
Tio Oscar nunca foi de falar muito em reuniões familiares. Na maior parte do tempo, ele se contentava em ficar isolado em um canto, bebendo uma taça de vinho e, ocasionalmente, conversando por alguns instantes com vovó, a qual sofria ao ver o seu primogênito tão distante do resto da família. De fato, lembro-me de ter escutado ela comentando com mamãe que temia um afastamento perpétuo da parte de Tio Oscar tão logo ela dormisse o sono eterno. Mamãe, por sinal, bateu na madeira três vezes em reação àquele comentário, obviamente, não por temer o exílio de seu irmão.
Irmão de quem nem ela nem ninguém parecia importar-se em falar muito, seu nome era tão, precariamente, dito que, algumas vezes, eu cheguei a ponderar sobre a possibilidade de Tio Oscar ser adotado, ter cometido uma grande atrocidade no passado, ou, quem sabe, ser aquilo que, no dialeto popular brasileiro, é considerado um gigantesco filha-da-puta. Ou coisa parecida.
Seja como for, eu, ao contrário do resto da família, vejo-me como, parcialmente, culpado pela alienação do meu tio, razoavelmente, obeso, afinal, nunca demonstrei qualquer interesse em conhecê-lo até o fatídico dia no qual eu e o meu grupo da universidade rumamos para o tribunal com a intenção de presenciar uma audiência e, desse modo, acrescentar umas horas complementares ao nosso currículo acadêmico.
Ali, para minha surpresa, o advogado de defesa era ninguém senão o meu próprio tio Oscar que, até então, eu sequer desconfiava ter cursado Direito e muito menos ter sido aprovado na prova da OAB. Uma grande surpresa, eu devo admitir. Iniciou-se a audiência. O ponteiro do relógio deslocou-se e, por fim, chegou a hora de tio Oscar falar. Ou melhor, de discursar. Porque não há outro verbo capaz de fazer justiça às palavras proferidas pelo meu tio naquela sala, ele concedeu ao seu cliente uma defesa tão sólida e impenetrável quanto a Muralha da China, ou mesmo um celular Nokia, citou Sócrates, Platão, Aristóteles, Kant, Kelsen, Rui Barbosa e muitos outros, construiu analogias com a mitologia greco-romana e também a indiana e a nipônica e, finalmente, comemorou, ainda que sutilmente, a sua vitória sobre o colega de profissão ao cantarolar bem baixinho a sinfonia da Batalha da Vitória de Beethoven.
Eu o abordei no instante em o encontrei fora da sala, indaguei a ele qual a razão de esconder tamanha capacidade oratória e de entretenimento quando reunido com a sua própria carne e sangue. Em réplica, tio Oscar convidou-me para acompanhá-lo durante o almoço, aceitei o convite e, logo, vi-me sentado em sua companhia em um restaurante chique no centro da cidade. O garçom, a princípio, tomou-me como um companheiro romântico de meu tio, até o censurou, em tom de brincadeira, pela minha pouca idade e afastou-se antes que eu pudesse esclarecer o engano. Da homossexualidade de tio Oscar, eu nunca duvidei, na verdade, sempre o vi como um Stephen Fry brasileiro desprovido de um amigo leal como Hugh Laurie.
— Muito bem, eu acredito estar devendo uma explicação a você, meu sobrinho — Tio Oscar, depois de uma refeição suculenta, disse. — Você nunca deve ter notado, contudo eu o observei desde pequeno, sua mãe, como você também não deve saber, é a minha irmã preferida — eu concordei com um aceno de cabeça. — Portanto, eu estou ciente da sua inteligência que é, se me permite dizer, formidável — ele bebericou um tantinho de café. — Algum dia, você será, ou um grande acréscimo ao ramo do Direito, ou um célebre escritor, ou, quiçá, ambos e, francamente, eu torço pela terceira opção. Na sua idade, eu também era um rapaz engenhoso, exceto que, e perdoe-me pelo comentário sincero, com maior ambição. Por muito tempo, participei, extensivamente, dos nossos encontros familiares, conversava com todos, distribuía abraços, beijos e, antes de descobrir a minha preferência sexual, algumas noites de prazer às minhas primas — eu estremeci ao escutar isso e tio Oscar, perante o meu constrangimento, pareceu-me satisfeito. Ele estava divertindo-se às minhas custas, aquele gordo safado! — Houve, então, um momento no qual eu tive uma epifania e percebi como maçante e repetitiva era a nossa família: sempre as mesmas conversas, as mesmas mágoas guardadas, as mesmas fofocas tediosas, etc, etc. Eu fiquei entediado, perdi o interesse e, em um protesto pacífico inspirado por Gandhi, adotei um voto de silêncio que apenas estou disposto a quebrar quando alguém tem a boa-vontade de dirigir-se a mim com um assunto diferente — ele desenhou um sorriso presunçoso no rosto. — Fique à vontade para me considerar um arrogante de categoria maior, ou, como já deve ter passado pela sua mente, um grandíssimo filho-da-puta. Eu fiz uma escolha, meu querido sobrinho, e pretendo mantê-la — ele terminou a sua xícara de café. — Então, o que me diz agora que tem a sua resposta?
Eu me endireitei na cadeira.
— Como é que o senhor encontrou um elo entre a Ilíada, a Noite Estrelada e a arma na gaveta do seu cliente?
O sorriso no rosto de tio Oscar intensificou-se.
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