
Mordred está sentado no trono de Camelot. Ele é uma figura alta envolvida por uma bela armadura feita de ouro puro e ornamentada por incontáveis inscrições mágicas tracejadas por uma solução originada a partir da mistura do sangue de uma virgem com o de um unicórnio cujo intuito é o de protegê-lo de qualquer male. Sua capa é vermelho-escura, o seu elmo apresenta dois chifres, dando a ele a aparência de um demônio dourado quando veste a guarnição, e a sua espada detém da mesma origem que a sua vestimenta metálica.
Não há outra vivalma na corte. Mordred está, absolutamente, sozinho e escuta cada singelo batimento do seu rígido coração, mantém-se um tanto inclinado para frente, tem os cotovelos apoiados em cima dos seus joelhos e as pontas dos seus dedos estão unidas, gerando uma sombra similar a de uma teia de aranha e ele, que ironia!, se sente preso na teia de uma cruel aranha denominada destino.
O destino escolheu-o para ser uma Criança do Infortúnio, aquele que trará a ruína ao esplendor de Camelot, obliterando cada singela evidência concreta da civilização erguida e amada pelo seu pai, o legendário Rei Arthur. Mordred também tem o coração de um rei e, agora, dispõe-se no trono do governante, entretanto ele nunca terá a oportunidade de governar o reino, uma vez que esta é a última noite da sua vida: ao próximo pôr-do-sol, sua vida será ceifada pela magnânima Excalibur, a espada abençoada pela própria Dama da Lago e a herança da Dinastia Pendragon.
Mordred é o último desta extraordinária dinastia normanda e, de certo modo, também da de Lothian, a qual pertencia sua mãe, Morgause, em virtude do seu matrimônio com o primeiro marido, o Rei Lot. Talvez a ele deva ser atribuída à culpa pelo infeliz destino outorgado a Mordred, afinal, se o Rei de Lothian houvesse triunfado em sua batalha contra Arthur Pendragon, este último nunca teria se deparado com Morgause que o seduziu e, assim, deu luz à Criança do Infortúnio, o fruto de uma relação incestuosa.
Acontece que Igraine, a mãe de Morgause pelo Rei Gorlois, também era a mãe de Arthur pelo Rei Uther Pendragon, o qual assassinou o primeiro marido dela e a tomou como sua esposa, um fato desconhecido por Arthur dada sua criação peculiar na Floresta Savage sob tutela de Sir Ector e do nigromante Merlin onde teve a sua identidade como futuro Rei de Gramarye ocultada até o momento ideal, portanto, deve-se conferir crédito sobre o nascimento de Mordred à ignorância de Arthur e ao desejo de vingança de Morgause que vislumbrou a destruição de Camelot em uma das suas visões proféticas.
Suas visões levaram-na a criar a Criança do Infortúnio, solenemente, para se transformar no arauto da destruição de tudo aquilo amado pelo Rei, deste modo, usurpando de Mordred a chance de ter uma vida só sua: ele era, meramente, um peão no jogo de outra pessoa — um peão destinado à morte. Em sua adolescência, o último Pendragon tentou fugir do seu futuro, escapou de Lothian durante a noite, escondendo-se nas trevas de uma floresta onde, provavelmente, seria devorado por um lobo faminto, o que seria um triste fim, contudo um fim escolhido por ele.
Entretanto, isto falhou em ocorrer devido à intervenção daquele que deveria ser o mais interessado na morte de Mordred: o próprio Rei Arthur. Ele, ao ser comunicado do desaparecimento do filho, partiu em busca da sua criança de olhos dourados imediatamente, negligenciando descansar até por fim encontrá-lo e, quando o fez, abraçou-o com enorme carinho, seus olhos encheram-se de lágrimas e Mordred, pobre menino, também começou a chorar, era um choro de ternura e confusão — por que justo ele, o homem destinado a perecer pela sua espada, viria procurá-lo?
— Porque você é meu filho — o Rei declarou. — Nada nunca mudará isso.
E, então, Mordred tomou uma decisão: ele seria um grande homem, um homem digno de ter o seu nome relacionado com o do nobre Rei Arthur. O tempo passou e a criança tornou-se um adulto, um cavaleiro da Távola Redonda cujas crenças, raramente, coincidiam com as de seu pai, eles viviam em conflito, no entanto respeitavam-se como homens honrados. Mordred conseguiu alguns seguidores para a sua causa, tal número foi crescendo e crescendo e crescendo e, finalmente, ele se encontrou rodeado por um exército capaz de rivalizar com o de Camelot, a qual tinha como uma sociedade corrupta dependente de um governo ultrapassado.
O cavaleiro dourado conduziu o seu exército em um coup d’etat contra o Rei, forçando-o a abandonar o seu castelo e tomando o controle do mesmo, porém Arthur estava longe de ser vencido: recuou para planejar um contra-ataque vexante que ocorreria em Camlann onde ele e sua criança, inevitavelmente, tiraram a vida um do outro.
Raiou o dilúculo e Mordred ergueu-se do trono para confrontar a ofensiva do Rei Exilado, montou um acampamento, delegou tarefas e, ao meio-dia, surpreendeu-se com o surgimento de um mensageiro: seu pai queria lhe falar. O encontro aconteceu no território neutro no centro do campo florido, Arthur salientou o seu desejo pela paz, propondo-se a fragmentar o reino em dois e, então, nomear Mordred como rei de uma metade. Ele aceitou o acordo e abraçou o seu velho pai com felicidade, ora, o destino havia sido vencido! Não...
Um soldado viu-se ameaçado por uma serpente, desembainhou a sua espada e a brandiu contra o réptil, alguém do exército oposto vislumbrou a espada, porém não o ser rastejante, então, tomou aquilo como um ato de traição, as bandeiras vermelhas e as bandeiras brancas marcharam, violentamente, contra si, dando início a fatídica Batalha de Camlann onde a espada de Mordred perfurou o peito de seu pai e este cortou a jugular do filho com um golpe fatal desferido pela lâmina onipotente de Excalibur, a Criança do Infortúnio estendeu sua mão para tocar o rosto do pai e, ao fazê-lo, pereceu. No final, ele era apenas um peão ciente do jogo jogado pelo nefário destino.
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