
Serrah despertou no interior rústico de uma cabana desconhecida, ela estava deitada em uma cama dura, um lençol fino cobria o seu corpo desnudo, sua bagagem jazia em uma cadeira ao seu lado, sofria de uma terrível dor de cabeça e podia sentir que alguém assistira aos seus ferimentos. Quem? Eis uma reposta que se provou impossível para a sua mente responder, de fato, ela somente podia torcer para que o desaparecimento da sua roupa não significasse que tivera o seu corpo violado durante o seu estado adormecido.
Um movimento do exterior da cabana capturou a atenção da Therai[1]. Ela, muito sorrateira, se levantou da cama, apanhou a shikkar[2], desembainhando-a devagar, tornou a captar o barulho de um movimento, dessa vez rastreando para próximo da porta de entrada, a única da cabine. Serrah esgueirou-se para uma posição favorável, fundiu-se a penumbra daquele dia quente e aguardou e aguardou e, no instante em que a porta abriu-se para dentro, reagiu em um salto veloz, brandindo a sua lâmina cristalina contra aquele que estava penetrando na residência desconhecida.
Embora carecesse do sangue frio para, realmente, cometer um assassínio, a Therai possuía a coragem necessária para, no mínimo, decepar um membro, ou até mesmo provocar um ferimento capaz de derrubar qualquer ameaça, daí a sua surpresa ao descobrir que Kahedrin falhou em rasgar a carne do invasor, sendo, ao invés disso, capturada por uma mão grande e pesada que Serrah, logo, descobriu pertencer a um homem alto e de aspecto grosseiro em cujo lado esquerdo da face havia uma enorme e feia cicatriz onde deveria estar outro olho escuro.
— Você não deveria balançar isso por aí — sua voz era rouca e rude. — Ainda mais nesse estado — ele, com um dedo da outra mão, indicou a pele queimada pelo sol de Serrah.
O homem largou o cristal amarelo, dispensando-o como algo inofensivo, adentrou na cabana, largou a carcaça de um honkon[3] no chão e seguiu para o fogão artesanal onde iniciou o preparado do que, pelos ingredientes, Serrah concluiu ser chá de miho.
— Há um varal lá fora — o homem disse. — Sua roupa está lá.
Sem proferir qualquer palavra, a Therai retirou-se da cabina, descobrindo, consequentemente, que esta fora construída na beirada de um abismo cujo fundo era impossível de ser visto. Ela desprendeu a sua roupa do varal e a vestiu, sem deixar, é claro, de notar que o conjunto fora, devidamente, lavado, então, retornou para o interior da cabina, sentou-se no chão, apoiando o corpo em cima dos joelhos e das pernas, pousou a shikkar no seu colo e abaixou a cabeça em um gesto humilde.
— Agradeço pela hospitalidade — Serrah falou. —Peço perdão pela minha atitude impensada.
O homem retrucou sem sequer dar-se ao trabalho de olhar para ela, “Eu só toquei em você para fazer os curativos”.
— Sim, obrigada — ela tornou a agradecer. — A quem devo minha convalescência?
— Meu nome não é importante — o outro retrucou.
Serrah mostrou-se incapaz de responder aquilo com um comentário espinhoso, “Em toda a minha vida, eu nunca conheci alguém cujo nome não fosse importante”.
— Há uma primeira vez para tudo — o homem colocou um bule de chá acompanhado de um copo metálico na superfície da única mesa. — Beba. O jantar (—seu olhar recaiu sobre o honkon—) ainda demorará a sair.
— Obrigada — disse Serrah, pondo-se de pé.
— E pare de dizer isso — seu salvador rosnou. — Ou desejará que eu a tivesse deixado para os honka.
— Sim, sim — a Therai, com um sorrisinho arteiro no rosto, concordou.
O homem incumbiu-se da demorada e maçante tarefa de retirar a plumagem preta do honkon, temperou a sua carne com algumas ervas nunca antes vistas por Serrah, então, colocou a carcaça no forno, acendeu-o e ficou ao seu lado, observando a preparação do alimento com plena concentração enquanto a Therai procurou distrair-se bebendo o chá de miho e limpando a shikkar com o material trazido na sua mochila. Eventualmente, Serrah desistiu de conter a sua curiosidade e rompeu o silêncio que dominaria o ambiente, “Como você fez aquilo?”.
— Com facilidade — o homem, focado na carne do jantar, disse. — Você faz muito barulho ao respirar e falta sutileza na sua locomoção — ele coçou a sua cabeleira prateada. — Considere-se sortuda por ter nascido tão tarde.
— O que você quer dizer? — perguntou Serrah, intrigada.
— Nada — seu anfitrião desconfiou. — O que está fazendo tão longe de Shan’En’Kar.
— Eu respondo se você me responder primeiro.
— Eu posso viver com a dúvida.
Serrah fez uma careta para o homem.
— Você é muito ranzinza — ela proclamou. — Ranzinza demais até para um eremita.
— Se quer alguém para conversar, acorde cedo e siga rumo ao leste, uma hora chegará a Eriadu — o homem falou. — Se sobreviver — ele acrescentou.
— Fique sabendo — Serrah, um tanto ofendida, começou a dizer. — Que eu sou uma Therai e nada nesse deserto tem o que é preciso para me matar.
O homem soltou um bufo irritadiço.
— Assim disse a menina que desmaiou no meio do deserto — ele retrucou. — Que ótima Therai você é. Gariah deve estar cheio de orgulho!
Serrah franziu a testa. Nunca ela escutara alguém se referindo ao atual Theron[4], Gariah Sin, pelo nome de batismo, na Akadhemia[5], em Shan’En’Kar, isso seria considerado um ato, tremendamente, desrespeitoso.
— Um homem como você não deveria usar o nome do Theron Sin tão levianamente — ela o censurou.
Tal comentário, embora sem a intenção, enviou o homem para uma viagem pela sua memória: o rosto da sua querida esposa, o rosto do seu tão amado filho... E a grande decepção. Ele sentiu o seu coração doer e, pela primeira vez em anos, dedicou um pensamento àquela noite terrível. O homem tocou a cicatriz e uma lágrima escorreu do seu olho escuro.
— O quê...? Ahn...? D-desculpe! E-eu, eu, eu... — reagiu Serrah, incerta de que atitude deveria tomar e incrédula perante a ideia de ela ter provocado aquela reação naquele homem grosseiro, rígido como uma rocha.
— Está tudo bem — disse o homem, limpando a lágrima.
— Não, não está — ela contrapôs. — Desculpe-me. Eu abusei da sua hospitalidade — sua voz adquirira um tom profissional e cortês. — Eu prometo que partirei tão logo chegue o amanhecer. O senhor não precisará se incomodar com a minha presença depois disso.
O homem virou o seu rosto marcado pela idade para a jovem Therai.
— Besteira — ele disse. — O seu corpo não está, plenamente, curado. Fique e descanse e depois vá embora para sempre — o homem, ainda que por um brevíssimo instante, desenhou um sorriso no seu rosto.
Serrah sorriu aliviada.
— Obrigada — ela agradeceu. — Como é que posso chamá-lo? — ela quis saber. — Não precisa me dizer o seu nome, apenas preciso de uma maneira mais respeitosa que “velho”, “você”, ou “senhor” para me referir ao senhor.
O homem tornou a dedicar sua atenção ao forno. O jantar, agora, já estava pronto.
— Você pode me chamar de Aion.
.: VOCABULÁRIO :.
[1] Therai: integrante da Ordem de Theron. Oficialmente, consiste do menor nível hierárquico da Ordem.
[2] Shikkar: arma tradicional de um integrante da Ordem de Theron e o símbolo da instituição. Consiste de uma empunhadura metálica (normalmente feita de chobam) fundida a uma lâmina de cristal sintético criada, alquimicamente, pelo portador da arma durante a Cerimônia de Honra. Cada shikkar é notória por possuir um nome próprio.
[3] Honkon (pl. honka): pássaro carniceiro naturário do Deserto de Yagan.
[4] Theron: integrante da Ordem de Theron. Um Theron é um Therai-venn cujas habilidades são superiores aos dos seus colegas, assim sendo, é concebida a ele a função de liderar a Ordem.
[5] Akadhemia: matriz da Ordem de Theron situada em Shan'En'Kar. É na Akadhemia onde reune-se o Conselho da Ordem e ocorre o treinamento dos aprendizes, assim como a Cerimônia da Honra e a Cerimônia da Despedida.
pela ausência de comentários em seu blog,presumo que pouquíssimas pessoas o leem, o que é verdadeiramente uma lastima (em minha opinião). Gostaria que soubesse que me divirto muito com suas historias e frequentemente venho aqui para ver as atualizações, portanto fica aqui os meus parabéns e o pedido para que não pare com esse seu "hobby".
ResponderExcluirps: Você realmente deveria investir na carreira,quem sabe escrevendo um web-book (eu ficaria feliz em fazer a divulgação).
ps2:Há uma falta de autores do gênero de ficção no estado do Pará.
ps3: se possível termine a historia do "arquiteto",pois gostei bastante do seu inicio.
/\ Concordo.
ResponderExcluirFelipe, não temos nos falado muito, isso é ruim, você é tão legal, poxa. Mas as pessoas tem outras prioridades, né? (cof) Brincadeirinha!
Eu continuo lendo os seus textos, mas o tempo está corrido, não dá pra comentar muito.
E continue com os contos da Sara-Sem-H, isso é uma ordem.
Errata: as pessoas têm.
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