
Enyra, sempre, deita-se somente quando o céu é pintado pelas primeiras cores do alvorecer. Sua boca está dormente, pequeninos calos podem ser observados em suas mãos, seu abdômen dói, uma forte ardência tortura o seu interior e nem mesmo o seu ânus é poupado. Noite após noite, ela entrega o seu corpo àqueles que vêm à casa de prazeres Elysium, são nobres, camponeses, transeuntes, cavaleiros, mercenários, mendigos fedorentos e, às vezes, mulheres perfumadas. Ela, então, metamorfoseia-se em um objeto do prazer, uma boneca cuja única razão de existência é satisfazer o ser anônimo que entra pela porta dos seus aposentos, seres ordinários, criativos, tímidos, arrogantes e perversos. Seres que, talvez por vergonha, ou nojo, nunca se atrevem a olhá-la, diretamente, nos seus olhos vermelho-sangues.
Noite após noite, Enyra submete-se aos desejos dos seus clientes. Seu corpo é ornamentado por um mosaico de cicatrizes, algumas são consequências de puro sadismo, outras da estrita política de Mdm. Nara contra crianças e umas, as mais raras, são uma válvula de escape, uma maneira encontrada por ela de aliviar o estresse físico e mental da sua vida: Enyra corta a sua própria carne com uma lâmina brilhante e admira, sonhadoramente, a tonalidade do seu sangue. Sangue que, em um passado não tão distante, possuía caráter real.
Enyra é, em segredo, a última da Dinastia Velaryon e a única filha de Rhaemon III cuja vida foi ceifada em sua residência, o Palácio de Inverno, pela mão do odioso selvagem Styrmund, o líder da Tribo Varagritte das Terras Selvagens. Até hoje, tantos anos depois, a Dama Enyra, ao adormecer, sonha com aquele dia fatídico no qual Styrmund marchou com seu exército ferino para o interior das muralhas do Palácio. Daelys, o primogênito do Lorde Velaryon, foi a sua primeira vítima, tombando no Grande Salão ao ser decapitado pelo aço grosseiro do selvagem. Em seguida, foi Steffon, um primo querido, perdeu a sua vida: ele, Enyra lembrava-se, resistira, bravamente, contra a horda bárbara na entrada para a Torre de Cristal onde sua tia, a Dama Rhae, escondia-se com seus primos. Steffon lutou durante quatro horas, matando selvagem após selvagem, erguendo um mar de cadáveres ao seu redor e, finalmente, se juntando a este quando sua lâmina confrontou a de Styrmund. Tal proeza, conforme aquilo escutado por Enyra, garantira a Steffon um lugar no panteão da Tribo Varagritte como o Deus da Morte e o Guardião do Portão da Vida e da Morte.
Finalmente, Styrmund alcançou o topo da Torre de Cristal, ele e seu irmão, Maelor, o Horrível, violentaram, selvagemente, a Dama Rhae, sugando a sua vida até a última gota. Então, arrastaram Daegon, o outro irmão de Enyra, e a menina pelos cabelos para o Grande Salão onde os forçaram a presenciar o esquartejamento do tão querido pai. Daegon, com toda a força dos seus onze anos, libertou-se de quem o segurava, empunhou uma espada e a brandiu contra Styrmund que, logo, desarmou-o e pisoteou, furiosamente, a sua cabeça até a morte por ter cometido aquele crime hediondo, direcionar o aço ao líder tribal.
E, então, havia Enyra, uma criança de sete anos. Styrmund, guiado por uma lógica distorcida, decidiu guardá-la como, nas suas palavras, um “bichinho de estimação”, mantinha-a na sua tenda ao longo da marcha em direção à Montanha Real, o centro do país, garantia a sua alimentação e a higiene pessoal, açoitava-a todas as noites com um chicote, assombrava-a com indecências murmuradas no seu ouvido e fazia promessas de castigos terríveis que se tornariam realidade tão logo a menina sangrasse.
Os selvagens iniciaram sua escalada pela Montanha Real, esquartejando, derrubando, ateando fogo e saqueando tudo disposto no seu caminho. Maelor morreu pela mão de um cavaleiro, Sir Davros, que, não muito depois, teve a sua própria vida tirada pelo irmão vingativo do Horrível. Os portões do Castelo-sobre-a-Montanha colapsaram perante o exército selvagem, o qual se deparou com resistência corajosa e habilidosa por parte da Guarda Real. Styrmund tombou ao ter o seu crânio esmagado pelo martelo do Lorde Comandante da Guarda Real, Sir Artos Rhysode IV, e, então, os selvagens, privados do seu líder, trilharam a estrada para o Mundo dos Mortos.
E Enyra? Ela, em meio à desordem da Batalha do Castelo-sobre-a-Montanha, conseguiu fugir para longe da sua jaula, tropeçou e bateu a cabeça nas ruínas de um vilarejo na Estrada da Ascensão Real, teria morrido ali se não fosse pela presença de Madame Nara que cuidou do seu ferimento e, assim, estabeleceu uma dívida de vida com a menina, dando início, portanto, a sua vida na casa de prazeres Elysium. Isso foi há doze anos. Noite após noite, Enyra lembra-se disso. Noite após noite, Enyra conta as suas moedinhas de ouro. Noite após noite, Enyra sonha com a sua liberdade. Noite após noite, Enyra pergunta-se, Eu ainda estou viva?.
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