quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A face do diabo


A criatura estava, gravemente, ferida. Sua vida poderia acabar a qualquer instante. Ela sofria uma dor excruciante, tamanho sofrimento fazia com que desejasse morrer, pôr um fim aquele miserável estado no qual estava, entretanto isto somente viria a acontecer quando ele, o diabo, se satisfizesse. E quando isto ocorreria? Talvez dali a um segundo, ou minuto, ou, quem sabe, um século. O tempo era uma película de vidro perante aquele ser malévolo.

O diabo, para aquele dolem, possuía a aparência de um homem cuja idade estava em algum ponto entre os vinte e duzentos anos; trajava-se com um estilo vitoriano, os seus cabelos castanho-escuros estavam, consideravelmente, desarrumados, tinha uma ínfima rachadura na lente direita dos seus óculos e, ao redor da sua figura esguia, nada havia além de destruição. E morte. Se pudesse, o dolem choraria um oceano pelo triste destino dos seus irmãos e da Mansão de Yullam que, ao seu mestre, juraram proteger — o diabo reduzira tudo ao pó.

O homem abaixou-se, nivelando o seu olhar com a criatura de argila e sangue que era o dolem, o encarou como uma criança, inocentemente, cruel quando diante de uma formiga disposta a mercê da sua lupa em um dia ensolarado, ele não hesitaria nem um segundo sequer em ceifar a existência do dolem e, caso este não cooperasse, o faria de uma maneira, suficientemente, horrenda para enlouquecer até mesmo a mais sã das criaturas do Universo. E o dolem sabia disso.

— Imagine que você está morrendo — o diabo, em uma voz doce e delicada, disse. — Imagine que você está com medo e muito longe de casa e sofrendo uma dor terrível — continuou a falar. — E, justamente, quando você acreditou que não era possível piorar, você olhou para cima e vislumbrou a face do próprio diabo.

O dolem, com dificuldade, respondeu: “Eu não preciso imaginar”. E o diabo sorriu um sorriso macabro.

— Eu sei — ele disse. — Agora, diga-me: onde está Sara-Sem-H, a Dama Triste das Terras Baixas?

Na... Torre... Nos... Jardins... Do... Delírio...

— Ótimo.

O diabo deu as costas para o dolem.

E-espere! — a criatura, enfraquecida, gritou.

— Sim?

Minha... Morte... — o dolem pediu.

— Oh, sim, a morte. Sua morte, para ser mais exato — o diabo disse. — Então, uh, você nunca morrerá.

Se possível, o ser de argila e sangue teria desenhado uma expressão de surpresa no seu rosto.

— E você também nunca voltará ao normal — ele acrescentou. — Veja bem, este é o meu castigo para você pelo crime cometido pela sua espécie, pequeno dolem — aproximou-se da criatura, quase tocando a sua superfície laranja-avermelhada com o rosto. — Você viverá com essa dor pela eternidade e, bem, como é muito improvável que alguém invente de descer até aqui, nas profundezas da Cidade, você terá de aguentá-la sozinho — o diabo tornou a dar as costas para o serviçal do finado Alquimista. — Aproveite a sua eternidade.

E, ao proferir esta última frase, o Arquiteto retirou-se da Mansão de Yullam para nunca mais retornar.


Um conto posterior à Arquitetura: uma introdução e anterior à Arquitetura II, um epílogo a um livro ainda por ser escrito.

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