
Tio Oscar certa vez me disse que a vida está longe de ser um caminho, perfeitamente, reto: há um sem-número de obstáculos, buracos, curvas e outras coisas que dificultarão a sua jornada. Outro dia, minha irmãzinha sentiu isso à flor da pele. Era um sábado nublado, daquele tipo que dá vontade de ficar escondido dentro do edredom pelo resto do dia, fazer isso, por sinal, passou pela minha cabeça, contudo os meus pais estavam viajando e, assim, caiu sobre mim à responsabilidade de dirigir à minha irmãzinha até a escola.
Eu, um preguiçoso nato, admito ser, completamente, incapaz de acordar tão cedo, às 6 horas, de um sábado enregelante, portanto, entreguei à minha irmãzinha bochechuda de dezessete anos a função de ser o meu despertador para que, desse modo, pudesse levá-la a escola sem nenhum atraso. Entretanto, o despertador do celular dela falhou em funcionar naquele dia, de modo que ela somente veio a acordar às oito horas, o horário do início da prova para a qual passara, praticamente, o último mês inteiro estudando sem parar. Ela, é claro, faltou à prova e, dada a sua natureza como um simulado, não teria a oportunidade de prestar a segunda chamada.
Para tentar animá-la, eu comprei um pacote de pães-de-queijo e peguei o seu filme preferido para nós assistirmos, o que acabou parecendo ser uma atitude inútil, pois o seu rosto bochechudo permaneceu isento de qualquer traço de um sorriso: era uma máscara absoluta de melancolia e, pelo visto, nada poderia mudar isso, assim sendo, o melhor seria deixá-la em paz para lidar com aquilo do seu jeito. Infelizmente, eu sou incapaz de escutar o conselho dos Beatles e deixar estar.
— Você tem um amor sem paralelo por pão-de-queijo e este é o seu filme preferido e, no entanto, você está fazendo essa carinha de criança que teve o seu presente esquecido pelo Papai Noel. Isso é errado. Vamos, vamos. Tente se animar um pouquinho.
— Por quê? — ela perguntou. — De que adianta eu me animar agora se, segunda-feira, eu vou ficar triste de novo?
Eu apertei pause e olhei para ela, para além dos seus olhos castanho-claros, para a alma sorumbática existente em algum ponto metafísico e incompreensível da sua constituição.
— Por que você deve ficar feliz agora? — eu disse. — Ora, não é óbvio? — forcei um sorriso. — Porque você ficará triste na segunda-feira — acertei um peteleco suave no nariz dela. — Anime-se, bochechuda! — apertei play. — Porque Han Solo está a ponto de atirar primeiro.
Em seu rosto, um sorriso pequeno e discreto apareceu. Não era o melhor nem o mais bonito dos sorrisos, contudo era um sorriso e, nos dias mais sombrios, até um sorriso daqueles é capaz de reacender o fogo da esperança.
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