quinta-feira, 12 de abril de 2012

O narrador, o bebê e as estrelas


Minha namorada tem um irmão, dois irmãos, na verdade, mas, nesse caso, eu estou me referindo a um irmão em particular, aquele que tem uma namorada, ou melhor, uma companheira estável, a qual, recentemente, deu à luz a um bebê, um menino rosado de olhos azuis e cabelos loiros, quase um alemão. Em uma reviravolta interessante do destino, eu me descobri sozinho na casa da minha namorada, eu sentado na sala-de-estar, olhando, um tanto distraidamente, para o coelho dela enquanto o bebê recém-nascido jazia deitado no seu berço, profundamente, adormecido.

Tal estado, no entanto, cessou-se no instante em que eu, em toda a minha falta de coordenação motora, levantei-me para beber um copo d’água e, no caminho, dei uma topada na mesa da cozinha, o que, consequentemente, fez-me soltar um grito estrondoso, despertando, assim, o bebê. O barulho do seu choro ecoou pela casa inteira e eu, de imediato, soube estar ferrado, afinal, sou um completo analfabético naquilo que diz respeito a bebês exceto, é claro, às brincadeiras: adoro brincar com crianças, porém nem desconfio como dar início ao processo de trocar uma fralda.

Obviamente, eu não poderia deixar o menino chorando em plenos pulmões, acreditando estar sozinho no mundo, isso seria um absurdo talvez tão ruim quanto entoar cantigas como, por exemplo, a da Cuca, então, o que fiz? Reuni coragem e dirigi-me ao quarto do bebê berrante com um único pensamento em minha mente, “Soltaram o kraken!”. E que kraken fofo era aquele. Tão pequenino, tão inofensivo e, todavia, tão barulhento. Um autêntico paradoxo, eu devo dizer.

— Ei, menino. Tudo bem? — disse. — Sou eu, o Felipe. Eu estou aqui. Está tudo bem.

Minha frase, pelo visto, falhou em convencer o bebê, que continuou chorando sem parar. Então, eu o carreguei no meu colo.

— Pronto, pronto — eu, tentando imitar minha namorada quando pegava a criança, disse. — Fique quieto. Vá dormir — uma pontada de desamparo surgiu na minha voz. — É sério. Pare de chorar — isso, obviamente, de nada adiantou.

Eu soltei um suspiro desanimado, sentei-me à cadeira e, então, pareço ter esquecido que no meu colo estava um bebê recém-nascido, pois naquele momento comecei a conversar com ele.

— Deixe-me dizer uma coisa a você, meu amiguinho — falei. — Tem muito esperando por você no futuro: uma vida normal, pagamentos de hipoteca, um trabalho como outro qualquer, uma perturbante sensação de vazio espiritual, então, é melhor você guardar as lágrimas para depois, menino — soltei uma risadinha triste. — Isso foi muito ranzinza da minha parte, não é? Eu estou parecendo um velho! Bem, mas eu sou velho, tão mais velho que você, menino — levantei-me da cadeira e comecei a vagar pelo quarto. — Você, no entanto, é muito novinho, não é? E, sabe, agora mesmo, tem um mundo inteiro pela frente. Você pode ser qualquer coisa que quiser — o bebê murmurou alguma coisa ininteligível. — Sim, eu sei. Você pode caminhar entre as estrelas — olhei para cima, para o teto ornamentado por vários desenhos de estrelas. — Na verdade, elas não se parecem nenhum pouco com isso, sabia? Elas são bem mais impressionantes: são esferas monumentais de plasma unidas por uma forte força gravitacional, estrelas são uma das coisas mais maravilhosas de todo o universo — um sorriso apareceu no meu rosto. — Sabe, eu sonhava com estrelas quando era pequeno, não tão pequeno quanto você, é claro, mas, ainda assim, pequeno. Acho que é justo dizer que, apesar de tudo, eu estou vivendo o meu sonho e isso tem sido, incrivelmente, divertido — toquei a minha testa com a dele. — Honestamente, meu amiguinho, eu espero que, na sua vida, você se divirta tanto quanto eu, senão mais.

O bebê esboçou um sorrisinho seguido de um longo bocejo e um fechar de olhos, extraordinariamente, fofo. Eu beijei a sua testa e o coloquei de volta no berço, desejando, do fundo do meu coração, que ele aproveitasse cada instante da sua vida nesse mundo admirável.

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