
Serrah Korr sentia sede, muita sede. E cansaço também. Ela tinha o seu corpo banhado em suor devido ao calor escaldante característico do deserto pelo qual viajava, completamente, sozinha desde o início da semana — felizmente, Serrah logo alcançaria o seu destino, um indolente assentamento no Vale do Silêncio, localidade da qual, até pouco tempo atrás, ela nunca ouvira falar. Ora, e como poderia ser diferente? Serrah, na véspera do seu décimo sétimo aniversário, havia residido em Shan’En’Kar, o núcleo do Grande Império En’Kar[1] e, portanto, da civilização oriental, durante toda a sua vida, logo, por que ela teria de possuir conhecimento sobre um vale situado nos confins do Império? Porque ela era uma Therai[2].
Um Therai era o menor integrante da Ordem de Theron[3], instituição cujo intuito era o de manter a harmonia imperial e conceder a Justiça do Imperador — Krenith En’Kar III, no momento — a todo o imensurável Império, assim sendo, a Ordem esteve presente em uma infinidade de eventos importantes como, por exemplo, na Batalha da Montanha Vermelha[4] há uma década onde um número considerável de Therai, Therai-kel[5] e, inclusive, de Therai-venn[6] e o próprio Theron[7] da época, Lor-Ur Khrax, perdeu a sua vida. Serrah, dada, então, à sua pouca idade, teve a sua participação na batalha vedada.
E, agora, ao invés de estar no centro de um acontecimento munido de suma importância, ela via-se em uma jornada rumo ao assentamento de Eriadu para mediar um tedioso conflito rural, o que, a Therai imaginava, consistiria, basicamente, de sentar-se em uma sala rústica com o latifundiário local e o líder do movimento responsável pela invasão da terra deste onde Serrah submeter-se-ia a ficar por horas sem fio escutando as reclamações de ambos os lados antes de, finalmente, ditar a sentença que colocaria um fim àquela desavença, completamente, desinteressante.
Tal tarefa somente viera a ser responsabilidade de Serrah devido à falta de fé do seu instrutor, Sarasu D’ulin, o Conde de Fel, o qual via sua aprendiz como “uma Therai de habilidade marginal sem qualquer esperança de, algum dia, alcançar a posição de Therai-kel”. De fato, o Therai-venn em questão só assinalara uma tarefa a Serrah porque isto era uma medida obrigatória segundo o Código de Theron[8] conforme escrito pelo próprio fundador da Ordem, Theron Khai[9], há quatro milênios.
Serrah, em virtude da falta de discrição do Therai-venn D’ulin, estava, plenamente, ciente da opinião do instrutor em relação a ela e, por isso, decidira completar a sua tarefa com um êxito invejável, afinal, nada daria a ela maior satisfação que ver a expressão de incredulidade no rosto daquele conde nojento e, ao imaginar tal cena, Serrah encontrou força para continuar a sua fatigante caminhada pelas areias de quartzo do extenso Deserto de Yagan em cujo interior jazia a serenidade do Vale do Silêncio, um acidente geográfico repleto de minas de chobam[10], um minério precioso, e de uma quantidade ideal de grama-vermelha para criar rebanhos de muhrakka[11], um mamífero conhecido pela sua pele grossa, excelente para fabricar peças de usuário, e carne deliciosa que fora, nem seria, provada por Serrah devido à dieta vegetariana ditada pela Ordem.
Um artefato de chobam, porém, era carregado pela Therai naquele momento: a empunhadura da sua shikkar[12], a arma tradicional de um membro da Ordem, era constituída de tal minério, maleável, leve e capaz de fundir-se, perfeitamente, com a lâmina de cristal com quem compunha a arma. Serrah, em particular, possuía uma shikkar cuja lâmina era feita de um brilhante cristal amarelo e a denominara de Kahedrin durante a sua Cerimônia de Honra[13] onde ocorria a sua transformação de aprendiz em uma autêntica Therai, algo marcado pela construção da sua própria arma, a nomeação desta e a recitação do Juramento de Theron[14].
Naquele momento, Kahedrin estava embainhada e, apertadamente, enlaçada à cintura da sua detentora que temia, seriamente, perder a shikkar, afinal, esta era o símbolo da sua associação à ilustre Ordem. Uma vez que nunca fora desembainhada desde a sua confecção, a lâmina de Serrah era tida como uma “lâmina pura”, isto é, ainda imaculada pelo sangue e, pessoalmente, a Therai desejava mantê-la de tal modo. Era um pensamento, no mínimo, paradoxal: o sonho de Serrah era trilhar o caminho de glória dos seus heróis e, no entanto, ela apresentava um medo profundo de, realmente, ceifar a vida de alguém, o que era uma das razões para o seu instrutor vê-la como um completo e absoluto fracasso, “Um Therai que tem medo de desembainhar a sua shikkar não tem como proteger ninguém”, Therai-venn D’ulin proclamara, friamente, à sua aluna em algum momento do passado.
Momento que viajou até o futuro, trazendo consigo um peso insuportável, o qual se depositou sobre os ombros de Serrah e fê-la sucumbir ao cansaço: ela desabou de joelhos no chão e fechou os olhos. Oh! Mas como queria poder repousar um pouco! Alguns minutos, menos de dez, seriam suficientes... Então, o ruído de um honkon[15] (ou, “pássaro-carniceiro”, como também era chamado) lembrou-a do porque parar de locomover-se naquele deserto durante o dia era uma atitude nada sábia: tão logo um bando de honka percebia a inércia do seu alvo, este descia, furiosamente, sobre ele, atacando-o com uma violenta brutal que apenas terminava quando nada mais havia do corpo.
Serrah, com esforço, ficou de pé, ela limpou o suor da sua testa, engoliu um tantinho de saliva para refrescar, ainda que só um pouco, a sua garganta e, daí, deu continuidade a sua jornada. Escalou uma duna alta, sentiu a temperatura aumentar como se o próprio sol estivesse a alguns centímetros de distância, parou por um instante para recuperar o seu fôlego, em seguida, preparou-se para descer o amontoado de quartzo em pó, contudo perdeu o seu equilíbrio e, ao invés de descer cuidadosamente como planejado, ela rolou, dolorosamente, até o pé do monte, apresentando, agora, uma pequena série de cortes e hematomas ao longo do seu corpo feminino.
Ali, caída, machucada, exaurida, sedenta e, intensamente, enraivecida, a Theron permitiu-se, embora inconscientemente, a abandonar a serenidade perpétua ensinada a ela no decorrer do seu extenso treinamento e soltou um berro enfurecido, amaldiçoando Therai-venn D’ulin, o Vale do Silêncio, o latifundiário, os invasores da sua terra e, finalmente, a si própria dada sua incapacidade de superado os outros aprendizes da sua classe.
Outro ruído agourento de um honkon foi escutado e Serrah, em seu íntimo, acreditou ter chegado ao fim da sua jornada. Que patético! Ela morreria sem mesmo ter pisado na empoeirada Eriadu, o assentamento do Vale. Então, Serrah Korr adormeceu, talvez pela eternidade.
.: Vocabulário :.
[2] Therai: integrante da Ordem de Theron. Oficialmente, consiste do menor nível hierárquico da Ordem.
[3] Ordem de Theron: instituição fundada por Theron Khai há quatro milênios com o intuito de servir ao Imperador Teneb En'Kar I.
[4] Batalha da Montanha Vermelha: evento fatídico no qual a Rebelião de Ermos Rhen Var chegou ao fim com a morte do líder rebelde e Theron-kel renegado Enton Rhen Var pela shikkar de seu pai, Theron-venn Eron Rhen Var.
[5] Therai-kel: integrante da Ordem de Theron. Oficialmente, consiste do segundo nível hierárquico da Ordem. Um Therai-kel é responsável pela instrução de um Therai.
[6] Therai-venn: integrante da Ordem de Theron. Oficialmente, consiste do maior nível hierárquico da Ordem. Um Therai-venn é responsável pelo treinamento dos aprendizes.
[7] Theron: integrante da Ordem de Theron. Um Theron é um Therai-venn cujas habilidades são superiores aos dos seus colegas, assim sendo, é concebida a ele a função de liderar a Ordem.
[8] Código de Theron: conjunto de leis escrito por Theron Khai para reger a Ordem de Theron mesmo após a sua inevitável morte.
[9] Theron Khai: o célebre fundador da Ordem de Khai notável por ter sido o primeiro indivíduo a encontrar uma maneira de misturar a magia praticada pelos clérigos da sua época com as técnicas de batalha empregados pelos guerreiros do, então, recém-formado Império En'Kar.
[10] Chobam: minério maleável e leve dotado de uma alta compatibilidade com os cristais sínteticos usados para fabricar lâminas de shikkar.
[11] Muhrakka (pl. muhra): mamímero de grande porte, primariamente, herbívoro. Sua carne é um ingrediente popular no Império En'Kar e no mundo e a sua pele grossa é muito usada para a confecção de roupas.
[12] Shikkar: arma tradicional de um integrante da Ordem de Theron e o símbolo da instituição. Consiste de uma empunhadura metálica (normalmente feita de chobam) fundida a uma lâmina de cristal sintético criada, alquimicamente, pelo portador da arma durante a Cerimônia de Honra. Cada shikkar é notória por possuir um nome próprio.
[13] Cerimônia de Honra: cerimônia na qual um aprendiz torna-se um Therai ao construir a sua própria shikkai, nomeá-la e, por fim, recitar o Juramento de Theron.
[14] Juramento de Theron: juramento recitado por todo Therai em sua Cerimônia de Honra, nele, o Therai jura somente empunhar a sua shikkai para servir ao Império e ao Imperador enquanto este seguir os ideais convecionados pelo Imperador Teneb En'Kar I.
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