sábado, 28 de abril de 2012

Uma memória distante



Eu me descubro agora em um estado intermediário entre acordado e adormecido, uma torrente de memórias e de fantasias flui, caoticamente, pela minha mente e eu me lembro daquela época há muito tempo quando, à tarde, eu voltava do cursinho para casa e me deparei com uma menina de olhos tristes embaixo de um poste, era pálida e malnutrida, uma criança de rua, certamente.

No outro dia, eu tornei a vê-la, estava estática no mesmo lugar, o seu olhar era vago, distante, quase perdido em um sonho. Eu a presenteei com um bombom, uma menta de hortelã, e continuei com o meu caminho, um sussurro fraco de agradecimento alcançou os meus ouvidos. 

Veio, então, um feriado seguido de uma sexta-feira enforcada, um fim-de-semana e uma segunda-feira regada à intoxicação alimentar, de modo que somente tornei a percorrer aquele caminho na terça-feira seguinte — não havia qualquer sinal da garota e um corvo repousava no topo do poste. 

Agora, tantos anos depois, eu, finalmente, compreendo aquela cena com plenitude: o mundo é um desenho esfumaçado fadado a desaparecer perante os meus olhos a qualquer instante. Eu posso escutar o delicado bater das suas asas e o doce encantamento escondido em seu grasnar, o corvo está vindo por mim.

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