quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O Conto das Cabeças



O inspetor retornou de seus sonhos ao escutar uns ruídos vindos do andar debaixo. Ele se colocou de pé, vestiu o robe por cima do pijama, calçou seus chinelos e disse à esposa para continuar na cama, uma vez que ele não tardaria a voltar.

Mal-humorado e ainda não inteiramente acordado, o proprietário daquele lar desceu a escadaria em formato de caracol com passos pesados, se sentia como um piano desajeitado em duas pernas, não gritou para que o seu inconveniente visitante — ou seriam visitantes? — parasse de bater à porta por consideração aos vizinhos: de modo algum ele queria acordá-los e ter de lidar com reclamações mais tarde. Era um sujeito que, simplesmente, detestava incomodar os outros.

O inspetor abriu a porta, então se deparando com um condestável que, dada sua aparência, não deveria estar nem há um ano servindo a Lei.

O rapaz cumprimentou-o com uma saudação respeitosa.

— Perdão, Sr. Inspetor, por incomodá-lo tão tarde.

— O que o traz aqui tão tarde, condestável? — o inspetor, encostado no portal, quis saber. — O que poderia ser tão urgente a ponto de não poder esperar até amanhã?

O condestável engoliu em seco.

— Nós encontramos mais um, Sr. Inspetor.

Os olhos do sexagenário esbugalharam-se no mesmo instante.

— Entre e espere no sofá, condestável. Eu estarei pronto em um minuto — olhou por cima do ombro do rapaz, fitando um gondoleiro solitário. — Sr. Gondoleiro! Há dois clientes aqui para o senhor, espere-nos aí, por favor! — e o gondoleiro ficou a esperar.

O inspetor retornou ao seu quarto, rascunhou, apressadamente, um bilhete para sua esposa, trocou o pijama e o robe pelos seus trajes de trabalho, colocou o chapéu de março — ele, um sujeito, particularmente, metódico, tinha um chapéu para cada mês — e então abandonou o seu lar na companhia do condestável, o qual se incumbiu de dizer ao gondoleiro para onde deveria levá-los: Rua Lutwidge, número 65.

— Se me permite a ousadia, Sr. Policial, posso perguntar o que aconteceu de tão urgente? — o gondoleiro indagou.

— Não, não permito, Sr. Gondoleiro, cuide do seu ofício enquanto que do meu, cuido eu.

O inspetor pagou ao gondoleiro pelo seu serviço e desembarcou juntamente com o condestável no início da Rua Lutwidge de modo que ainda teria de percorrer um trajeto de oito residências antes de, finalmente, alcançar aquela na qual havia ocorrido a tragédia. Com intuito de não desperdiçar um instante qualquer, o inspetor ordenou ao condestável que o pusesse a par da ocorrência.

— Eu estava parado em meu posto no início da Rua Lidell como de costume, Sr. Inspetor, quando, de repente, deparei-me com uma mulher que, aos gritos, corria em minha direção, abordei-a e fiz o possível para acalmá-la, então pedi para que me contasse qual a razão de tamanho desespero. Essa mulher, Sr. Inspetor, é — ou melhor, era — a empregada da vítima, vivia com ele em um quarto do primeiro andar e o conhecia desde muito pequenino. Disse ter se recolhido parar dormir no horário de sempre, acordando no meio da madrugada para ir a cozinha beber um copo d’água e tomar o seu remédio, ao acender a luz, porém, descobriu o corpo decapitado de seu empregador no chão da cozinha! Alertei, imediatamente, a seccional, anotei o endereço da residência e deixei a empregada aos cuidados de meu parceiro antes de partir para o local e encontrar o corpo decapitado.

— Suponho que, por você ter ido me convocar, os agentes da seccional já estejam no local do crime.

— Correto, Sr. Inspetor.

— Descreva-me, meu caro condestável, o estado do corpo ao encontrá-lo. Peço-lhe que tenha a bondade de não poupar nem mesmo aquele que considerar como sendo o mais insignificante dos detalhes.

— Descreverei com a maior riqueza de detalhes possível, Sr. Inspetor. Então, ah... Por onde eu devo começar?

— Em meus anos de experiência, caro condestável, eu determinei que a melhor maneira de iniciar a descrição de uma cena de crime é pela localização do corpo.

— O corpo estava na cozinha, eu já informei isso ao senhor.

— Detalhes, caro condestável, detalhes! Deus está nos detalhes e a solução desse ato de brutalidade também.

— O corpo, como já disse, estava na cozinha, jazia no espaço existente entre o balcão e a mesinha de refeições em posição diagonal, tinha sua mão direita em cima da barriga e a esquerda tocando o chão, ele possuía os joelhos ligeiramente dobrados, o sangue proveniente da sua decapitação jorrou por todo o recinto, manchando até mesmo os armários mais altos e, e, e... E o que mais? Ah, sim... E a cabeça...

O inspetor, sem aviso, parou de andar.

— Sr. Inspetor?

— Condestável — falou o inspetor, concentrado em esconder o seu espanto. — O que tem a cabeça da vítima?

— Está caída em cima de balcão. O sangue escorreu até o chão.

— Condestável...!

— Sr. Inspetor, o que aconteceu? Por que o senhor está tão pálido?

O inspetor empunhou o seu revólver.

— Apresse-se, condestável, apresse-se! Nós não temos muito tempo!

— Sr. Inspetor, por favor, diga-me o que está acontecendo! — pediu o oficial com o cassetete, sua única arma, em mão.

— Nós NUNCA encontramos as cabeças das vítimas na cena do crime! De acordo com o nosso traçador de perfis, o Caçador de Cabeças tem-nas como troféus, então se a cabeça do residente ainda está lá...

—... Então o Caçador de Cabeças também está!

Uma tragédia.

Uma verdadeira tragédia.

Os corpos dos cinco agentes da seccional — um deles, conhecido do inspetor — foram encontrados decapitados na residência, o sangue cobria o assoalho da sala de estar como um fino carpete carmesim sobre o qual o Caçador de Cabeças, indubitavelmente, havia pisado, sujando os seus calçados de vermelho e assim deixando impressões dos seus pés pelo chão, demarcando o caminho por ele percorrido.

O inspetor e o condestável, cautelosos, seguiram as pegadas, estranhamente, diminutas daquele ferino assassino, indo da sala de estar para a escadaria que dava para o segundo andar, percorrendo um corredor estreito até sua última porta, a qual, em virtude do estado de sua fechadura, havia sido claramente arrombada naquela noite.

Devagar, o inspetor empurrou um pouquinho à porta, produzindo uma fresta por onde ele espiou o interior do quarto escuro, não descobrindo nada além das silhuetas do que pareciam ser brinquedos de criança — teria o Caçador de Cabeças já ter escapado? O inspetor gesticulou um aviso para o outro oficial, alertando-o que adentrariam naquele cômodo em um, dois, três e...!

O sopro dos anemoi vinha para o interior do aposento vazio graças a uma janela aberta. O inspetor soltou um palavrão, acertou um soco na parede, sentou-se à cama impecavelmente arrumada e abaixou a cabeça, frustrado — outra vez havia sido vencido pelo infame Caçador de Cabeças.

O condestável parou diante de uma estante repleta de bichos de pelúcia que, como evidenciado pelas suas etiquetas, pertenciam a uma coleção fabricada pela notável Companhia Phantomhive de Brinquedos. Desde o nascimento da sua filha, o modesto oficial da Lei havia se empenhado em adquirir a coleção completa para ela, por sua vez, tendo pleno conhecimento de quais bichos constituíam-na.

— Está faltando o coelho branco — o condestável, em voz alta, pensou.

— Perdão?

Ele apontou para a estante.

— Rato, dodô, águia, pato, lagarto, minhoca, gato, lebre e tartaruga. Está faltando apenas o coelho para completar a coleção. Hum... Mas que estranho!

— Por que é estranho?

— Porque o coelho é, normalmente, o primeiro a ser adquirido. Coelhos são, ah, bonitinhos, senhor.

— Sim, caro condestável, eu estou ciente do fato. Por acaso, eu tenho três filhas.

— Três filhas, senhor? Uau!

— Lorina, Alice e Edith, as três são mulheres respeitáveis e devidamente casadas.

— O senhor deve estar muito satisfeito!

— Sim, eu estou. E o seu coelho perdido, caro condestável, está bem ali naquele canto.

— Por Deus, Sr. Inspetor! — o condestável, impressionado, exclamou. — Como o senhor pôde encontrá-lo no meio dessa bagunça toda?

— Quarenta anos de experiência, caro condestável. Os meus olhos já estão mais do que acostumados a enxergar aquilo que os outros, dificilmente, enxergam.

O condestável inclinou-se para pegar o coelho branco e retorná-lo ao seu devido lugar na estante...

Um vulto veloz precipitou-se debaixo da cama, surpreendendo aos dois homens da lei ali presentes. Com uma rapidez animalesca, o vulto, armado com uma adaga de lâmina ensanguentada, avançou contra o condestável, tangenciando o seu aço frio com o calor do pescoço dele, cortando, brutal e bestialmente, os seus tecidos e deixando o coelho antes branco, agora vermelho ir ao chão ao mesmo tempo em que sua cabeça se desprendia do corpo e caía.

O inspetor tentou reagir contra aquele assassino perigoso de estatura e silhueta que contradiziam a crueldade dos seus atos e as suas habilidades físicas. Ele apontou o revólver e o engatilhou, entretanto desmaiou ao ser acertado no nariz pelo cabo da adaga antes de ter a oportunidade de apertar o gatilho, só acordando dali a mais ou menos duas horas — amordaçado e, firmemente, amarrado a uma cadeira, o inspetor assombrou-se ao descobrir a identidade do temido Caçador de Cabeças.

Ela não deveria ter nem chegado aos dezessete anos ainda, tinha cabelos loiro-escuros encaracolados e olhos, intensamente, esverdeados, sua fisionomia era magra a exceção do quadril e do busto, havia sujeira — lama, talvez — em suas pernas, sua única peça de roupa era um casaco vermelho-escuro muito remendado e carente de dois botões, ao seu lado esquerdo jazia o corpo desfalecido do condestável, a sua direita repousava a adaga usada para roubar a vida daquele pobre homem e em frente àquela criança do infortúnio havia um baralho em cujo qual ela havia focado toda sua concentração, de modo que não teria notado tão cedo o despertar do inspetor caso o sopro de Apeliotes não houvesse afastado uma carta, a Rainha de Copas, do baralho, obrigando a Caçadora de Cabeças a virar-se para recuperá-la e, consequentemente, encontrar o olhar atônito do sexagenário capturado.

— Aleluia! — ela, alegremente, disse. — O vovô acordou!

Levantou-se em um salto e ficou frente a frente com o velho inspetor.

— Vovô! O vovô não tem ideia de como eu estava entediada nesses últimos dias! Ah! Muito tédio! Eu estava contando os dias para encontrar alguém para brincar comigo! Quer brincar comigo, vovô? Quer, quer, quer, quer?

Houve um murmuro ininteligível em resposta.

— O que o vovô está dizendo? Eu não estou entendendo nada! Ah, mas como eu sou burra! O vovô está amordaçado! Como é que o vovô falará se está amordaçado! Ai, ai, ai! — puxou os próprios cabelos com força. — Menina burra, menina burra!

Ela se agachou um pouco, nivelando o seu olhar com o do pai de Lorina, Alice e Edith.

— Vovô, eu vou tirar a sua mordaça, mas se o vovô gritar, eu vou cortar a cabeça do vovô como fiz com o amigo do vovô, está bem, está bem?

Ele fez que sim com a cabeça.

— Ótimo! — retirou a mordaça. O inspetor nada disse. — Olhe só, o vovô ficou calado! Puxa, vovô, o vovô é muito diferente daqueles outros cabeças-de-ovo! O vovô é legal! O vovô não é como o meu antigo vovô!

Ela foi até a estante, pegou os bichos de pelúcia e começou a arrumá-los ao lado do inspetor, formando um semicírculo e, desse modo, posicionando, devidamente, a plateia para escutar a sua história.

— O meu antigo vovô, ah! O antigo vovô era muito, muito, muito malvado! O antigo vovô não era só meu vovô, sabia? O antigo vovô era vovô de mais outras meninas e outros meninos! Harry, Charlotte, Arthur, eu, Mary, Caroline, Edward, Constance, Francis e Charles. É, é, é. Lottie, que era o apelido da Charlotte, me disse que o antigo vovô tinha encontrado todos nós na rua e que por isso nós éramos propriedade dele, daí a tatuagem nos nossos rostos! O meu antigo vovô nos dava de comer, nos dava banho na banheira, nos dava as melhores roupas e escolhia um de nós para brincar com ele à noite, mas eu nunca gostei das brincadeiras do meu antigo vovô, nunca, nunca, nunca! Aquelas brincadeiras doíam... Eu sempre chorava. Lottie dizia para eu parar de ser chorona, porque só eu chorava, nem os mais pequeninos choravam, eu tentava não chorar, mas nunca conseguia. Não! Eu consegui ficar sem chorar uma vez! O meu antigo vovô ficou tão feliz que me deu um livro de presente... Qual era mesmo o nome do livro...? Ah, ah, ah, ah, eu não me lembro! Mas eu adorava aquele livro! Lottie lia para mim todo dia depois do almoço! E quando a Lottie leu a parte da Rainha de Copas, a Rainha de Copas me ensinou uma brincadeira legal: “Fora com sua cabeça!”. Eu cortei as cabeças de todos.

O sorriso inocente e insano estampado no rosto daquela criança do infortúnio contrastava diretamente com os traços de abominação no rosto do inspetor e as lágrimas que corriam por este.

— Por que o vovô está fazendo essa careta?

— Porque as amarras estão muito apertadas, querida. Dói.

— É por isso que o vovô está chorando também?

— Sim, minha querida. Dói tanto que eu começo a chorar que nem você.

— Ah, vovô, desculpe, desculpe! Eu vou soltar o vovô, mas o vovô não pode correr, está bem? Senão... — tornou a indicar a adaga.

— Eu não vou correr, minha querida, não se preocupe.

— Está bem, então! — ela, sorridente, retrucou. — Prontinho! Está feliz, vovô?

— Obrigado, minha querida. Sim, eu estou muito feliz.

— Do que quer brincar? De boneca, de chá, de casinha, de quê?

— De chá está bom.

— Tome! Uma xícara do meu melhor chá!

— Hum! Esse deve ser o melhor chá que eu já bebi na vida!

— É verdade, vovô?

— É verdade, minha querida.

— Obrigada, vovô! — ela o abraçou. — O vovô é o melhor!

— Olhe, minha querida, você esqueceu um bichinho de pelúcia: o coelho. Não quer ir buscá-lo?

— Oh, mas como eu sou uma menina burra, vovô! Oh, o coelho deve estar triste! Será que o coelho irá me perdoar?

— Traga-o para cá e vamos conversar.

— Sim, sim, sim!

O inspetor havia localizado o seu revólver tão logo despertou.

Ela pegou o coelho.

Ela sentiu a frialdade do aço em sua nuca.

Ela poderia ter escapado, ela poderia ter cortado a cabeça dele.

Ela sorriu inocente e aceitou, serenamente, aquilo estipulado pelo destino.

E o coelho branco manchado de sangue se transformou em um coelho vermelho.

— Eu sinto muito, minha querida — disse o inspetor, abaladíssimo. — Não havia outro modo de salvá-la.

O inspetor apontou o revólver para a própria cabeça. Engatilhou-o.

Nenhum comentário:

Postar um comentário