
Oscar de Béthune estava inclinado sobre a sua escrivaninha, rabiscando, febrilmente, um pedaço de papel abarrotado de números e desenhos geométricos ininteligíveis para os leigos, sua última refeição — um prato de sopa — fora há cinco horas, a vermelhidão dos seus olhos e os bolsões pretos embaixo destes acusavam uma preocupante falta de sono e o odor intimidante das suas roupas conseguia repelir até mesmo a lealdade do seu cachorro, um golden retriever que atendia pelo nome de Digby.
Era de madrugada, um dilúvio em miniatura afligia a cidade, inundando os seus muitos bueiros, expulsando os moradores das galerias de esgoto, metamorfoseando as valas em pequenos córregos de dejetos enlameados e assustando crianças ingênuas com os seus trovões estrondosos cujo ribombar falhava em ser percebido pelos ouvidos do jovem e sem sucesso arquiteto que era Oscar naquela época, ele possuía a oportunidade única de contribuir com o acréscimo de um prédio novo à silhueta da cidade, entretanto via-se perturbado por um terrível bloqueio artístico e o prazo para a entrega do projeto findaria dali a três dias — Oscar estava em uma corrida contra o tempo, daí o porquê de tamanha concentração.
Concentração que o impediu de reparar no altissonante ruído gerado no interior do seu roupeiro e o homem cuspido para fora da mobília, o qual colidiu, violenta e indiscretamente, com o assoalho daquele velho casarão erguido por um arquiteto estoniano. Enquanto que Oscar continuou focado na execução do projeto, o cachorro de pelo dourado levantou-se da almofada do sofá onde se aninhara para, então, ir ao encontro do misterioso visitante noturno, lambeu uma ferida discreta existente na mão dele e emitiu um latido que, na língua dos Canis familiares, era equivalente a um “Oi”, porém, redondamente, diferente de um “Olá”.
— Oi para você também, amiguinho — o homem usou a outra mão para coçar as orelhas de Digby.
Então, ele se colocou de pé, fechou o roupeiro, trancando, inclusive, a sua fechadura com uma chave de prata que segurava com a mão machucada, guardou o minúsculo objeto em um bolso interior da sua jaqueta preta, liberou um longo suspiro de alívio e daí voltou sua atenção para o seu anfitrião canídeo que se mostrava, alarmantemente, faminto.
— Vamos procurar algo para você comer, amiguinho.
O homem procurou pela cozinha, passando, desse modo, pela sala-de-estar e, portanto, ao lado de Oscar, encheu uma tigela com ração e outra com água fresca, o golden retriever soltou um latido de agradecimento e avançou para a refeição ao passo que o visitante serviu-se com os restos de uma pizza fria guardados na geladeira — o gosto estava horrível e a validade acabara fazia algumas semanas, entretanto ele estava tão fatigado e esfomeado que comeria qualquer coisa... Ou melhor, quase qualquer coisa: nada no Universo inteiro o faria pôr um pedacinho sequer de brócolis na sua boca.
— Você tem um kit de primeiros-socorros? — ele perguntou a Oscar.
— Na terceira gaveta do quarto à esquerda perto da televisão — respondeu Oscar, distraído.
— Obrigado!
O misterioso e impossível (quem sai de dentro de um armário? Ninguém!) apanhou o estojo contendo os medicamentos básicos, levou-o para o banheiro onde higienizou os seus ferimentos — um corte na mão esquerda, um golpe no meio da testa e um nariz quebrado — e fabricou os curativos necessários, depois devolveu o kit ao seu devido lugar e foi para a sala-de-estar, sentando em uma poltrona tão confortável quanto às felpudas nuvens douradas de Ga’Hajmek com a intenção de ter um merecido descanso depois da sua última aventura, um encontro nada romântico na catedral com uma guinada para o pior que teve o seguinte pensamento como uma das suas consequências: “Evitar a Belle Dame por um bom tempo”.
— O que você está fazendo aí? — o homem perguntou a Oscar.
— Projetando um prédio — o arquiteto, sem desviar o olhar do papel, respondeu. — Se bem que tentando projetar um prédio seria uma afirmação mais correta — amassou uma folha de papel e a substituiu por outra, voltando ao ponto inicial. — Eu aposto como Niemayer nunca passou por isso — disse Oscar, muito frustrado.
— Oh, você é que pensa! — o homem, com um meneio de mão, exclamou. — Oscarzinho só se encontrou na Arquitetura depois de eu ter provado para ele que, na realidade, o Universo é curvo — contou ao proprietário daquele casarão da Av. das Acácias. — Foi uma ótima viagem, vale salientar.
Somente aí o jovem arquiteto desviou o seu olhar do projeto, deparando-se com o rosto daquele homem cuja idade estava em algum ponto entre os vinte e oitenta anos.
— Você conheceu o Niemayer? — Oscar, um tanto incrédulo, perguntou. — Oscar Ribeiro de Almeida de Niemayer Soares? — ele pronunciou o nome com respeito e admiração sem paralelos. — Niemayer da Esplanada dos Ministérios?
— Sim, sim e sim — o visitante afirmou. — Um fato curioso: você sabia que o Museu de Arte Contemporânea de Niterói foi inspirado na Executrix da 88ª Frota Espacial Autônoma do Império Joker? — comentou. — Oscarzinho ficou que nem uma criança na véspera de Natal quando viu a nave pela primeira vez! — desatou uma risadinha. — Enfim, eu posso dar uma espiada nos seus projetos rejeitados? — ele perguntou.
— Claro, fique à vontade — o arquiteto entregou a lixeira a ele. — Só vou logo avisando que nada disso daí vale a tinta, ou o papel, gastado.
— Eu julgarei isso sozinho, muito obrigado — o homem começou a analisar os pedaços de papel amassado. — Ah, sim, já sei qual é o seu problema — ele, ao terminar o seu estudo, declarou.
— Qual é?
— Você está sendo muito cerebral — tocou a testa do jovem arquiteto. — Goethe, em uma noite enluarada regada a muito vinho, disse que “arquitetura é música petrificada” e, bem, o que é a música senão a linguagem da alma? — filosofou. — Você tem de pôr a sua alma aí, tracejar aquilo que está bem aqui — tocou o peito dele com o dedo indicador. — Não pense. Sinta. Permita-se ser guiado pela música da sua alma.
Oscar dedicou um momento de reflexão àquelas palavras.
— Esse é, na verdade, um ótimo conselho — concluiu. — Obrigado.
— Não há de quê — o outro disse. — Bem, está na minha hora de (nas palavras do meu tio) “picar a mula” — levantou-se depressa. — Seria muito traumático para você ter um bando de romanos invadindo a sua casa — correu de volta ao roupeiro.
— O quê? Ahn? Romanos? — Oscar o seguiu. — Eu estou confuso.
— Sim, você está — o homem jazia diante do móvel. — O que você não está é alarmado — estudou, minuciosamente, a fisionomia do jovem arquiteto. — Por quê? — perguntou. — Você tem um homem estranho saltitando pela sua casa e, ainda assim, age com uma naturalidade patológica.
O mestre de Digby encolheu os ombros.
— Eu estou há quase uma semana sem dormir — disse. — Provavelmente, eu desmaiei de sono, logo, isso aqui é um sonho e você, meu amigo, é uma manifestação do meu subconsciente.
— Uma boa explicação ainda que incorreta — ele bateu palmas. — Você tem talento, rapaz — acertou um peteleco no nariz dele. — Não deixe a ansiedade apunhalá-lo pelas suas costas.
O visitante empunhou a sua chave prateada, enfiou-a na fechadura para destrancá-la, se escutou um som de clique quando ele girou o pequeno objeto, em seguida o guardou outra vez no bolso e, então, segurou a maçaneta do roupeiro.
— E é aqui que nós nos despedimos — ele estendeu uma mão para Oscar que a apertou. — Seja um bom rapaz e não se esqueça de alimentar o cachorro, está bem? — pediu. — O pobre coitado estava com o estômago roncando!
— Eu prometo que darei mais atenção a ele — disse Oscar com um sorrisinho culpado em seu rosto. — Ei, qual é o seu nome? Eu sou Oscar.
O homem coçou a sua cabeleira preta.
— Então, bem, o meu nome... Ah, isso é difícil... Veja bem, eu tenho vários nomes, alguns dos quais eu, particularmente, desgosto e... — pigarreou. — Já que você me descreveu como sendo o seu subconsciente, você pode me chamar de Arquiteto. O Arquiteto. É. Eu gosto do som disso.
— Que assim seja — disse Oscar. — Foi um prazer conhecê-lo, Arquiteto.
— O prazer é todo meu, caro Oscar.
O Arquiteto deu uma piscadela, girou a maçaneta do roupeiro, imergiu na sua escuridão sobrenatural e, ao fechar a porta, ultrapassou as barreiras do espaço-tempo não-tão-contínuo, desse modo, retornando ao local que seria o palco da sua próxima grande aventura: a Cidade Sem Luzes. Ali, na penumbra da rua de paralelepípedos na qual ele aterrissou, era aguardado por uma centúria romana armada até os dentes e sem uma partícula de amor por aquela figura icônica responsável pelo arrombamento e consequente destruição da Cathédrale de La Belle Dame sans Merci.
— Você está preso pelo decreto do Magnânimo Patrício — o centurião, desembainhando a sua espada cuja lâmina possuía escamas de dragão como principal material, declarou.
Um sorrisinho desafiador dotado da dose certa de insubordinação apareceu no rosto fino do Arquiteto.
— Allons-y!
O Arquiteto correu.
E a Cidade Sem Luzes nunca mais seria a mesma.
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