domingo, 18 de março de 2012

Uma mão para segurar


Era uma noite de sábado como outra qualquer, a televisão jazia desligada na sala-de-estar, uma pilha de louça suja acumulara-se na pia da cozinha, meu irmão-cachorro havia adormecido em cima da minha poltrona preferida e eu estava travando uma batalha, consideravelmente, difícil com uma mancha verde-gosmenta que sabe-se-lá-como tinha surgido no pátio da casa, recentemente, comprada pela minha família em Salinas, um balneário próximo à minha cidade.

Minha namorada, Amanda, estava observando o duelo épico do qual eu fazia parte, mantinha-se sentada em um dos degraus da escadazinha que conectava a cozinha ao pátio, ela bebia uma garrafinha de Guaraná Jesus (honestamente, eu não faço a menor ideia de como ela consegue gostar disso), ria do meu trabalho de Sísifo e encontrava-se, apaixonadamente, belíssima com os cabelos castanho-claros sendo esvoaçados pelo sopro do vento noturno.

Eu larguei o esfregão no chão para ter um momento de descanso e, então, olhei para ela, para Amanda. Já era, há muito tempo, do meu conhecimento que eu nutria um amor incondicional por ela, a qual, por sua vez, sentia-se do mesmo modo em relação à mim, contudo somente ali, naquele instante desprovido de qualquer grandioso significado cósmico, um momento como outro qualquer, eu, de fato, senti que deveria, ou melhor, que precisava estar ao lado dela pelo resto da minha vida.

Sentei-me ao lado dela que, daquele seu jeito tão, intensamente, adorável e preocupado, perguntou se eu não estava com fome. Para sua surpresa, eu respondi com um “Não”.

— Quem é você e o que você fez com o meu namorado? — ela, brincando, disse.

— Aquela coisa — eu apontei para a mancha. — Tirou todo o meu apetite. Sério, o que, em nome da Psephophorus terrypratchetti, é aquela coisa? — deixei escapar um suspiro desânimo e, então, eu desviei o meu olhar para o céu estrelado, um céu tão diferente daquele que é visto no coração da cidade.

Amanda entrelaçou os seus dedos nos meus em um nó apertado, do tipo que dizia “Eu não quero soltar a sua mão de jeito nenhum”.

— É muito lindo, não é? — eu, indicando uma constelação, comentei.

— Arram.

— Eu sempre gostei de ficar olhando, admirando as estrelas. Isso não mudou depois de eu ter descoberto que, olhe só que triste, algumas delas já estão mortas há milhares e milhares de anos. Eu continuo, irremediavelmente, encantado com esse oceano de estrelas que flutua acima das nossas cabeças e, sabe de uma coisa?, eu gostaria muito de poder navegar entre elas. Seria uma experiência fantástica. Óbvio que, tanto na ficção quanto na vida real, você precisa de n coisas para fazer isso, propulsão quântica, refratores de buracos-de-minhocas, saltos hiperespaciais, etc, etc, são muitas coisas. Mas, ei, sabe o que a coisa mais importante de todas?

— O quê?

Eu apertei a mão dela.

Uma mão para segurar.

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