
Era o dia ensolarado do seu décimo oitavo aniversário, o momento fatídico no qual ela, oficialmente, se tornara uma mulher adulta, ou, no mínimo, uma garota adulta. Recebeu uma infinidade de presentes, entretanto nenhum proporcionou a ela tanta felicidade quanto aquele lhe dado pelo locutor de rádio que, mais cedo, disse o seu nome enquanto lia o listão dos aprovados nesse Vestibular mais recente — ela vencera a batalha!
E qual a melhor maneira de comemorar tamanho sucesso senão reunindo-se com parentes e amigos? Sua mãe incumbiu-se de ligar para todos e, então, convidá-los para desfrutar dos comes e bebes no casarão que, anos atrás, havia sido a residência do falecido Oscar de Béthune. Várias canções de artistas famosos foram postas para tocar no aparelho de rádio, garrafas de vinho, champanhe, vodca, uísque e refrigerante foram abertas, o bolo foi devorado em cinco minutos e os únicos resquícios da lasanha consistiram de alguns pedaços de presunto que um dos primos da garota recusou-se a comer. Era um dia de felicidade, ainda que uma felicidade incompleta.
Em intervalos irregulares, a garota excluía-se da comemoração para subir ao segundo andar do seu lar, percorrer o corredor que ligava a escada aos quartos e a uma porta vestigial da época anterior à separação da mansão em dois casarões, tal porta dava para uma sólida parede de tijolos alaranjados, configurando-a, desse modo, como uma porta para lugar nenhum. Vale salientar que “lugar nenhum” é diferente de “nenhum lugar”, uma diferença que a garota conhecera, minuciosamente, há dois anos.
Ela tocou um dos tijolos com delicadeza e inspirou profundamente, recordando-se daquele encontro fatídico em uma noite tempestuosa na qual sua mãe tivera de sair correndo para socorrer sua tia, a qual estava se sentindo muito mal da sua cardiopatia e Bob Dylan cantava no seu player sobre uma mulher denominada Sara que, sem saber, emprestou o seu nome à garota, contudo ninguém mais se referia a ela como Sara-Sem-H, agora o único nome associado ao seu ser era o nome escolhido pelos seus pais em homenagem a sua avó paterna, uma mulher de garra.
O último convidado retirou-se do casarão por volta da meia-noite; a garota assistiu sua mãe na limpeza do lugar, depois tomou um banho demorado e reforçado para retirar toda a sujeira acumulada no seu corpo em virtude do seu sucesso, penteou os cabelos com prazer, vestiu o seu pijama e desceu para o quintal a fim de executar a sua última tarefa do dia, isto é, alimentar o pequenino Schnauzer preto que adotara há quatro meses.
Ela, na cozinha, enquanto abria um pacote de ração para raças pequenas, escutou um barulho suspeito vindo do quintal, o que seria suficiente para intimidar qualquer garota da sua idade exceto ela — um ladrão era um male mínimo comparado aquilo já enfrentado por ela no passado. A garota apanhou uma vassoura e, então, abriu, corajosamente, a porta que dava para o quintal, surpreendendo-se.
O Arquiteto permanecia inalterado em sua aparência, congelado pelo tempo, seus cabelos, ligeiramente, ondulados estavam penteados para o lado da esquerda para a direita, vestia um terno preto alinhado ao seu corpo e uma camisa social-azul clara, juntamente, a um par de tênis Converse sujos de lama que, certamente, tinham sua origem em algum lugar distante. Ao vê-lo, a garota largou a vassoura e o abraçou com muitíssimo afeto cujo teor era, puramente, fraterno — a excêntrica criatura que atendia pelo epíteto de “o Arquiteto” era o seu melhor amigo em todo o mundo. Ou melhor, em todos os mundos.
— Uh, olá — ele, um tanto nervoso, disse. — Meus parabéns.
— Muito obrigada — a garota, sorridente, agradeceu. — Está com fome? — ela indicou a cozinha.
— Na verdade, não — o Arquiteto engoliu em seco. — Eu estou com um pouco de pressa, entende?
Ela entendia perfeitamente: seu melhor amigo estava encrencado, muito provavelmente, devido a sua curiosidade e sede por conhecimento e aventura. “Corra!” era a sua frase mais dita.
— Desculpe-me pela, ahn, maneira como tudo acabou...
A garota ergueu um dedo indicador para silenciá-lo.
— Eu entendo — ela disse. — De verdade, eu entendo.
— Bom.
Um abismo de silêncio formou-se entre eles.
— Então, uh, bem, eu preciso ir indo — o Arquiteto disse. — Há um culto inteiro de lunáticos atrás de mim e, ah, eu sinto que não seria muito educado deixá-los bagunçar a sua casa — ele deu um beijo na testa dela. — Bem, está na minha hora — virou-se, dando as costas para ela.
— Você, realmente, não me perguntará?
O Arquiteto girou nos calcanhares.
— Perguntar o quê?
— Em que curso eu fui aprovada.
— Ah, sim, mil desculpas! — acertou uma palmada na sua própria testa. — Bem, em qual curso você foi aprovada?
Ela sorriu.
— Arquitetura.
Uma continuação à continuação ainda por ser escrita do conto Arquitetura: uma introdução.
Sad-eyed Lady of the Lowlands...
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