quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Debaixo da cama


Para cada pergunta há de haver uma resposta, assim sendo, este breve relato é a minha resposta para uma pergunta que muitos têm me feito durante grande parte da minha vida. Eu deveria ter cinco, talvez seis e, no máximo, sete anos quando tal coisa aconteceu; do mês, eu me lembro: era setembro, um setembro nublado e enregelante que pintava a cidade com um tom cinzento melancólico e indolente, a gripe invadia cada singela residência e a minha não era exceção — adoeci logo no primeiro fim-de-semana do mês. Que azar!

Portanto, minha vida consistia, essencialmente, em ficar deitado, todo agasalhado, no sofá no decorrer do dia, ali eu assistia televisão e fazia as minhas refeições, e, ao anoitecer, em ficar deitado na minha cama, enrolado no cobertor como se fosse um casulo protetor, tremendo não de frio, mas de medo e implorando com toda a tenacidade do mundo que eu sobrevivesse às horas sombrias e temerosas da madrugada, pois embaixo da minha cama vivia um monstro.

Eu admito nunca ter, de fato, vislumbrado aquela monstruosidade, nunca tive a coragem de sequer me dispor a lançar uma olhadela ao seu vil antro de malignidade durante o dia quando é, normalmente, quente, iluminado e seguro. Eu ouvia, no entanto, a sua respiração noite após noite, os seus silvos sussurrados e, às vezes, o barulho dos seus membros (seriam mais de quatro?) rastejando pelo chão de azulejos e esbarrando nos itens perdidos na escuridão abaixo da minha cama.

Meu pai dizia ser algo comum da infância, “Ele só tem a imaginação fértil”, era o seu argumento para minha mãe quando ela exibia a sua preocupação. Eventualmente, mamãe convenceu papai a me levar para ter uma consulta com uma psicóloga infantil, ela conversou comigo, fez vários daqueles testes envolvendo figuras, joguinhos e palavras-chave e, no final, diagnosticou-me como sendo uma criança, perfeitamente, normal, “Isso é coisa da idade”, ela disse, “Vai passar com o tempo, não há com o que se preocupar”.

Contudo, havia, na realidade, uma razão para ter preocupação: a criatura perversa debaixo da minha cama. O meu medo evoluiu para pânico absoluto no mês posterior e tornou-se insuportável para mim a mera ideia de pisar no lugar que, no passado, fora o meu castelo, então, eu comecei a passar a maior parte do tempo na sala e na cozinha, dormia no quarto dos meus pais, encolhido entre os dois e aliviado por saber que estava seguro. Ou assim eu acreditava.

— Que barulho é esse? — o meu pai, no meio de uma madrugada qualquer, indagou com a sua voz rouca de sono.

— Eu não sei — minha mãe, sem ao menos incomodar-se em abrir os olhos, disse. — Parece um bicho.

Nesse instante, eu comecei, lentamente, a despertar.

— Eu acho que está vindo debaixo da cama — papai disse. — Eu vou dar uma olhada.

Ele inclinou o seu corpo para esquadrinhar a escuridão e eu, finalmente, vi-me acordado por inteiro, soltei um grito — “Pai! Não!” — e tentei agarrá-lo pela gola da camiseta em uma tentativa desesperada de salvá-lo, no entanto era tarde demais: o monstro apossou-se do corpo do meu pai, arrastando-o para o seu covil e o devorando, vorazmente, com as suas terríveis mandíbulas sem dó nem piedade.

Meu pai teve a sua vida ceifada pela horripilante criatura que vivia embaixo da cama e é por isso que eu limito-me, solenemente, a dormir em redes. Esta é a minha resposta.

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