
Era uma tarde quente de julho, Amanda queria ir ao parque de diversões para andar na montanha-russa, na roda-gigante, no carrinho de bate-bate, etc, etc, e eu, simplesmente, queria ficar em casa, assistindo a um filmezinho qualquer e, é claro, comendo pipoca. O valor dos ingressos quadruplicou desde a minha última visita ao parque, minha carteira, coitadinha, derramou uma lágrima. Amanda me guiou até os seus brinquedos preferidos, eu gritei como uma menininha de dez anos quando o carrinho da montanha-russa deu início ao seu trajeto, só faltei ter um enfarto do miocárdio quando houve uma queda de energia e nós ficamos presos no alto da roda gigante durante meia-hora e tive de me contentar em ficar no banco do passageiro quando, finalmente, nós fomos ao carrinho de bate-bate — o meu brinquedo preferido.
Não muito depois, Amanda sentiu um intenso desejo por algodão doce, eu comprei a guloseima para ela e me coloquei a esperá-la terminar de comer — por ser diabético, eu mantenho distância de qualquer coisa doce, incluindo c... Okay, seria muito errado completar esta frase —, nós estávamos sentados num banco diante de um galpão decorado com um letreiro enorme, porém velhíssimo onde lia-se “A CASA DOS ESPELHOS” em letras garrafais. Eu, que estava, completamente, exaurido, comentei por alto como poderia ser divertido dar uma olhadela naquele lugar, Amanda, muito perceptiva, compreendeu a minha indireta e, quando terminou o seu algodão doce, entrelaçou os seus dedos nos meus e, então, me puxou para o galpão.
Ninguém estava supervisionando a tal da Casa dos Espelhos, ao invés disso, havia um pedaço de cartolina marrom grudado em uma parede, anunciando que a entrada era franca e salientando que o parque não se responsabilizaria por nenhum objeto, ou pessoa, perdida no interior do recinto. “Será divertido”, eu, um tanto ingênuo, disse.
— Se você diz... — Amanda me respondeu.
Nós atravessamos o portal para dentro do galpão, então, seguimos por um corredor escuro e estreito que dava para uma sala abarrotada de espelhos de todos os tamanhos e formas, cada um distorcendo a nossa imagem de uma maneira diferente, aumentando-nos, diminuindo-os, torcendo-nos, colorindo-nos e até mesmo roubando os tons rosados da nossa pele: era uma experiência divertida, fascinante e — eu admito — um pouco assustadora.
— Okay, isso é muito errado — eu, perante uma imagem minha dotada de um corpo escultural, disse. — Sinto como se eu estivesse olhando para o Espelho de Osedej. Ou Erised, se você leu Harry Potter em inglês — calei-me, aguardando por um comentário da parte de Amanda, contudo ela não se manifestou, olhei ao redor e, para minha surpresa, não havia qualquer sinal dela. — Amor? Amor? Amor? Amanda? — chamei e ninguém me respondeu. — Onde é que ela foi parar?
Eu comecei a perambular pelo galão, ignorando as distorções que ocorriam a minha imagem, passei por uma miríade de espelhos, entretanto falhei em encontrar tanto a minha namorada quanto a saída daquele lugar que, naquele momento, parecia ser, terrivelmente, assustador e intimidante, como se fosse uma entidade viva cujo principal método de entretenimento era observar-me andando às cegas pelas suas entranhas.
Não demorou muito para eu perder a noção do tempo, continuei a me movimentar, agarrando-me a um fiozinho tênue de esperança de que tudo aquilo era um sonho maluco, simples assim. Eventualmente, o meu corpo cedeu ao cansaço, obrigando-me a parar de andar para descansar um pouco, recostei-me a uma parede nua e fria, fechei os olhos para descansar a vista, adormeci e despertei no segundo posterior, então, me deparando com a primeira presença humana que eu via há... Segundos? Minutos? Horas? Dias? Meses? Anos? Séculos? Milênios? Honestamente? Eu não sei. O que eu sei é que o rosto daquela velha senhora de cabelos grisalhos me era, vagamente, familiar e, por alguma razão até então ininteligível, a sua presença conseguia fazer com quem desabrochasse em mim um profundo sentimento de conforto. Eu me sentia seguro.
Ela tocou, gentilmente, o meu rosto.
— Você é lindo — disse. — Tão lindo quanto no dia em que eu o conheci — ela forçou um sorriso no seu rosto marcado pela longa vida. — Olhe para mim — ela pediu. — Sorria para mim — e eu sorri. — Obrigada.
Ela recuou a sua mão e, nesse momento, eu notei como a sua roupa consistia de um emaranhado de retalhos.
— O seu amor está naquela direção — ela disse. — Encontre-a e saia daqui e nunca duvide nem por um segundo que ela o ama com toda a intensidade do seu coração — ela se inclinou na minha direção e encostou os seus lábios secos e quebradiços na minha testa. — Eu queria ter envelhecido com você, meu amor — e, então, ela desapareceu no labirinto de espelhos.
Eu me levantei e, silenciosamente, rumei na direção indicada, encontrando Amanda logo depois, ela estava parada diante de um espelho que alongava o seu corpo e sorria um sorriso capaz de reacender o fogo de uma constelação moribunda — eu a abracei por trás e sussurrei para nós sairmos dali, ela virou-se para mim, beijou os meus lábios e, então, acatou o pedido do meu sussurro.
— O que aconteceu? — ela indagou. — Você está me olhando como se não me visse há séculos!
— Como se eu não a visse há uma eternidade — eu corrigi. — Eu te amo.
— Eu também te amo, amor — ela disse. — Muito — acrescentou.
Eu a beijei.
— O que aconteceu? — Amanda tornou a indagar. — Oh, amor, me conta! — ela pediu.
E eu, assim como o esperado, cedi ao seu pedido.
— Um sonho maluco, ou melhor, um pesadelo maluco — contei. — Eu sonhei que você envelhecia sem mim, tinha uma vida inteira sem eu ao seu lado.
— Credo, amor, que sonho ruim!
— Bem, amor, é por isso que é um pesadelo.
— E como terminou o sonho?
— Comigo encontrando o caminho de volta para você — eu respondi. — De um jeito, ou de outro, eu sempre encontrarei o caminho que me levará de volta para você.
Ela sorriu e me beijou e, então, comentou estar com vontade de assistir a um filme, uma comédia romântica, de preferência. Eu concordei e nós fomos para casa. E tudo estava bem no mundo outra vez.
Nenhum comentário:
Postar um comentário