
Há muito, muito tempo, uma deusa morreu e, na mesma hora, uma criança, a filha de um rei, nasceu, herdando, assim, toda a beleza daquela majestosa divindade. O tempo passou, a princesa cresceu e, logo, ocorreria o seu décimo sexto aniversário, idade em que, conforme a Lei, ela deveria encontrar um marido digno de, algum dia, governar o reino com sabedoria e justiça e, acima de tudo, de amá-la com todo o seu coração.
Seu pai, o rei, após vetar uma legião de pretendentes, encontrou num jovem príncipe o marido ideal para sua queridíssima filha a quem atribuía à alegria do seu viver. Ele era um jovem bravo, leal, respeitador e, ao vislumbrar a tão bela princesa, viu-se inebriado de amor — um amor que nenhuma outra mulher no mundo conseguiria fragmentar em um milhão de estilhaços de melancolia.
Assim, o jovem príncipe ajoelhou-se diante da bela princesa e a pediu em casamento. Ela abriu os lábios vermelhos para responder ao seu pedido, no entanto viu-se interrompida pela imprevisível chegada de outro jovem, um de origem humilde, o filho do estaleiro do castelo, que crescera com a tão encantadora princesa e, secretamente, viera a amá-la com toda a intensidade do seu coração.
O filho do estaleiro, então, desafiou o jovem príncipe para um duelo até a morte, duelo que, para honrar a coragem do adversário, foi aceito pelo nobre. Ora, o que poderia dar errado? O filho do estaleiro lera todos os contos, todas as estórias, todas as fábulas em que o destreinado e ingênuo herói conseguia, às vezes, por pura sorte, triunfar perante o grande e sombrio vilão e, assim, resgatar a princesa. O jovem príncipe estava fadado à amarga derrota!
Veio, por fim, o amanhecer e o filho do estaleiro se encontrou à mercê da lâmina do jovem príncipe que, para livrá-lo da vergonha, pretendia ceifar a vida do seu adversário naquele instante e o teria feito caso a bela princesa não houvesse pedido para que poupasse a sua vida, dizia amá-lo como um irmão e confessou a sua incapacidade de ter felicidade com o algoz daquela pessoa tão querida. O jovem príncipe acatou ao desejo da sua tão amada noiva, embainhou sua espada e prometeu uma vida de luxo ao filho do estaleiro, convidando-o, inclusive, a ser o mestre administrador do seu castelo.
A vergonha, porém, fora demais para o filho do estaleiro, ele apanhou sua espada e, com esta, degolou a própria garganta, morrendo com uma expressão de repulsa em seu rosto. A ordem do jovem príncipe, o corpo do falecido foi carregado para a cidade do castelo a fim de ter um funeral apropriado que fora atendido pela família do infeliz, por aquele que poupara a sua vida e também pela mulher que ele amou ao longo desde o primeiro dia em que pousou os seus olhos sobre ela.
A princesa aproximou-se do corpo para honrá-lo com uma rosa branca, cochichou algo em seu ouvido surdo, beijou a sua bochecha e retornou para a companhia do seu tão admirado marido. Suas palavras viajaram para além do Reino da Vida, penetraram fundo na terra, atravessaram o Limbo e alcançaram o Sétimo Círculo do Inferno onde o filho do estaleiro, metamorfoseado em árvore e condenado a servir de alimento para as harpias pela eternidade, pôde, finalmente, escutá-las.
“Se você houvesse confessado o seu amor antes, nós teríamos fugido juntos”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário