segunda-feira, 2 de abril de 2012

Em que uma palavra muda toda uma vida



Ela estava sozinha em seu quarto, entretinha-se com um livro e com uma coletânea não-tão-oficial do Bob Dylan, Everything Is Broken era a música da vez. Era uma noite frígida de outono e uma chuva delicada caía, entoando uma dócil melodia. Sua mãe saíra há alguns minutos, ela, se a garota havia escutado direito, tinha mencionado um encontro naquela noite, deve ter dito o nome do sujeito, no entanto nenhum nome vinha à mente da filha. Era difícil interessar-se pela vida romântica da sua mãe. Ou por qualquer outra vida romântica, para falar a verdade.

Ela retirou os óculos para, então, esfregar os olhos, sua vista estava doendo, uma provável consequência das quatro horas que passara lendo somadas à iluminação precária do quarto, um dos sete cômodos daquele casarão antigo, uma relíquia da Idade de Ouro da cidade e, conforme dissera sua mãe certa vez, uma obra-de-arte do magnífico Oscar... Oscar Não-Sei-Do-Quê. Era um sobrenome estranho e ela não fez questão de guardá-lo em sua memória. Era uma garota pragmática e apática, nada daquilo que fosse do seu interesse merecia receber a menor atenção, tal pensamento estendia-se, inclusive, às pessoas. Eis uma das razões de ela, aos seus dezesseis anos, carecer de um círculo de amigos íntimos, tinha apenas colegas e pouquíssimos. “Pessoas são entediantes”, a garota, em um dos primeiros jantares no casarão para o qual, recentemente, mudara-se, respondeu à sua mãe.

Essa atitude preocupava, intensamente, a sua mãe que, várias vezes, tentou encontrar um modo de fazer a sua única e querida filha interagir, socialmente, com outras pessoas, levou-a aos mais diversos eventos, contratou um exército de psicólogos, tentou também hipnoterapia e outros métodos de natureza esotérica e, porém, nenhum obteve êxito em nulificar aquele estado de indiferença constante que afetava a garota míope de pele branca e cabelos escuros.

Sua mãe, uma vez mais, expressara sua preocupação naquela noite antes de sair, era sábado, uma ocasião perfeita para uma adolescente abandonar o lar para encontrar-se com os seus amigos, talvez para ir ao cinema, a uma boate, ou mesmo para passar a noite na casa de outrem, algo nunca feito pela filha. Ela perguntou à garota se tinha planos para a noite, decepcionando-se, profundamente, ao receber uma resposta negativa.

Assim, a garota permaneceu em casa, absolutamente, sozinha em seu quarto, lendo um livro de Albert Camus, escutando uma coletânea não-tão-oficial de Bob Dylan, vestia um pijama azul-claro e estava, plenamente, satisfeita com a sua situação até o fatídico intervalo entre The Times Are a-Changin’ e Blowin’ in the Wind quando ela ouviu, perfeitamente, um ruído originado no andar térreo do casarão.

Ela, intrigada, levantou-se da cama, calçou suas pantufas, vestiu um roupão por cima do pijama e desceu para o andar inferior, tornando a ter a sua atenção capturada por aquele ruído quando estava na metade da escada, tal posição ajudou-a a identificar o ponto de origem daquela manifestação sonora um tanto familiar com o toc toc gerado pelo ato de bater em madeira: a porta do armário situado embaixo da escada. Botou-se perante a porta e recuou, assustada, ao escutar, novamente, o barulho, porém dessa vez acompanhado por um movimento da porta, parecia que algo, ou alguém, havia colidido, violentamente, com o outro lado desta. O que, no entanto, poderia ter sido? Afinal, o conteúdo daquele aposento consistia, fundamentalmente, de cacarecos e bugigangas que ninguém tinha paciência para jogar fora e nada era, suficientemente, pesado para causar aquela reação.

O ruído tornou a estimular o sistema auditivo da garota, só que dessa vez mais alto, muito mais alto, a porta também tremeu, parecia estar a ponto de, ou saltar do seu lugar, ou espatifar-se em mil pedaços, talvez ambos. Aquele conjunto de ações intensificou-se, desse modo, deixando a garota ainda mais assustada, ela segurou o primeiro objeto encontrado pelas suas mãos, um abajur, e o puxou para perto de si, colocando-o em frente ao seu peito e preparando-se para empregá-lo como uma arma.

O barulho alcançou o seu vértice e a porta abriu-se explosivamente, dela irrompendo uma figura de estatura mediana, uma silhueta humanoide que se projetou para cima do corpo da garota, colidindo com ela e, consequentemente, derrubando-a no chão. Uma voz masculina disse um “Desculpe”, então, a silhueta, que pertencia a um homem, ficou de pé depressa e, em um movimento veloz, bateu a porta do armário, fechando-a.

Ele, em seguida, voltou-se para a garota ainda caída no chão e disse uma palavra que mudaria a vida dela para sempre, “Olá”.


A SER CONTINUADO...


Escrever um conto sobre o Arquiteto e Sara-Sem-H é uma tarefa, particularmente, difícil e divertida para mim, afinal, a aventura desta dupla na Cidade Sem Luzes constitui um livro que, até o presente momento, só existe na minha mente e de forma fragmentada, daí o porquê de os contos não seguirem uma ordem cronológica concisa, o que — eu admito — pode ser algo, particularmente, irritante. Talvez eu ainda pare algum dia para escrever esta aventura do início ao fim e respeitando o sistema dos três atos. Talvez. Seja como for, este conto serve para representar o início de tudo, ou melhor, o início do início, porque ainda há uma segunda parte que, eu espero, não demorará muito a ser escrita.
O Autor

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