segunda-feira, 19 de março de 2012

Glória


A ideia veio à mente de Erwin Corbusier, um estudante de Medicina, em uma noite na qual ele estava, particularmente, drogado graças a uma mistura, terrivelmente, ilegal de psilocibina com a infame dietilamida do ácido lisérgico, o LSD, duas substâncias, frequentemente, presentes nos experimentos do há muito tempo desacreditado Timothy Leary. Leary, talvez, também tenha sido uma fonte de inspiração para o, então, jovem Corbusier que, naquela noite, decidiu dedicar a sua vida para a concretização daquela ideia tão fora do convencional: a criação da droga recreativa perfeita, uma jornada que “roubou” quase três décadas da vida de Corbusier.

Ele, ao misturar um vírus não patogênico criado, artificialmente, em seu laboratório com o seu extenso conhecimento nanotecnológico, obteve êxito em fabricar a primeira ampola de uma droga capaz de manipular a mente humana para que esta, então, construísse os mais surreais dos cenários para destes desfrutar durante um período de cinco minutos que, para o usuário, pareciam durar longas cinco horas, tudo isto sem gerar dependência química, ou qualquer outro efeito danoso ao organismo humano. A tal fármaco, Corbusier, agora um doutor, batizou de “Glória” e, logo, a Glória descobriu o seu caminho para o mundo.

O idealizador da substância faleceu na virada do século XXII, entretanto a sua magnum opus continuou a ser, largamente, fabricada, de modo que se tornou uma tarefa, virtualmente, impossível encontrar um singelo ser humano que nunca houvesse ingerido uma dose de Glória uma única vez sequer na sua vida — o sentimento libertador da droga conquistou o mundo. E isso teve o seu preço.

No início do século XXIV, aquele que prometera ser o “Século de Ouro”, ocorreu uma mudança drástica em um componente principal da herança de Erwin Corbusier: o vírus, EC-303, sofreu mutação, uma terrível mutação que o metamorfoseou em um agente patológico, extremamente, violento munido da capacidade de ser transmitido pelo ar. O paciente-zero, Edgar Farradine, faleceu de um infarto do miocárdio às 8h03min do dia 21 de fevereiro de 2304, um domingo, em uma praça lotada de Estocolmo. Sete minutos depois, o Homo sapiens sapiens original terminou a sua jornada rumo à extinção.

Isso aconteceu há um milênio, muito antes de a Via Láctea ser, plenamente, conquistada pela Ascendência Kholothian, a qual eu, honrosamente, pertenço. Meu nome é Sev’urama’raw Tann, Lorde-Comandante da embarcação interestelar Eclipse, classe Imperial II, código de identificação SUWT1331. Minha tripulação, em um ato imperdoável de negligência, entrou em contato com a atmosfera terrestre.

A variante malévola do vírus, EC-304, resistiu à extinção do Homo sapiens sapiens original e, novamente, sofreu mutação para assegurar a sua sobrevivência: o EC-305 é, agora, capaz de infectar a nossa espécie. Tal abominação representa uma ameaça imensurável a Ascendência e, portanto, terá de ser erradicada de qualquer modo possível. Em virtude disto, eu, Lorde-Comandante Sev’urama’raw Tann, primogênito do Lorde-Pretor Feh’rance’raw Tann, Ordem de Prard’rek’bintrano Co, outorgo a Medida de Segurança Número 731, inciso III.

Majestosos Lordes-Pretores, foi uma honra incomensurável servir à glória da Ascendência Kholothian. Obrigado.

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