
O quarto diante de Sara era amplo e, femininamente, mobiliado, um aposento digno de uma princesa de contos-de-fada, ou, se você é preguiçoso demais para ler um livro, de um daqueles filmes-musicais-animados da Disney. De fato, o seu único defeito era a vista: ao invés de ter sido construído perante uma paisagem dotada de tamanha beleza capaz de provocar lágrimas de admiração até no mais viril dos bárbaros, o quarto da Belle Dame Sans Merci em sua Torre Principal fora erguido defronte para uma visão aterradora: a Escuridão Além do Tempo.
Aterradora, horripilante, terrível, e todo e qualquer outro sinônimo existente poderia ser usado para descrever aquilo, a Escuridão, o Nada, o Fim Pleno e Absoluto de Tudo Aquilo Que Já Existiu e Sara estava há mais ou menos três passos da beirada da varanda e, portanto, disto. Se ela saltasse, ou caísse, ou entrasse em contato com aquela substância enigmática descrita pelo Arquiteto como “a essência da inexistência de tudo”, teria a sua pessoa excluída do espaço-tempo-não-tão-contínuo e Sara-Sem-H nunca haveria existido. Sim, ela estava com medo. Muito medo.
Medo que a Belle Dame, erroneamente, acreditou ser o ponto de origem. Sentada em sua cama elíptica ornamentada com travesseiros emplumados e lençóis de cetim, ela sorria um sorriso sedutor munido de algumas pinceladas de escárnio e maldade, divertia-se com o terror nutrido por aquela que via como sendo uma criatura inferior — uma humana, ora, uma humana! O que era a raça humana senão uma vírgula no gigantesco livro da História Absoluta do Universo? —, queria torturá-la, macular a sua carne, abalar a sua mente, transformá-la em uma concha vazia cujo único objetivo em toda sua patética existência era a de atender aos caprichos e desejos da sua dama e, então, ela consentiria a entrada do Arquiteto para exibi-la perante ele e, assim, se deliciar com a fúria e a melancolia daquele homem tão odiado. E tão glorioso... Oh, como ela, a infame Belle Dame Sans Merci, se permitira ser tão, facilmente, ludibriada por aquele homem? Sua catedral, a Chave de Janus, o desprezo do Patrício... Oh, sim, o Arquiteto teria de pagar! Sim! Ele sofreria pela sua audácia nem que a dama tivesse de sacrificar toda a sua beleza para garantir isso.
Finalmente, Sara conseguiu encontrar forças para desviar o seu olhar da Escuridão, voltou-se para a Belle Dame, encontrando-a no meio de uma ação: a de despir o seu longo vestido prateado, portanto, exibindo-se, completamente, desnua para a prisioneira. Sua pele era clara e macia e tão fria ao toque quanto o seu coração. Ela era linda, uma bela dama sem sombra de dúvida. E de misericórdia.
— Você está nua — exclamou Sara, um tanto incrédula. — Nua! — tornou a dizer. — Por que, em nome de Bob Dylan, você está nua?
— Porque é o meu desejo — a outra, com simplicidade, respondeu. — Um desejo da Belle Dame há de ser realizado independente da sua natureza.
— Mesmo assim! Nua! — disse Sara. — Vulnerável! Você não tem medo que eu, sei lá, enforque-a com os lençóis? Porque eu poderia fazer isso, sabia? Hum?
Belle Dame manifestou uma gargalhada cujo som era tão apreciável quanto à de uma sinfonia ensaiada por uma impecável orquestra sinfônica. Seu único defeito, Sara pensou, era ser uma criatura horrenda em seu interior.
— Você? Uma humana? Por favor! — riu Belle Dame. — Você, para mim, é insignificante. Um peixe-lucifágo hipnotizado pela claridade irradiada pela minha estrela.
Tal comentário rendeu um sorriso zombeteiro da parte de Sara.
— Exceto que não há mais nenhuma estrela — ela retrucou. — Por culpa de vocês, se bem me lembro.
O rosto da bela dama, por um sucinto instante, metamorfoseou-se em uma máscara de ódio puro e violento, ela saltou a distância existente entre a sua cama e Sara, fechou sua mão esquerda no pescoço da humana, machucando-a ao cravar as pontas das suas unhas longas e vermelhas, levantou o corpo inteiro daquele ser inferior a alguns centímetros do chão e quase se deixou levar pelo seu desejo de dilacerá-la ali mesmo. E isso somente intensificou a sua fúria: uma humana fizera-a negar o seu próprio desejo. Oh, ela também pagaria por isso!
— O que foi? — perguntou Sara, em tom de desafio. — Está com medo que eu suje você com o meu sangue? Ou... — ela desenhou um sorriso no seu rosto. — Com medo do que o Arquiteto pode fazer?
Uma dose forte de autocontrole foi necessária à Belle Dame para resistir ao instinto de quebrar o pescoço de Sara naquele momento, largou o pescoço da humana e, em seguida, retornou ao conforto da sua cama. O Arquiteto. O Arquiteto era aquele detentor da dívida maior com ela e ele pagaria, oh, sim!
— Você, sinceramente, acredita que ele virá resgatá-la? — Belle Dame, agora em tom ameno, indagou.
— Sim — respondeu Sara, demonstrando uma fé inabalável em sua voz. — Ele me tirará daqui e você... Ah, você terá muitas explicações para dar.
A bela dama tornou a rir.
— Um exército inteiro está à espera do seu tão querido Arquiteto — disse. — Se ele sequer sonhar em pisar no meu castelo, enfrentará a bestialidade dos meus terríveis serviçais — ela inspirou, profundamente, ao sentir uma pontada de medo florescendo no interior de Sara. — O seu destino, Sara-Sem-H, jaz aqui — Belle Dame estendeu a sua mão aberta.
E outra risada ecoou no aposento, dessa vez uma risada fabricada pela humana.
— Como é que você, que já foi humilhada por ele, consegue dizer uma coisa dessas, hein? — Sara perguntou. — Afinal, você já esteve com o Arquiteto, você olhou nos olhos dele e, ainda assim, acredita que tem a menor chance de impedi-lo de me tirar daqui? Oh, por favor! — ela exclamou. — Ele é diferente de mim, de você e de qualquer outro, ele é como uma força primordial da natureza: imparável, imprevisível, “incontível” (eu não sei se isso é mesmo uma palavra, mas, enfim, que seja), ele é...
Um forte e breve tremor interrompeu o solilóquio de Sara-Sem-H.
— Ele é o maior dos seus problemas nesse momento, Belle Dame Sans Merci.
Uma continuação, ou algo parecido, de A face do diabo.
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