barulho estrondoso de um gongo ecoou pela arena, anunciando o início do duelo. A multidão foi à loucura.

Amanda desferiu golpes tão furiosos contra mim que eu, honestamente, comecei a me perguntar se teria feito algo para irritá-la no passado recente. Defendi-me como pude, tive o meu elmo transformado em sucata, arrebentei a minha mão direita e por muito pouco não sofri um ferimento perigoso no flanco — que cultura violenta, aquela da nossa tribo onírica! Ela duelou com ferocidade, habilidade e determinação, contudo quem emergiu como o campeão final fui eu ao derrubá-la com um golpe forte na boca do seu estômago, Amanda desabou ao chão e bateu na areia com a palma direita aberta, indicando a sua desistência. Gritos explodiram da multidão. O sacerdote nomeou-me campeão e concedeu a mim o direito de beijar Amanda, algo que, pelo visto, eu nunca fizera no mundo daquele sonho.

Ajudei-a a se levantar, retirei o seu elmo e a beijei com uma paixão tão intensa que conseguiria reacender o núcleo de mil estrelas moribundas. E os meus sentimentos foram retribuídos. Uma vez terminado o nosso primeiro beijo, olhei para o rosto de Amanda, para os seus grandes e expressivos olhos castanho-claros e notei um quê de urgência ali.

— O que foi? — perguntei.

— Você precisa acordar — ela disse. — Você precisa se levantar.

— Por quê? — quis saber. — Como assim “acordar”, “se levantar”? Eu não estou entendendo.

— Nós duelamos e você venceu — disse Amanda. — Isso não é um pouco estranho para você?

E, ao escutar isso, eu entendi estar dentro de um sonho. Acordei logo em seguida, tinha o corpo banhado em suor, meu coração batia aceleradíssimo, a minha visão estava embaçada e a minha consciência via-se fadada a desaparecer dali a alguns minutos se eu não fizesse alguma coisa, isto é, se eu não ingerisse uma dose de açúcar para sanar a hipoglicemia terrível que me afligia. Levantei-me depressa, surrupiei um biscoito de morango do quarto da minha irmãzinha bochechuda e, tão logo comecei a melhorar, esbocei um sorriso de orelha a orelha: Amanda me salva até nos meus sonhos. Não é só por isso que eu a amo, porém é uma das principais razões.

Feliz aniversário, meu amor! Eu te amo.


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