sexta-feira, 27 de abril de 2012

The Last Days of Krypton


Desde a minha infância, eu tive o Superman como o meu super-herói preferido do Ocidente e por uma razão sequer, remotamente, ligada ao seu status como um semideus: sua humanidade, no caso, o sentimento de humanidade, ele é a representação daquilo que há de melhor na natureza humana, algo um tanto irônico dada a sua origem alienígena. Origem que, por sinal, é, amplamente, conhecida, de fato, a maioria das pessoas consegue citar a fórmula da origem do Superman: planeta condenado, cientistas desesperados, última esperança, casal gentil, e, finalmente, Superman. No entanto, o que é sabido sobre o primeiro item dessa equação, planeta condenado? O que teria acontecido para encerrar a existência de Krypton, o planeta-natal da, e agora eu faço uso daquilo determinado pelo filme Superman original, maior civilização das vinte e oito galáxias mapeadas? Aí uma resposta que eu somente obtive quando, em um dia como outro qualquer, entrei na Livraria Saraiva por puro hábito e, então, deparei-me com um livro na sessão de pocket books, The Last Days of Krypton (tr. Os Últimos Dias de Krypton). 

Sua autoria atribui-se ao escritor Kevin J. Anderson do qual eu admito nunca ter ouvido falar até o momento no qual comecei a ler o livro e, cá entre nós, fiquei, extremamente, satisfeito com o trabalho. Anderson teve êxito em construir uma sensacional obra de ficção científica apesar de o final desta já ser, largamente, conhecido, sua condução da trama é admirável e somente é superada pela sua capacidade de fazer com que os personagens pareçam, realmente, entidades vivas, seres imperfeitos dotados de suas próprias particularidades, qualidades, defeitos, alegrias, tristezas, etc, etc. Indubitavelmente, o ponto alto do livro é a interação desses personagens entre si e com a sociedade na qual coexistem.

Tal sociedade, por sua vez, tem como base a introdução do filme Superman, de modo que pode ser resumida em uma só palavra: estéril. Krypton, em consequência de uma Guerra Civil ocorrida em seu passado longínquo, tornou-se um planeta estagnado, moroso e temente a qualquer inovação, algo que é mostrado logo no início da narrativa ao nos apresentar a Comissão de Aceitação Tecnológica presidida pelo Comissário Dru-Zod II (o General Zod de Superman e Superman II), o qual, em sua introdução, branda a Zona Fantasma, uma “ruptura” entre dimensões, recém-descoberta por Jor-El (o pai de Kal-El, ou Superman, e o protagonista do livro) como uma criação perigosa e, assim, a confisca com a intenção de destruí-la para evitar o seu uso indevido quando, na realidade, deposita-a em seu armazém pessoal. 

Anderson, então, emprega essa atitude de Zod para indicar que, no mundo apático e carente de criatividade de Krypton, há certas anomalias, isto é, indivíduos que se distanciam da estagnação social, ao apresentarem pensamentos inováveis, cada um impulsionado por um estímulo diferente: Zod ânsia por poder, Jor-El deseja satisfazer a sua própria curiosidade, Zor-El (irmão caçula de Jor-El) procura fazer aquilo que é o melhor para o seu povo (ele é o governante da cidade-estado de Argo) e Aethyr-Ka apenas quer colocar um fim à morosidade kryptoniana, a qual ela despreza profundamente. 

Em contrapartida a isso, há o Conselho e a nobreza kryptoniana, dois grupos, terrivelmente, enraizados na tradição, tomando-a como sendo perfeita e trabalhando para manter tudo em perfeito estado de constância. Sua existência é uma afronta à evolução, à inovação, a tudo aquilo que é diferente, desse modo, adota-se o papel de anti-herói a estes grupos durante a primeira metade do livro, o qual pode ser dividido em pré-Kandor e pós-Kandor, porque Kandor é o grande divisor de águas da História Kryptoniana e, portanto, da obra de Anderson.

Ora, e o que viria a ser Kandor? Kandor é, a princípio, a capital do planeta e, consequentemente, a sua maior cidade, nela reside à sede do Conselho e da Comissão de Aceitação Tecnológica e, portanto, age como o maior símbolo do conformismo kryptoniano que é encerrado na noite do casamento de Jor-El e Lara Lor-Van (artista profissional e historiadora amadora) quando a gigantesca nave de Brainiac (um inimigo clássico do, então, inexistente Superman) projeta-se sobre a cidade, encolhe-a e a põe dentro de um frasco com o propósito de conservá-la, então, desaparece, deixando para trás um rombo na face do planeta e na sociedade deste. 

E é aí que se inicia a segunda parte da história quando Zod, o único membro remanescente do governo anterior, decide sedimentar-se como o governante de Krypton, ele alista a ajuda de Jor-El, reúne os sobreviventes de Kandor e os voluntários e os lidera para as ruínas da cidade de Xan descobertas há pouco tempo por Aethyr, a renomeia Kryptonopolis e instaura uma ditadura com punho de ferro. O livro, então, converte-se em uma trama de intriga política da qual George R.R. Martin se orgulharia, Zod faz de tudo para assegurar o seu poder enquanto pequenas rebeliões (a maioria destas incitadas pelos descendentes dos onze membros do Conselho) explodem por todo o planeta. 

E, no meio disso, está o casal Jor-El e Lara com a notícia de que terão um bebê... Se o planeta não for destruído pela iminente Guerra Civil, ou pelas instabilidades em seu núcleo já identificadas por Zor-El. Eventualmente, a pressão do núcleo é aliviada pelo Raio-Rao, um dispositivo criado por Jor-El, que, não muito, depois é utilizado pelo agora General Zod para realizar um ato de genocídio: ele dispara a arma contra a cidade de Borga, obliterando-a por inteiro. 

Então, Jor-El, desiludido com o governo de Zod, consegue destituí-lo de sua posição como ditador de Kryptonopolis ao atraí-lo para uma armadilha dentro do seu próprio palácio de governo. O usurpador, Aethyr (que agora é sua esposa) e Nam-Ek (seu fiel seguidor) são atirados no interior da Zona Fantasma conforme aquilo exibido na introdução de Superman e Superman II, entretanto os efeitos dos seus atos ainda são sentidos: um novo Conselho é formado e, apesar da presença de Jor-El neste, mostra-se mais temeroso do que nunca, proibindo qualquer invenção criada pelo pai do bebê Kal-El e tomando uma atitude extrema para garantir a prisão eterna de Zod — atirar a Zona Fantasma no núcleo de Krypton, algo que é, imediatamente, censurado por Jor-El. Segundo ele, a Zona Fantasma alimentar-se-á da energia do núcleo e, eventualmente, o engolirá, provocando a explosão do planeta.

Descreditado pela sua contribuição com o regime de Zod, Jor-El tem os seus avisos ignorados, o Conselho atira a Zona no núcleo e, assim, Krypton é condenada a explodir em três dias. Três dias usados por Jor-El para tentar salvar sua família, porém somente tem sucesso em construir uma nave estelar capaz de carregar o pequeno bebê Kal-El, este é colocado dentro da embarcação, juntamente, com cristais contendo a História de Krypton e mensagens dos seus pais e, logo, será enviado para um planeta distante, a Terra. 

Finalmente, é chegado o último dia de Krypton. Eu, em particular, gostei bastante desta parte do livro, nela ressalta-se a natureza de cada singelo personagem, até o momento, sobrevivente, exibindo a maneira como escolhem passar as suas últimas horas de vida: Charys, a mãe de Jor-El e Zor-El, se senta sozinha com os seus pensamentos, lembrando-se do seu querido Yar-El, Zor-El passeia com Alura (sua esposa) pela estufa dela e Jor-El e Lara abraçam-se enquanto o glorioso planeta Krypton explode ao seu redor. É como um poema cuja beleza está, intimamente, ligada a sua melancolia. 

Nem tudo, porém, é sorumbático: no último capítulo do livro, o bebê Kal-El navega pelo espaço em sua nave estelar, levando consigo as memórias do planeta condenado e dirigindo-se para um futuro brilhante, merecedor de orgulho, ele será um deus entre os mortais e, ainda assim, escolherá protegê-los ao invés de governá-los. Curiosidade, inovação e esperança. Três palavras perfeitas para resumir esta obra-prima da mitologia do Superman.

***

Kevin J. Anderson é um autor estadunidense de ficção científica com cerca de quarenta best-sellers. Já escreveu livros spin-off de Star Wars, StarCraft, Titan A.E., Arquivo X e é, inclusive, co-autor das "prequências" de Dune com Brian Herbert. Dentre os seus trabalhos originais, estão a série Saga dos Sete Sóis (tradução livre) e Assembles of Infinity, a qual foi nomeada para o Prêmio Nebula. É também escritor de histórias em quadrinhos, tendo, notavelmente, escrito a fenomenal série Star Wars: Tales of the Jedi.

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