sábado, 7 de janeiro de 2012

Uma dose de nostalgia



Hoje é um dia especial para um primo distante, Gilberto, e sua namorada, Roberta. Ou é o que mamãe diz. Pessoalmente, eu vejo o dia de hoje como sendo especial para Roberta e sua mãe, uma mulher que, dada a quantidade absurda de Botox na sua face, deve ter assaltado um consultório de cirurgia plástica em algum momento nesses últimos três meses: Roberta está exuberante com o seu vestido branco e sua mãe está com um sorriso de orelha a orelha, isto é, o equivalente metafórico a um sorriso de orelha a orelha, pois, veja bem, tanto Botox impede-a de demonstrar tamanha expressão de felicidade. Ou qualquer expressão, para falar a verdade.

Em contrapartida a toda esta felicidade, há o Gilberto. Nos meus vinte e um (quase vinte e dois) anos de vida, eu nunca tive a oportunidade de observar uma criatura exibindo traços macambúzios tão intensos, algo que, somado ao fato de este meu primo distante está trajado, inteiramente, de preto, poderia enganar um transeunte qualquer que estivesse passando pela igreja e, por curiosidade, ou em um gesto distraído, lançasse um olhar para o interior da construção byroniana, fazendo-o acreditar que Gilberto estivesse atendendo a um funeral ao invés do seu próprio casamento. Oh, bem, é culpa dele por pintado de branco o útero da Roberta, embora sem a intenção. (Isso me lembra de que eu preciso, urgentemente, parar na farmácia).

O padre sela o destino do meu primo distante e da sua companheira, uma multidão de arroz é atirado em cima dos recém-casados — o que, em minha humilde opinião, configura um estrago terrível de comida — e nós entramos nos nossos carros, dirigindo-nos, então, para o local onde será efetuada a recepção: um casarão na orla da cidade em cujo centro jaz um jardim muito florido onde há uma enorme mangueira, isto é, uma enorme árvore anacardiácea denominada mangueira.

Eu tive a minha atenção capturada pela mangueira tão logo pisei no jardim, encaminhei-me ao seu encontro, ocupando uma mesa disposta perante esta, ajeitei-me no assento e, então, pus-me a admirar aquela criação da natureza que irradia uma onda de nostalgia, contagiando cada singela célula do meu corpo. Uau!, mas como isso foi poético! Eu deveria escrever um livro... Oh, bem, talvez algum dia.

De qualquer modo, o efeito da árvore em mim é verdadeiro, vislumbrá-la estimula a minha memória, me fazendo recordar dos dias ensolarados da minha infância, os fins-de-semana na casa dos meus avós paternos onde havia também uma enorme mangueira, exceto que situada no quintal dos fundos da residência. Por muito tempo, aquela árvore foi o cerne das minhas brincadeiras com os meus primos e os nossos amigos que viviam naquela rua, às vezes, era uma nave interestelar na qual nós — armados até os dentes — viajávamos por uma miríade de mundos desconhecidos, enfrentando perigos inimagináveis.

Outras vezes, a árvore se transmutava em um transatlântico fadado ao náufrago, dando-nos nenhuma escolha senão vasculhar a embarcação na esperança de encontrar um meio de sobreviver àquele trágico destino. Uma instalação no Ártico, uma estação espacial, uma caverna sombria, uma montanha altíssima, um casarão de bonecas (oh, bem, houve uma ocasião em que nós tivemos de brincar com a minha irmãzinha) e a lista continua por linhas e linhas, talvez nenhum outro integrante do Reino Plantae tenha tido a sua natureza tão modificada pela imaginação de crianças quanto aquela mangueira.

Até hoje eu me lembro do dia no qual ela teve de ser derrubada: aconteceu uma semana depois de o vovô ter morrido, vovó estava triste e ter aquela árvore no quintal apenas servia para aumentar tal sentimento. Eu presenciei cada singela machadada empregada para cortar o seu tronco, vi os seus galhos caírem e os seus restos serem levados para uma localização que permanecerá, eternamente, desconhecida por mim e pelos meus primos.

Primos que, na época, eram os mais próximos de mim e que, agora, juntam-se a Gilberto no grupo dos parentes mais distantes com os quais eu não tenho muito contato. Ou qualquer contato. De fato, esta é a primeira vez em sete anos em que eu e Iago nos encontramos no mesmo recinto: ele, aos seus vinte e dois anos, está bem diferente do adolescente bêbado de quinze anos que eu olhei de relance em uma festa enquanto eu esperava pela minha vez de usar o banheiro — a fila estava quilométrica!

Uma mão feminina, repentinamente, é pousada sobre a minha própria. Meu sistema nervoso reconhece o toque suave no mesmo instante, eu desvio o meu olhar da mangueira, deparando-me com o rosto delicado da minha namorada.

— A sua árvore dava uma espaçonave melhor — ela, gentilmente, diz.

E é por isso que eu a amo. Ela nunca viu a minha árvore, somente escutou as minhas histórias e, ainda assim, ela sabe, exatamente, o que dizer nesse momento. Eu a beijo e, silenciosamente, prometo estar com um rosto sorridente no dia do nosso casamento daqui a muitos e muitos anos. Ou apenas muitos anos.

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