terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Uma taça de vinho


O Duque de Badam era um homem pragmático, trajava-se eternamente de preto porque esta era uma cor neutra, mantinha os cabelos curtos para não ter de penteá-los, nunca desperdiçava um movimento na vida real nem no xadrez e em nenhum momento parava de pensar nos interesses da cidade-estado regida por ele, uma atitude que servira para assegurar o seu cargo apesar de, tecnicamente, dever tê-lo entregado ao Visconde de Zabiarov há cinco anos.

Um estrangeiro poderia vir a pensar que a estada prolongada do Duque no poder devia-se ao fato de ele ser um homem querido pelo povo. Ledo engano. Na realidade, o povo da cidade-estado detestava-o intensamente, entretanto se um cidadão o encontrasse numa situação de risco, trataria de assisti-lo embora a contragosto. Por quê? Ora, porque mesmo que o Duque fosse uma criatura rígida, antipática, manipuladora e, até um determinado ponto, cruel, ele ainda havia sido o melhor governante da cidade-estado desde, bem, a fundação desta.

Isso somente ocorria porque o Duque, ao contrário dos seus antecessores, era um indivíduo vazio por dentro. Vazio. Notavelmente, ele carecia de qualquer desejo pessoal, algo comprovado pela simplicidade do seu escritório, da sua residência e dos seus trajes, e vivia exclusivamente para assegurar a manutenção e o crescimento da cidade-estado, a qual era — conforme dito pela Srta. Belacqua (sua assistente) — tida pelo nobre político como sendo o seu único e verdadeiro amor. Sim, o homem era apaixonado pela cidade-estado e nada nem ninguém o impediria em sua cruzada para assegurar o esplendor da mesma.

Obviamente, não faltaram tentativas de derrubar o ditador benevolente ao longo do seu governo, os seus opositores, algumas vezes, optaram por empregar estratagemas políticos e, outras vezes, decidiram usufruir de métodos mais — ah — sorrateiros e um tanto ilegais. Ou melhor, bastante ilegais. Completamente ilegais. Métodos que de modo algum poderiam estar mais aquém da lei do que já estavam. Não há um limite para a ambição dos políticos da cidade-estado e tampouco para a capacidade do Duque de frustrar essas incontáveis afrontas contra a sua soberania — era um homem inteligentíssimo e imensamente criativo que vivia segundo o moto esto insolubilis, isto é, “ser indestrutível”.

O que, pelo visto, estava um tanto longe de ser o suficiente para fazer com que os seus adversários políticos aceitassem de uma vez por todas a sua incapacidade de retirá-lo da posição de soberano, tanto é que, nesta tarde, o Conde de Miler tratou de enviar o serviçal tido por ele como absolutamente confiável para um pub dotado de um estado de barulho e lotação constantes com intuito de negociar com um assassino particularmente infame que talvez esteja apto a ter sucesso na missão responsável pelo padecimento de alguns dos seus melhores colegas de profissão.

O serviçal sentou-se no pub para negociar com um homem intimidador que tinha um bigode volumoso e nenhum fiapo de cabelo na cabeça, pediram ao garçom algumas doses de vodca — a bebida característica da estação —, discutiram uns tópicos do dia-a-dia, daí falaram dos detalhes técnicos do assassínio, tornaram a conversar acerca de assuntos mundanos, apertaram as mãos, momento no qual o serviçal depositou metade do pagamento dentro do bolso do outro, e então saíram do local com o intuito de nunca mais se verem.

O bigodudo, ao sair do pub, rumou em direção a um estábulo, procurou por um sujeito gorducho e muito míope cujas feições do rosto lembravam a um ratinho, disse a ele a palavra-passe, o outro homem, por sua vez, proferiu a sua própria palavra-passe, o gorducho deu ao bigodudo um saquinho de couro contendo o seu pagamento, trinta moedas de prata, em troca das oito moedas de ouro platinado endereçadas ao assassino e o papelzinho no qual o bigodudo escrevera os detalhes do serviço. Despediram-se sem uma gotícula de emoção em suas vozes e cada um seguiu o seu caminho.

No caso do gorducho com rosto de rato, o seu caminho era aquele que dava para o Parque Central, o qual, assim como implicado no seu nome, localizava-se no centro da cidade-estado, depositou o papel e as moedas de ouro — havia os colocado no interior de uma mochila velha — dentro de uma lixeira, em seguida foi a um banco disposto em frente à Fonte da Praça, procurou por uma caixinha de ferro oxidado debaixo dele, apanhou-a e, ao abri-la, sorriu diante das quarenta e cinco moedas de prata guardadas no seu interior. Fechou a caixinha, guardou-a por dentro da camisa e retornou para o estábulo com um único pensamento na sua mente: pedir demissão.

Não muito depois disso, um menino de rua que vestia roupas sujas e remendadas veio à praça, pegou a mochila, a levou de volta ao pub, ali a entregando ao seu último portador, o verdadeiro assassino, e, em virtude disso, recebeu como pagamento uma quantia bastante generosa de onze moedas de prata — moedas que, ao contrário das dos outros entregadores, eram genuinamente de prata e não falsificações.

O assassino, o qual, arrogantemente, tomara para si o título de Hashish, pagou pelo que consumira no pub (usou moedas verdadeiras), despediu-se da mulher com quem vinha flertando nas últimas horas, saiu do estabelecimento, direcionou-se para o quarto alugado há duas semanas pelo homem que ele havia matado e então roubado a sua identidade, trancou a porta e as janelas, escondeu a mochila no forro do teto com todo o seu conteúdo a exceção do papelzinho, este foi lido pelo assassino e daí atirado no fogo da lareira, sendo obliterado pelas chamas crepitantes. Ter cuidado nunca é demais.

Uma vez tendo assimilado a informação vital contida no que agora não passava de um punhado de cinzas, o assassino dedicou o resto da tarde para traçar o seu plano de infiltração no Palácio de Governo, aproveitaria o instante da troca de turno dos guardas, andaria pela escuridão, movimentar-se-ia de uma maneira fluida constituída de passos delicados e rápidos, doparia a Srta. Belacqua (caso ela estivesse fazendo hora extra) com um dardo lançado pela sua zarabatana, a qual seria a única arma empregada por ele em conjunto com a adaga dourada adornada por um rubi, uma safira e uma esmeralda que, naquela noite, seria cravada no coração do Duque de Badam, ceifando sua vida e dai se banhando no sangue dele.

O sol pôs-se no horizonte, a tarde terminou e a noite começou. O assassino, um homem ruivo e esguio, pacientemente esperou pela oportunidade ideal para dar início ao seu plano, esgueirou-se para dentro do Palácio de Governo à meia-noite em ponto, teve o cuidado de camuflar-se para confirmar se a informação escrita no papelzinho acerca das rotas das sentinelas era, de fato, verdadeira. Fundiu-se às sombras, subiu a escadaria de mármore, soprou o dardo ensopado com um potente sonífero na nuca da Srta. Belacqua quando esta, inocente ao que ocorria, servia-se de uma xícara de café forte e preto cuja função seria ironicamente a de fazê-la permanecer desperta pela madrugada inteira.

O assassino, um autêntico cavalheiro, incumbiu-se de manter a secretaria numa posição confortável, botou uma almofada que surrupiara durante o trajeto pelo palácio debaixo da cabeça dela, cobriu-a com uma manta, a qual a própria Srta. Belacqua havia trazido naquela noite, e beijou-a na testa enquanto sussurrava um encantador desejo de boa noite antes de adentrar no humilde escritório do Duque de Badam, deparando-se com o homem de cinquenta e quatro anos sentado, calmamente, na sua cadeira e com a atenção fixada em um documento de suma importância para a reforma das galerias de esgoto da cidade-estado.

— Arrem — o assassino, ofendido, pigarreou para ter a sua presença notada.

— Sim, Sr. Assassino, eu o percebi — o Duque, sem desviar o olhar, disse. — Por um acaso o senhor faria a gentileza de esperar eu terminar de ler essa última frase antes de eu atendê-lo.

— Fique à vontade, Sr. Duque — o outro retrucou. — Eu ainda disponho de onze minutos para me desfazer do senhor.

— Eu agradeço do fundo do meu coração pela sua gentileza, Sr. Assassino.

O Duque leu a frase, pôs o papel de lado, encurvou-se sobre a escrivaninha, então juntou as pontas dos dedos e fitou a figura do assassino, o qual, do mesmo modo que ele, trajava-se inteiramente de preto.

— Então, o que posso fazer pelo senhor?

— O senhor poderia permanecer em silêncio e não oferecer nenhuma resistência ao passo que eu cravo essa adaga no seu peito, senhor — ele puxou a arma de dentro das suas vestes.

— É uma peça formidável — o Duque, sincero, comentou. — Uma autêntica obra de Aga Shah Khan III, eu creio.

— Vejo que o senhor entende do assunto.

— Bem, eu já tive minha juventude, Sr. Assassino. Os meus interesses eram um tanto diferentes quando no patamar dos vinte anos.

Levantou-se de repente e o assassino, imediatamente, preparou-se para saltar em cima dele e silenciá-lo com uma mão enquanto a outra forçaria a lâmina dourada contra o seu coração.

— Ora, não há necessidade de eriçar-se desse jeito, Sr. Assassino. Eu não tenho a menor intenção de reagir, ou de gritar pelos meus guardas — ele disse. — Nenhuma ação de tal natureza evitaria o inevitável, isto é, o meu assassinato pela sua pessoa. Eu entendo e aceito isso.

O Duque foi a uma mesinha circular próxima a duas cadeiras acolchoadas, uma garrafa de vinho e três taças de vidro repousavam sobre a superfície de madeira, a rolha da garrafa foi retirada pelo benevolente ditador, o qual procedeu em preencher duas das três taças com vinho tinto, então tornou a selar o recipiente e esticou uma mão para o seu algoz, oferecendo, cordialmente, uma taça de vinho para celebrar aquela ocasião não tão alegre. O assassino, obviamente, conservou-se estático. Não cairia em um truque tão velho quanto aquele.

— Mas eu não acredito! — o político sorriu. — O senhor realmente acredita que eu tentaria envenená-lo? Ora, pois! — soltou um risinho quase que inaudível. — Não seja por isso, Sr. Assassino — bebeu um gole da sua taça e depois da taça oferecida ao homem de cabelos vermelhos. — Então, poderia atender ao pedido de um velho moribundo cujo último desejo é dividir uma taça de vinho com o seu agente da morte pessoal?

O assassino, convencido, aceitou a taça de vinho e, por precaução, limitou-se em sorver apenas um tantinho, mililitros, do delicioso líquido púrpuro.

— Leve, frutado, lembra a banana e a pera com um pequeno toque floral. Há um bom equilíbrio e harmonia na boca, deliciosamente macio — o assassino comentou. — E o contragosto é muito agradável. Pode me informar a safra?

— Do vinho, ou do veneno inodoro, insípido, incolor, fatal e de ação rápida cujo antídoto eu ingiro cotidianamente às seis horas da manhã desde quando me firmei como governante da cidade-estado?

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